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Felipão precisa reagir para evitar um fim de carreira melancólico

Faltavam menos de cinco minutos para o fim do jogo, e o time do Grêmio, jovem e em reconstrução, olhou para o banco de reservas em busca do seu líder e não o encontrou. Luiz Felipe Scolari, ídolo da torcida tricolor, havia abandonado o barco e ido para o vestiário antes do fim do jogo. Estava bravo com a derrota parcial para o Veranópolis na Arena, “a maior vergonha possível”, segundo ele. Não tão grande quanto os que ainda acreditam na carreira do veterano treinador devem ter sentido por causa dessa atitude.

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Fosse apenas uma controvérsia isolada, como outras que o gaúcho de bigode protagonizou ao longo de 30 anos com a prancheta na mão, tudo bem. Faria parte do personagem que ele sempre construiu. Mas ela compõe uma sequência recente de fracassos, resultados ruins e incongruências com a sua própria história.

Foi surpreendente quando ele assumiu o Grêmio poucos meses depois de sofrer 7 a 1 da Alemanha no Mineirão. Imaginava-se que tiraria algum tempo para descansar e se reciclar depois de um desgastante período à frente da seleção brasileira. Não seria espantoso, por outro ponto de vista, que os clubes optassem por não contratar o técnico responsável pela maior goleada que o Brasil sofreu na história das Copas do Mundo tão imediatamente. O bom relacionamento com o então presidente gremista Fábio Koff pesou.

O começo foi promissor porque Felipão rapidamente fez o que sabe melhor: arrumou a defesa do time, passou vibração e conseguiu que os jogadores mostrassem raça. Brigou por vaga na Libertadores, mas derrapou no final, com nenhuma vitória nas últimas quatro rodadas, e terminou em sétimo lugar. Dudu e Zé Roberto foram embora para o Palmeiras, Hernán Barcos e Marcelo Moreno, para a China.

O time perdeu suas referências. Cheio de jovens, patina no fraquíssimo Campeonato Gaúcho, com uma campanha pífia de três vitórias e três derrotas nas primeiras seis rodadas. O pior de tudo não são os resultados, porque o time realmente foi desmontado e Felipão ficou em uma situação desconfortável (embora já tenha feito times tecnicamente limitados jogarem melhor que esse Grêmio), mas ele não está conseguindo sequer conquistar o grupo.

De acordo com reportagem da ESPN Brasil, Felipão considera que os jovens do elenco estão acomodados. Estes, por suas vezes, estão sentindo-se mal tratados pelo treinador. A “auto-expulsão” do jogo contra o Veranópolis é mais um indício de um distanciamento entre comandante e comandados. Esperava-se que o Scolari paizão abraçasse os seus jogadores e os ajudasse a ficarem de pé novamente, como fez depois do 7 a 1, por exemplo. Esperava-se que os jovens nunca se deixariam acomodar diante de um chefe que sempre soube motivar um grupo e impor respeito.

O risco é acontecer o que sempre foi impensável: Felipão ser demitido do clube que mais o ama. Do segundo nessa lista, ele já foi. Mesmo depois de ser campeão da Copa do Brasil, saiu do Palmeiras pela porta dos fundos, com o time à beira do rebaixamento que foi posteriormente consumado. O título de 2012 parece cada vez mais o canto do cisne da carreira de Felipão, cujo último grande trabalho foi com a seleção portuguesa.

Seria um fim muito melancólico para Felipão terminar a sua carreira enxotado, em sequência, por Palmeiras, seleção brasileira e Grêmio, os três times pelos quais mais venceu e nos quais mais foi amado. Pior ainda se não encontrasse espaço nos outros grandes do país – o que é provável – e tivesse que aceitar algum emprego caça-níquel na China ou no Oriente Médio. Muito pouco para o que Scolari representa na história do futebol, e limitar seu fim de carreira a isso seria pior do que perder do Veranópolis em casa.

Felipão sempre foi complexo. Nunca primou pelo seu conhecimento tático, nem montava equipes vistosas, mas ganhava na raça e no coração. Era o paizão rígido, o tio bonachão que batia boca com os jornalistas e bufava nas entrevistas. Torcedores de Palmeiras, Grêmio e da seleção brasileira sempre nutriram muito carinho por ele enquanto tudo isso significava vitórias e títulos. Os jogadores seguiam suas orientações por identificar nele um vencedor e, sobretudo, um líder. Agora, está deixando de ser um personagem carismático e respeitado por todos para virar o comandante que abandona o barco no meio do naufrágio.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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