Não me entenda mal, por favor. Tampouco, superestime o enganoso placar feito contra uma França igualmente desarrumada e desfalcada de seu melhor jogador (bem como de Fontaine, Platini e Zidane, os únicos que foram capazes de transformar Les Bleus em uma seleção de primeira linha). Mas o Brasil de Felipão tem sim mostrado algumas alternativas de jogo interessantes. Ainda não o faz com regularidade ou constância, é verdade. Não só porque Oscar e ainda oscilam bastante, o que é natural para quem está na faixa etária deles. Mas também porque, na ânsia de testar coisas novas (ou na indecisão sobre por qual delas optar), Felipão acaba atropelando o processo inteiro.

É quase uma lei não escrita que os torcedores cornetem toda e qualquer decisão tomada pelo treinador da . No entanto, poucas trocas fariam grande diferença no futebol jogado pela equipe. Você pode preferir Lucas a , se ignorar o fato de que, medição de talento à parte, o paraibano tem sido bem mais eficaz quando ganha chances com a amarelinha. Pode preferir a , querer que as boas temporadas de Dante e Filipe Luís sejam premiadas, ou mesmo que atue como volante, como tem feito no Chelsea, com boa dose de sucesso. Mas deve admitir que o nível das atuações da equipe provavelmente não sofreria grande alteração.

O posicionamento de Neymar, sim, pode fazer boa diferença. Os momentos mais fluentes dele na seleção de Scolari foram quando o time jogou com uma linha de quatro no meio-campo, com Oscar e Hulk abertos pelas pontas. Neymar flutuava atrás do centroavante. Contra a Inglaterra, o mais novo “parça” do fez um bom primeiro tempo nesta função, mas desapareceu rapidamente quando o técnico restaurou o 4-2-3-1, devolvendo-o à esquerda, onde está mais acostumado a jogar (e a ser encaixotado em jogos importantes).

Contra a França, Neymar seguiu por aquela ponta. Fez boas jogadas de ultrapassagem com e deu a assistência para o gol de Hernanes. Não brilhou, nem foi mal a ponto de justificar os apupos que lhe dirigiram quando deixou o gramado. No próximo sábado, saberemos até que ponto Felipão desistiu de escalá-lo mais solto, ou se estava apenas experimentando, nos escassos amistosos que tinha antes de sua primeira competição oficial neste retorno à seleção.

Lei da compensação

O que anda em falta mesmo é o que o leigo aqui acredita ser aquilo que os especialistas chamam de “mecânica de jogo”. Um exemplo simples: para que Neymar ou Hulk entrem em diagonal, tem de se mexer mais, como fez com perfeição no primeiro gol brasileiro diante da França. E aí entram também as variações necessárias. Se Neymar estiver encrencado pela esquerda, será o momento de rodar a linha de três meias. Quanto mais isso for feito durante um jogo, mais complicado será para o adversário encaixar a marcação. Claro que é preciso entrosamento, mas Hulk, Oscar e Neymar já vêm jogando juntos desde a seleção olímpica de Mano Menezes.

Sabe aquele papo de que “só pode subir um lateral por vez”? E o “Hernanes e Paulinho não podem jogar juntos”, você já leu/ouviu também? Não devem ser tratados como dogmas. e Marcelo podem atacar numa mesma jogada, bem como podemos ter volantes criativos e insinuantes ao mesmo tempo. Desde que haja a devida compensação. É necessário que não se apele para o “tudo ao mesmo tempo agora”, senão o adversário deitará e rolará com os espaços concedidos. Cabe aí uma decisão: escalar um (ou até dois) laterais mais defensivos para dar mais liberdade aos volantes, ou um legítimo cabeça-de-área que segure as pontas de defensores que sobem constantemente?

Na prática, Felipão já fez isso. Por mais impopular que seja escalar Luiz Gustavo ou Fernando, ele terá sempre um jogador mais voltado para a defesa, mas que também sabe sair jogando. Uma baita evolução para quem é do tempo em que se amarrava volante com linguiça (lembra do Galeano?). Mas o bigodudo precisa se desapegar também da crença de que a única saída pelo Brasil está em jogar pelas laterais. Fazia sentido em 2002, quando Cafu e Roberto Carlos estavam no auge e Rivaldo e Ronaldo voltavam de contusões. Já não fazia mais em 2006, quando os mesmos laterais, agora veteranos, foram de solução a problema. 

Laterais ou volantes? Laterais E volantes

Daniel Alves e Marcelo são nomes naturais para as laterais da seleção de 2014. O do Barcelona já é o dono da camisa amarela de número 2 há tempos. E não a perdeu, mesmo jogando só com o nome, já há duas temporadas. Ironicamente, nunca chegou a ser questionado por aqui. O fato de seu reserva na ser um volante improvisado faz com que ele nem sombra tenha. O do Real tem talento e surtos de destempero inegáveis. Graças ao vínculo entre Mourinho e Coentrão (entenda como quiser), Marcelo foi para o banco no clube. Poderia ter o mesmo rumo na seleção, se Filipe Luís fosse mais ofensivo, tendo em mente o que Felipão quer de seu time.

Descartá-los de antemão seria burrice. Ainda falta um ano para a Copa do Mundo (que vale lembrar, é o que realmente importa), tempo suficiente para que a motivação do primeiro e a confiança do segundo sejam recuperadas. O que não significa que os volantes devam ser sacrificados para tal. Paulinho é o melhor jogador do Corinthians, que vem de um 2012 inesquecível. Hernanes é peça fundamental da Lazio, jogando mais avançado. E antes disso brilhava no São Paulo como volante. Parece-me mais lógico esperar que venha deles o diferencial que desafogará a linha de frente da seleção. Até porque ninguém mais vê laterais brasileiros espetados no ataque como elementos surpresa.

Seja quem for o escolhido de Felipão, terá de ter liberdade para chegar no ataque. Durante certos momentos dos amistosos, quando o Brasil marcou no campo adversário, tiveram e até marcaram gols, aquela coisa que, na cabeça de Scolari, só os jornalistas gostam de ver em um volante. Mas como a recomposição defensiva continua frágil, é preciso acertar os ponteiros entre volantes e laterais.

Contra os franceses, o técnico acenou com um esquema onde Hernanes, Paulinho, Daniel e Marcelo contam com um volante mais recuado para servir de cão de guarda. Não resolve todos os problemas e sacrifica um homem de frente. Há de se pensar se é uma solução, mas vale a pena tentar. O problema é que se David Luiz for o escolhido, haverá a chiadeira de “retranqueiro burro, escalou três zagueiros e mais dois volantes!” de gente que ainda não se deu conta de que um time pode ser mais produtivo e até mesmo ofensivo, caso haja um equilíbrio entre setores. Encher o time de atacante até sair gol é algo que só faz sentido no Elifoot (se não sabe do que se trata, pergunte a alguém com mais de 25 anos).

Talvez seja impraticável para esta geração jogar de igual para igual com as melhores seleções do mundo. Os principais jogadores desta equipe só começaram a frequentar o ambiente da seleção após a Copa de 2010, já que Dunga nunca se preocupou com renovação. Some-se a isso o peso de disputar as principais competições do futebol mundial dentro de casa, diante de uma torcida que ainda acha que “com o brasileiro, não há quem possa!”. Para ajudá-los a tentar o que parece cada vez mais improvável, Felipão precisa usar todas as suar armas, e não se concentrar em uma ou outra. Um bom primeiro passo seria trabalhar para que os volantes e laterais envolvidos sejam decentemente aproveitados. Alternadamente, se preciso for.