Brasil

Por que Flamengo x Palmeiras representa a evolução do futebol e o que isso tem a ver com Guardiola

O ciclo da evolução tática levou quem jogava curto a precisar lançar - e Filipe Luís e Guardiola já entenderam isso

Flamengo e Palmeiras fizeram uma final antecipada do Campeonato Brasileiro no último domingo (19). Foi um jogo que tanto polemizou, por questões de arbitragem, quando elucidou para o público nacional como o futebol tem evoluído.

O futebol no Brasil naturalmente tem referências externas. Dos times que se apaixonaram pelo Jogo de Posição de Pep Guardiola à popularização da Periodização Tática portuguesa, Filipe Luís e Abel Ferreira são exemplos disso.

E mais do que uma vitória flamenguista, o clássico mostrou que a tendência cíclica do futebol de alto nível tem chegado por aqui: os times que dominam a bola com passes curtos já não são mais tão restritos — e, muitas vezes, até preferem jogar longo.

Filipe Luís se inspira em Guardiola para fugir do estereótipo ‘guardiolista’

Quando o Flamengo surpreendeu no Mundial de Clubes, falava-se muito sobre a equipe carioca ser a mais “europeia” entre os sul-americanos. É uma afirmação que faz sentido, principalmente por ser um time que domina a ocupação de espaços racionalmente.

A equipe de Filipe Luís atrai a marcação para abrir buracos entrelinhas, fixa os zagueiros com um centroavante para criar espaços para os meias e desloca os adversários com passes curtos e triangulações. Esse é o cerne de um time “moderno”, que se baseia no Jogo de Posição, e é considerado “europeu”.

Mas mesmo quem atingiu o maior nível de desempenho possível nesse estilo precisou mudar. Pep Guardiola viu seu Manchester City ruir na última temporada — principalmente pela lesão que tirou Rodri de quase um ano inteiro, mas não só por isso.

Filipe Luís precisa encontrar substituto de Léo Ortiz (Foto: Imago)
Filipe Luís, técnico do Flamengo (Foto: Imago)

Guardiola também foi pego no ciclo: com a popularização do jogo de passes curtos e de progressão do time como unidade, os adversários passaram a pressionar cada vez mais alto e forte. E, agora, têm marcado majoritariamente com referência individual.

O problema? Com todos os jogadores sendo marcados individualmente, dificilmente o time terá opções de passe livres e, quando alguém recebe, na maior parte do tempo não terá espaço para progredir.

A solução? Fazer algo impensável para alguém como Guardiola — jogar direto, com bolas longas e avançar rapidamente com poucos passes. A roda do futebol girou tanto até chegar nesse ponto.

Foi exatamente assim que o Flamengo abriu o placar contra o Palmeiras no clássico. O time que tem, de longe, a maior posse de bola do Brasileirão (61%), precisou de apenas três toques, sendo um deles um lançamento do goleiro, para marcar.

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e junte-se à nossa comunidade. Receba conteúdo exclusivo toda semana e concorra a prêmios incríveis!

Já somos mais de 4.800 apaixonados por futebol!

Ao se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

A forma do Flamengo criar contra o Palmeiras ilustra a evolução

No lance do primeiro gol, havia um padrão de marcação natural do Palmeiras e de diversos times de alto nível. Marcação alta e pressão nas opções de passe, não na bola — porque ela estava com o goleiro.

Os palmeirenses estão prontos para pressionar os zagueiros, caso a bola chegue neles, e estão perto dos apoios centrais, para impedir que o Flamengo progrida pelo meio. Isso é o exemplo de como defender um time que prefere sair curto.

gol flamengo 1
A marcação alta e individual do Palmeiras (Foto: Reprodução/getv)

Até pouco tempo, isso bastava. O objetivo desse tipo de posicionamento defensivo era justamente fazer com que o adversário não construísse com passes pelo chão e fosse obrigado a dar um chutão para frente. Dessa forma, sem critério para quem receberia o passe e sem uma clara sucessão da jogada, seria mais fácil recuperar a bola.

Mas não agora. Já que as opções curtas estão marcadas, a ideia é propositalmente jogar longo. Filipe Luís, por exemplo, usou laterais e meias para abrir o campo e liberar espaço no meio e para que o passe de Rossi pudesse chegar a Pedro mais “limpo”, e deixou o centroavante mais alto, para fixar a linha defensiva palmeirense.

O resultado foi um passe direto do goleiro para o centroavante, mas não um chutão. Com Pedro “delimitando” onde a linha de zagueiros do Palmeiras estaria e os meias flamenguistas abertos, havia espaço para Arrascaeta infiltrar.

gol flamengo 2
A forma como o Flamengo manipula a marcação individual do Palmeiras (Foto: Reprodução/getv)

O gol também reforça o padrão de marcação individual palmeirense por todo o campo. Tanto que Fuchs avança para perseguir Pedro e quebra a linha, o que é mais agravado por Piquerez, que também saltou para fechar o ângulo de um possível passe para Luiz Araújo — que não aconteceu.

As ideias centrais do Jogo de Posição seguem: manipular adversários através de movimentação da bola e liberar espaços para serem atacados. O Flamengo fez isso ao longo do jogo inteiro, seja com passes curtos ou longos.

Se o adversário me marcar na saída de bola, eu quero atacar rapidamente. Se ele me pressionar alto, individual, e eu quebrar a primeira linha, quero velocidade”, disse o treinador do City em entrevista coletiva, após um jogo contra o Arsenal marcado pelo menor número de posse de bola da sua carreira.

Claro, Guardiola disse que, depois de ser direto e quebrar a marcação individual, ainda “ama trocar um milhão de passes entediantes”. O ponto é que, agora, ele e seus discípulos não conseguem mais fazer isso com tanta facilidade. Também porque, quando fazem, o resultado já não é mais o mesmo.

A maior diferença nessa altura do ciclo da evolução do futebol é que, aparentemente, os treinadores que ora amaram o jogo curto e abominaram o chutão talvez não sejam mais tão conservadores no que diz respeito à bola longa. Com critério e ainda aplicando as ideias da filosofia que priorizam, o passe longo também tem valor — e ganha jogos.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo