Brasil

‘Inclusão não é favor’: Como torcedores surdos vivem a paixão pelo futebol

Por que os estádios brasileiros ainda são ambientes excludentes para a comunidade surda?

Na arquibancada, o gol é sentido pela vibração do concreto, no salto coletivo e nos abraços ao redor. Para torcedores surdos, o futebol brasileiro também é vivido com muita emoção. Entre a paixão pelo clube e a falta de acessibilidade plena, eles ocupam um espaço que raramente foram projetados para sua plena integração.

Torcer sem ouvir não significa torcer menos. Significa torcer diferente.

Torcer sem ouvir não significa torcer menos; significa torcer com outros sentidos. O som do estádio dá lugar ao corpo como intérprete do jogo. As mãos seguem o ritmo das jogadas, enquanto os olhos captam cada detalhe.

— Eu sinto o jogo principalmente pela vibração da arquibancada, pelas reações das pessoas, a energia coletiva e pelo que vejo dentro de campo. A vibração realmente transmite emoção e ajuda muito a sentir o clima do jogo — conta Renan Aprigio, surdo sinalizado (que utilizam a Libras como principal forma de comunicação) e torcedor do Fluminense, à Trivela.

Ann Katrin Berger, goleira da Alemanha, faz sinal 'eu te amo' em libras
Ann Katrin Berger, goleira da Alemanha, faz sinal ‘eu te amo’ em Libras. Foto: IMAGO / MIS

Acolhimento a torcedores surdos como regra a ser seguida

Segundo dados do IBGE, o Brasil tem mais de 10 milhões de pessoas com algum grau de deficiência auditiva, sendo cerca de 2,3 milhões com surdez severa ou total. O número representa aproximadamente 5% da população brasileira. Apesar de algumas iniciativas no futebol brasileiro, um esporte largamente considerado democrático no País, a acessibilidade, de modo geral, segue limitada.

Nos estádios, a comunicação muitas vezes não é clara a todos. A ausência de sinalização visual clara, carência de intérpretes de Libras e informações desencontradas fazem parte da rotina de torcedores surdos que tentam acompanhar uma partida.

Apesar da presença de telões nos estádios, muitas informações ainda se perdem. Parte importante da comunicação ainda é feita majoritariamente por áudio, obrigando o torcedor surdo a improvisar, perguntar a desconhecidos ou aceitar a lacuna na informação.

Caio Bachetta é torcedor do Corinthians
Caio Bachetta é torcedor do Corinthians. Foto: Arquivo pessoal

A legislação brasileira prevê acessibilidade em espaços públicos, incluindo comunicação adequada. A Lei Brasileira de Inclusão, de 2015, assegura igualdade de direitos e inclusão social para pessoas com deficiência. No entanto, apesar de alguns esforços pontuais de clubes e federações, a falta de acessibilidade plena e de um trabalho proativo em remover barreiras nos estádios ainda é evidente.

— Em situações de emergência, preciso perguntar para pessoas ouvintes o que está acontecendo, e muitas vezes a explicação vem de forma muito resumida. Seria interessante e importante que os clubes criassem um aplicativo com avisos visuais, vibração no celular e alerta de emergência, priorizando a comunicação visual — conta Liliana Kruger, torcedora do Internacional, que não utiliza aparelho auditivo. Ela é administradora de um grupo de torcedores surdos do Inter no WhatsApp, com cerca de 60 pessoas.

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‘Falta inclusão a torcedores surdos na prática’

Caio Bachetta é torcedor do Corinthians, surdo sinalizado e tenta acompanhar o time sempre que possível na Neo Química Arena, mas enfrenta dificuldades recorrentes, seja para adquirir ingressos ou até mesmo para entender o que acontece dentro do estádio.

O Corinthians fala muito de inclusão, mas, na prática, o torcedor surdo ainda enfrenta dificuldades. Já me senti inseguro várias vezes, porque os avisos são apenas no áudio. Falta legenda ou sinalização visual clara. Além disso, não há interprete de Libras de forma regular. Isso faz muita falta para o torcedor surdo se sentir incluído de verdade — desabafou Caio Bachetta.

Caio Bachetta é torcedor do Corinthians
Caio Bachetta é torcedor do Corinthians. Foto: Arquivo Pessoal

A opinião é compartilhada por Renan Aprígio, torcedor do Fluminense. Para ele, ainda não existem ações concretas de inclusão voltadas à comunidade surda, ficando a representatividade restrita a datas comemorativas.

A falta de acessibilidade não se restringe aos dias de jogos. No cotidiano, torcedores surdos também relatam dificuldades para se associar a planos de sócio-torcedor, participar de ações promovidas pelo clube, comprar ingressos ou até mesmo acompanhar entrevistas e conteúdos publicados nas redes sociais.

— Muitas vezes é necessário o acompanhamento de intérprete de Libras para garantir a comunicação, seja para se tornar sócio, utilizar o SAC ou obter orientações. O museu do Inter também é muito importante para nós, torcedores surdos. Queremos ter acesso com intérprete de Libras para compreender a história do clube. Acho fundamental que entrevistas com jogadores contem com intérprete de Libras, porque os torcedores surdos também querem saber o que está sendo dito — explicou Liliana.

Segundo levantamento da Trivela realizado no fim de fevereiro, entre os 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, apenas o Botafogo legenda todos os vídeos publicados no Instagram. A ferramenta é importante para torcedores surdos acompanharem o conteúdo dos seus clubes nas redes sociais.

As coletiva de imprensas do Vasco contam com intérprete de libras
As coletiva de imprensas do Vasco contam com intérprete de Libras. Foto: Vasco/Youtube

Athletico, Coritiba, Fluminense, São Paulo e Vitória utilizam o recurso de forma parcial, restrito a alguns conteúdos. Os demais clubes não produzem legendas próprias e disponibilizam apenas a ferramenta automática oferecida pela plataforma.

No YouTube, principal canal para a publicação de entrevistas coletivas, o cenário é semelhante. O único clube que garante acessibilidade integral ao torcedor surdo é o Vasco da Gama. O Cruz-Maltino conta com intérprete de Libras para tradução simultânea. As demais equipes repetem o padrão observado no Instagram e recorrem exclusivamente aos recursos automáticos da plataforma.

‘Ainda somos poucos e invisíveis’, dizem torcedores surdos

Renan, Caio e Liliana fizeram amizades com outros torcedores surdos e reconhecem que essa rede de apoio é fundamental para que continuem ocupando as arquibancadas. Em um ambiente com pouca acessibilidade, a parceria se transforma em força, união e pertencimento. Ainda assim, a ausência de políticas efetivas por parte dos clubes contribui para que o número de torcedores surdos nos estádios siga reduzido, quando poderia ser muito maior.

— Ainda somos poucos e invisíveis. Falta intérprete de Libras, telões com legendas, avisos visuais, treinamento dos funcionários. Gostaria que fossem realmente inclusivos, com Libras, acessibilidade e respeito aos torcedores surdos. Inclusão não é favor, é direito — conta Caio.

Com o avanço da tecnologia, tornou-se mais fácil localizar outros torcedores surdos e organizar idas coletivas aos jogos. Grupos no WhatsApp, páginas no Instagram e até núcleos específicos dentro de torcidas passaram a funcionar como pontos de encontro e articulação. Tanto Renan quanto Liliana relataram a existência dessas redes, que facilitam a comunicação e fortalecem o sentimento de comunidade.

— Me sinto incluído pelo sentimento coletivo da torcida, mas a organização entre torcedores surdos acontece mais por iniciativa própria — contou Renan.

Liliana Kruger é torcedora do Internacional
Liliana Kruger é torcedora do Internacional. Foto: Arquivo Pessoal

Política de ingressos ainda gera dúvidas entre torcedores

De acordo com as leis federais nº 12.933/2013 e nº 13.146/2015, o direito à meia-entrada (50% de desconto) é garantido a pessoas com deficiência. Em alguns casos, os clubes também oferecem gratuidade. As experiências no acesso podem ser diferentes.

— É difícil conseguir. Depende muito do dia e do horário — lamenta Bachetta.

— Eu sempre acompanho as informações que o Corinthians divulga sobre o horário de liberação, entro no site e fico ansioso, mas quase sempre aparece como esgotado. Fico sem entender, porque entro exatamente no horário informado. Acredito que faltem mais informações e transparência no processo de ingressos para Pessoas Com Deficiência (PCD)— explicou.

No Fluminense, segundo Renan, o processo é mais simples para garantir presença no Maracanã, estádio que concede gratuidade a torcedores PCD. Ele afirma que a política de troca costuma ser tranquila: o torcedor deve acessar o site do clube na data de abertura das vendas e realizar a solicitação. Depois, é necessário comparecer a uma loja oficial para retirar o ingresso físico.

Apoio de jogadores

É do campo que tem saído alguns dos principais gestos de apoio à comunidade surda. Nos últimos anos, vários jogadores brasileiros têm realizado comemorações com sinais em Libras.

Thiago Galhardo (na época de Internacional e Fortaleza), Marinho (quando jogava no Santos), Gabriel Pec (ex-Vasco), Gabigol (na época do Flamengo), Maurício (Palmeiras) e Pedro (Flamengo) são alguns dos atletas que têm usado esse tipo de celebração, mesmo que para transmitir diferentes mensagens.

“Queria trazer um pouco dessa emoção para essas pessoas. Venho aprendendo diariamente, estudando. Jogador de futebol não pode ter somente responsabilidade em campo, mas fora, principalmente”, contou Marinho após marcar na vitória santista sobre o Atlético-MG em 2020.

Em um esporte tão democrático como o futebol, popular em toda a sociedade brasileira, a inclusão e o acolhimento são obrigações fundamentais.

— Ser torcedor surdo é amar o clube do mesmo jeito, só com outra forma de sentir. O futebol precisa ouvir também com os olhos e com o coração — diz Bachetta.

Corinthians, Internacional e Fluminense foram questionados pela Trivela após as críticas de torcedores, mas até a publicação dessa matéria, apenas o clube gaúcho havia se pronunciado.

Procurado, o Internacional afirmou que todo conteúdo produzido pelo clube e veículado no telão, principalmente no que diz respeito a segurança é anunciado no telão e também através de legendas. O mesmo acontece com a escalação dos jogos. Já em relação a conteúdos nas redes sociais, o Colorado afirmou que as legendas são geradas através da ferramenta automática da plataforma.

— Sobre o Museu, o Inter conta com dois intérpretes freelancer de Libras e está instalando um aplicativo de acessibilidade no Museu e no tour no estádio. Ele irá funcionar como um intérprete de Libras, audiodescrição para cegos e, além disso, terá opções para ouvir a mediação em espanhol e inglês. O app deve estar em funcionamento no mês de março — completou o clube em nota.

Renan Aprigio é torcedor do Fluminense
Renan Aprigio é torcedor do Fluminense. Foto: Arquivo Pessoal
Foto de Gabriella Brizotti

Gabriella BrizottiRedatora de esportes

Formada em jornalismo pela Unesp, sou uma apaixonada pelo esporte em geral, principalmente o futebol. Dentre as minhas paixões, está o futebol argentino e suas 'hinchadas'.

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