África não é só ‘valência física’: Por que fala de dirigente do Flamengo propaga ideia racista
Alfredo Almeida argumentou que África se destaca pelas "valências físicas", enquanto Europa se sobressai na "parte mental"
Matheus Cristianini
18/07/2025 - 10:06
7 minutos de leitura
Alfredo Almeida, do Flamengo, deu uma declaração racista em coletiva (Arte: Diana Lopes / Trivela)
A apresentação de Alfredo Almeida como novo diretor das categorias de base do Flamengo ficou marcada por uma declaração racista. O português, que fazia parte do departamento de futebol rubro-negro desde janeiro, foi promovido ao cargo com a anuência do diretor de futebol José Boto e deu entrevista coletiva na última segunda-feira (14).
Em uma de suas falas, Almeida foi responder sobre características de jogadores de diferentes regiões do planeta quando transmitiu um senso comum preconceituoso. Ele associou os atletas da África a “valências físicas”, enquanto os jogadores da Europa se destacam pela “parte mental”.
No mesmo momento, a declaração viralizou nas redes sociais e Almeida foi alvo de críticas. Afinal, o dirigente reproduziu um discurso enraizado há anos, mas sem qualquer tipo de embasamento científico.
A repercussão negativa obrigou o português a se retratar. No entanto, esse tipo de pensamento provoca uma reflexão acerca não só da sua gravidade, mas também da relativização feita quando certos preconceitos são propagados em forma de opinião ou “conhecimento”.
A Trivela ouviu um advogado, um sociólogo e consultou estudos para responder e contextualizar: por que a fala do dirigente do Flamengo propaga ideia racista?
O que dirigente do Flamengo disse?
“A África tem valências físicas como quase nenhuma parte do mundo. A parte mental, temos que ir a outras zonas da Europa e do globo”
🎙️ Alfredo Almeida, o novo responsável pela base do Flamengo.
Em sua entrevista coletiva, no Ninho do Urubu, Almeida foi perguntado se tentaria promover um retorno às origens na formação do jogador brasileiro, priorizando aspectos técnicos antes de táticos no Flamengo.
“Aquilo que o atleta brasileiro tem, provavelmente não há em mais nenhuma parte do mundo. Tem a ver com o dom, a magia, a irreverência, a bola fazer parte do corpo, a relação com a bola. Isso não existe em quase parte nenhuma do mundo”, começou o dirigente do Rubro-Negro.
— Depois, existem outras zonas onde há outras valências. Como, por exemplo, a África tem valências físicas como quase nenhuma parte do mundo. Se quisermos ir para a parte mental, temos que ir a outras zonas da Europa — completou.
A Trivela entrou em contato com a assessoria de imprensa do Flamengo para tratar sobre o tema. Em nota oficial, Alfredo Almeida pediu desculpas “se a forma que se expressou causou qualquer desconforto” — a declaração completa do diretor das categorias de base está no final desse texto.
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Por que declaração propaga ideia racista?
A Trivela conversou o advogado brasileiro-nigeriano César Augusto Chidozie, membro do podcast “Ponta de Lança” — programa independente que trata sobre esporte, cultura e política no continente africano. Ele destrinchou os perigos da declaração do dirigente do Rubro-Negro em resumir os jogadores africanos às “valências físicas”.
— A declaração é problemática porque reduz a existência do jogador africano, e dos negros em geral, à questão corporal. Como se fossem desprovidos de inteligência, dando a entender que não tem inteligência para entender funções e táticas dentro de campo.
Chidozie também utilizou como exemplo a percepção pública de Gennaro Gattuso, atual técnico da seleção italiana. Quando jogava como volante do Milan, ele ficou marcado por ser “um jogador destemperado, que cometia muitas faltas”.
Gattuso com a camisa do Milan e Yaya Touré no Manchester City (Fotos: Imago)
“Mas ele era visto como raçudo, alguém que se doava em campo. Em muitos casos, tinha mais força física do que inteligência. Mas por ser branco, ele é raçudo, não é visto como alguém desprovido de inteligência“, ponderou o advogado.
Como contraponto, Chidozie compara o volante típico italiano com Yaya Touré, um meio-campista da Costa do Marfim que ficou marcado pela elegância, técnica e habilidade com a bola, capaz de fazer sucesso como armador de equipes do nível de Barcelona e Manchester City.
— Em refino técnico, olhar para um jogador negro como Yaya Touré e falar que ele só se resume à força, enquanto o Gattuso é raçudo e inteligente, soa um pouco absurdo — pontua o especialista.
Racismo científico e origem na eugenia
A Trivela também entrou em contato com Tadeu Kaçula, sociólogo especialista em relações étnico-raciais, que trouxe um panorama da origem histórica desse tipo de comentário. Segundo ele, resumir as características de um atleta negro às suas qualidades físicas é um pensamento equivocado que se firmou no imaginário popular graças ao “racismo científico”.
Entre o final do século XIX e o início do século XX, a Europa inaugurou o racismo científico, que nada mais era do que tentar criar estudos que justificassem um suposto domínio dos brancos sobre os negros. Uma ação política e social de desqualificação da África e demais continentes não-europeu. Kaçula explica que a ciência eugenista tentou provar a existência de uma diferença entre brancos e negros pela questão intelectual, física e cognitiva.
— Essa foi uma ciência pensada única e exclusivamente para beneficiar os brancos descendentes de europeus e para tentar deslegitimar a capacidade intelectual, criativa, científica dos povos africanos.
O sociólogo reforça que não há qualquer tipo de estudo que comprove a dominância dos povos africanos nas valências físicas, enquanto a população europeia é dominante nos aspectos intelectuais.
— Quando uma pessoa reforça a ideia de que jogadores brancos têm mais capacidade intelectual, por isso que eles conseguem evoluir em detrimento dos jogadores negros que têm a valência apenas física, você reforça uma ideia de que jogadores negros podem ser tratados como inferiores.
Recorrência do preconceito no esporte
Real Madrid x Arsenal, pelas quartas de final da Champions League 2024/25 Foto: (Imago)
Não muito tempo atrás, antes da fala do diretor das categorias de base do Rubro-Negro, um prefeito de uma cidade no norte da Espanha reproduziu mensagem parecida ao tratar a eliminação do Real Madrid nas quartas de final da Champions League para o Arsenal.
Em seu perfil no X (antigo Twitter), Gonzalo Pérez Jácome, gestor municipal de Ourense, apontou um suposto erro de planejamento dos Merengues, que teria priorizado atletas negros para se sobressair em relação aos Gunners no jogo físico.
— Real Madrid pensou que, pelo fato de contratar muitos jogadores negros, faria diferença física nos jogos, é não ter noção de futebol ou atletismo — escreveu o prefeito.
⚽ Que el @realmadrid haya pensado que, por el hecho de fichar a muchos jugadores negros, marcaría la diferencia física en los partidos, es no tener ni idea de fútbol ni de atletismo
— Gonzalo Pérez Jácome -Alcalde de Ourense- (@gonzalojacome) April 16, 2025
A partida entre Senegal x Polônia, pela Copa do Mundo da Rússia, em 2018, foi resumida pelos comentaristas à época como os europeus “lutando o jogo inteiro contra o ritmo e a fisicalidade” dos africanos. O típico caso dos brancos com inteligência tática e trabalho em equipe, enquanto os negros eram limitados ao ritmo e potência.
Polônia x Senegal na Copa do Mundo de 2018 Foto: (Imago)
Para expor o racismo velado, o estudo utilizou a tecnologia de rastreamento da transmissão da provedora de dados canadense “Sportlogiq” para capturar os movimentos de ambas as seleções e transformar os atletas em bonecos palito. Ou seja, sem diferença na cor da pele para quem visualizava.
Desta forma, 58 pessoas assistiram a uma animação de um clipe de dois minutos da partida sem saber quais times estavam assistindo. O resultado foi que 62% escolheram a Polônia, cujos jogadores eram todos brancos, como o time mais atlético.
Para efeito de comparação, outras 47 pessoas assistiram a um clipe normal, em cores reais, de dois minutos da transmissão do jogo de Copa do Mundo pela TV. Então, 70% delas disseram que Senegal, cujos jogadores eram todos negros, era “mais atlético ou rápido”.
Exemplo de como os bonecos palito eram apresentados para torcedores que não sabiam quem era da seleção de Senegal ou Polônia Foto: (Reprodução/Ritmo e Potência: Removendo o Viés Inconsciente das Transmissões de Futebol)
Em outras palavras, as supostas valências físicas que seriam a identidade da escola do futebol africano não foram identificadas quando o telespectador foi privado de reconhecer quem eram os jogadores negros e brancos.
Estereotipização é problema enraizado
O diretor das categorias de base do Rubro-Negro reproduziu um estereótipo racista, cujas raízes do preconceito são antigas e perpetuadas desde antes da criação do futebol. No final das contas, o esporte é só o reflexo da sociedade.
Portanto, perpetuar esse tipo de pensamento que liga africanos ao físico e europeus ao intelecto é perigoso. Tadeu Kaçula evidencia que tal discurso serve para garantir a manutenção da estrutura racializada de poder: o branco em papel de dominância e referência, e o negro na subalternidade.
O viés racista, disfarçado de informação, precisa ser erradicado do esporte, e também, da sociedade. Por mais inocente que essas falas possam soar, o imaginário popular continuará reproduzindo preconceitos porque vira senso comum.
A África não se resume a “valências físicas”, e nem a Europa é referência na “parte mental”. Não existe absolutamente nada que comprove essas máximas e nem que justifique a propagação desse tipo de pensamento.
Esclarecimento de Alfredo Almeida, diretor das categorias de base do Flamengo
“Durante a entrevista coletiva de minha apresentação como diretor da base do Flamengo, fiz uma explanação mais ampla sobre os diferentes perfis de atletas ao redor do mundo e as valências que costumam ser observadas por clubes no processo de formação e recrutamento”.
“Um trecho específico da minha fala, isolado do contexto geral, acabou gerando interpretações que em nada refletem meu pensamento. Por isso, peço desculpas se a forma como me expressei causou qualquer desconforto. Não houve, em momento algum, a menor intenção de soar discriminatório”.
“Tenho total consciência de que há atletas com grande capacidade tática no futebol africano, assim como existem jogadores europeus com enorme talento criativo e brasileiros com impressionante força física. As características dos jogadores não se limitam à sua origem geográfica”.
“Reforço meu respeito a todas as culturas, povos e escolas do futebol. Sigo comprometido com o trabalho de formação no Flamengo, pautado por valores como inclusão, diversidade, ética e desenvolvimento integral dos nossos atletas”.
Jornalista formado pela Unesp, com passagens por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia. Na Trivela, é redator de futebol nacional e internacional.