O que aconteceu com o União Bandeirante, primeiro time de Fábio e que não existe mais
Aos 44 anos, histórico goleiro de Fluminense e Cruzeiro chegou aos 1390 jogos disputados e quebrou um incrível recorde do futebol mundial
Imagine um clube de futebol, com uma bela história, ídolos, diversos títulos conquistados, mas que de uma hora para outra deixou de existir, deixando para trás toda uma estrutura com estádio e CT, torcedores apaixonados e uma cidade com expectativa de que em algum momento o clube volte a ser o responsável pelas alegrias do local.
Essa é a história do União Bandeirante, clube que ficava localizado na cidade de Bandeirantes, na região Norte do Paraná. Extinguido em 2006, a instituição foi uma das mais tradicionais do futebol paranaense e teve como um de seus jogadores mais ilustres o goleiro Fábio, atualmente no Fluminense.
Se entrar em campo neste sábado (16), diante do Fortaleza, pelo Campeonato Brasileiro, Fábio alcançará a incrível marca de 1390 partidas oficiais e se tornará o jogador com mais partidas oficiais na história do futebol mundial.
Fábio igualará o goleiro inglês Peter Shilton, que se aposentou em 1997 tendo disputado 1390 partidas oficiais, segundo dados do Guinness World Records. O histórico arqueiro tem passagens pela seleção inglesa, Leicester, Nottingham Forest, West Ham, Southampton, dentre outros clubes.
O goleiro brasileiro, hoje com 44 anos, tem passagens pelo Vasco, Athletico e Cruzeiro (clube que defendeu por mais de 16 anos), fez suas primeiras defesas justamente no União Bandeirante, em 1997.

Fábio: De Nobres, no Mato Grosso, para o mundo
Nascido em 1980, Fábio Deivson Lopes Maciel sempre teve interesse pelo futebol e logo cedo começou a atuar como mascote, ajudante de roupeiro e engraxate de chuteiras no time amador que pertencia ao pai, em Nobres, uma cidade de apenas 15 mil habitantes no Mato Grosso.
A paixão pela bola fez com que o jovem saísse de casa aos 14 anos em busca de seu sonho e, em 1994, ele se mudou para a cidade de Bandeirantes, no Paraná, distante mais de 1,5 mil kms da sua terra natal, após ter sido aprovado para as categorias de base do clube da cidade.
Indo contra o desejo da própria mãe, que queria a permanência do filho em casa, o garoto foi em busca de seus sonhos. Inicialmente, tudo parecia bem, mas com o passar do tempo, Fábio começou a se sentir sozinho e chegou a pensar em desistir da carreira.
— Era a primeira vez que eu ficava por minha conta. Um menino, o caçula da família, sozinho longe de casa atrás de seu sonho de ser jogador de futebol. No começo a empolgação é grande, a gente se sente forte, adulto, só alegria. Mas não demora pra saudade começar a apertar. É duro. Quem está começando, pais e atletas, precisa saber disso. Porque essa sensação, em muitos e muitos casos, faz com que a garotada abandone o sonho de ser jogador. Tem que estar amparado. Eu quase desisti. Faltou um tantinho assim — contou o atleta em texto escrito ao “The Players Tribune”.
Uma conversa com sua irmã mais velha, Fabiana, fez com que ele mudasse de ideia e permanecesse firme na decisão de seguir jogando. Foi aí que tudo mudou, e a trajetória do arqueiro teve uma disparada.
Daí em diante, tudo mudou. Quem trabalhou com o goleiro nessa época relembra com carinho a passagem dele pelo time paranaense.
— Tive a honra de começar com o Fábio no União Bandeirante, jogamos juntos do infantil até o profissional e descíamos também para jogar nas outras categorias. O Fábio sempre foi diferenciado, desde o infantil ele já era acima da média dos demais. Nos treinamentos, era bem dedicado — relembra o ex-jogador João Cesco à Trivela.
Mostrando que tinha um diferencial, o arqueiro foi chamando a atenção. Segundo Lio Evaristo, técnico de futebol que trabalhou com o Fábio na equipe paranaense, o goleiro sempre se destacou.
— Eu estive três anos com ele e foi uma época em que o União começou a ganhar títulos na categoria de base, participar de torneios internacionais e a servir a seleção brasileira de base — iniciou o ex-técnico.
— Ele sempre passava confiança para a equipe. Além disso, sempre foi pegador de pênaltis. Uma vez, fomos para uma disputa de pênaltis e, antes de iniciar as cobranças, ele disse que era para os companheiros acertarem o gol, que ele garantiria a defesa de três chutes. E aconteceu. Ele defendeu três das cinco cobranças e nos classificamos — contou à Trivela.
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Os primeiros anos no União Bandeirante e a seleção brasileira
O tempo passou e Fábio chegou às categorias principais da equipe em 1997. Na mesma época, conseguiu um feito marcante. Ele se tornou um dos únicos atletas do União Bandeirante a ser convocado para as categorias de base da seleção brasileira, sendo, posteriormente, campeão sul-americano e mundial sub-17.
— Eu jogava no interior do Paraná. Quem prestava atenção no União Bandeirante? Mas aconteceu um campeonato juvenil em que o União foi uma das sedes. Na nossa chave, tinha o Matsubara e a Portuguesa. Se classificavam duas equipes por grupo para o mata-mata em Curitiba e a gente não passou — iniciou o jogador no texto publicado no “The Players Tribune”.
— O Matsubara foi desclassificado por uso de jogador irregular. O União ficou com a vaga e nós fomos jogar contra o Athlético-PR. Todas as partidas no mesmo dia, no mesmo horário, na capital. O pessoal da seleção tinha ido ver Flamengo, o Cruzeiro, os times de maior expressão. Só que caiu uma tempestade, um dilúvio, e o nosso jogo, só o nosso, precisou ser interrompido. Ficou para o dia seguinte. Adivinha: só sobrou União x Atlético-PR para os caras da Seleção assistirem. E eles assistiram — completou.

Com apenas 17 anos e boas atuações na equipe paranaense, Fábio era destaque. Treinado pelo técnico Agnel Marques, o jogador garantiu sua vaga defendendo a camisa do Brasl pela primeira vez. O momento é lembrado com carinho pelo ex-treinador, que ajudou o goleiro a ter sua primeira convocação.
— A primeira convocação para a seleção brasileira sub-17 foi comigo. Eu tinha na época 26 anos e treinava garotos de 16 e 17. Era equipe juvenil e eu sempre dizia a eles que aquele que trabalhasse mais, se esforçasse, seria um vencedor. E dessa equipe saíram vários jogadores como Vandinho, Godoy, Casagrande. O Cesco também foi convocado para a seleção brasileira naquela época — lembrou o ex-treinador Agnel Marques.
— O União Bandeirante nunca tinha tido o privilégio de convocar ninguém desde a minha contratação. Eu pedi no primeiro dia que cheguei para fazermos contato com o pessoal da CBF, que a gente conhecia, para que eles viessem ver o Fábio. Após quase seis meses de treinamentos, disputando várias competições, nós conseguimos colocar quatro jogadores na Seleção. E o Fábio era destaque, era um menino dedicado, sempre temente a Deus. Ele nunca tinha altos e baixos, sempre acima da média de todos — explicou Agnel.
Assim como lembrou o “professor” Agnel, outros atletas do União Bandeirante também tiveram a oportunidade de usar a camisa da Canarinho na mesma época. Pré-selecionados ao lado do arqueiro, outros três nomes da equipe paranaense marcaram presença. Dentre eles, João Cesco que se tornou um grande parceiro do goleiro dentro de campo.
— Se eu não estiver enganado eu e mais quatro jogadores do União fomos pré-selecionados. Poucos dias depois tivemos outra competição em São Bernardo, em que muitos clubes grandes participaram, e num jogo de mata-mata enfrentamos o Corinthians. Nesta partida, o treinador da seleção brasileira, Carlos César, estava na arquibancada para observar os jogadores pré-selecionados que defendiam o União e também o Corinthians, fomos muito bem no jogo e dias depois Fábio e eu estávamos na lista oficial de convocados para a seleção brasileira, tive o privilégio de estar presente na primeira convocação do Fábio para a Seleção — contou João Cesco.
Brilhando e sendo destaque, Fábio não permaneceu por muito tempo no União Bandeirante. O jogador logo chamou a atenção de equipes de centros maiores e, em 1998, foi emprestado ao Athletico. Depois, teve sua primeira oportunidade no Cruzeiro, também por empréstimo, e foi vendido ao Vasco em 2000, se despedindo de vez do União Bandeirante, o clube que revelou todo o seu talento para o futebol

O fim do União Bandeirante
Cinco anos após a saída de Fábio para o Vasco, o clube do norte do Paraná não conseguiu permanecer em funcionamento. Era final de 2005, e a equipe fundada pela família Meneghel em 15 de novembro de 1964 encerrava suas atividades.
— O União encerrou suas atividades, de fato, em 2006, quando passou a enfrentar dificuldades financeiras e a perda do apoio da usina de Açúcar e Álcool, como a cidade de Bandeirantes não comportava um time de futebol profissional por falta de patrocínio, o time deixou de existir — explicou o ex-jogador do clube Jairo Silva.

Além de Fábio, o clube também revelou e colecionou passagens de outros jogadores de renome como Brandão, que defendeu Cruzeiro, Grêmio, Shakhtar Donetsk e Olympique, além de outros tantos jogadores que participaram da história vitoriosa da equipe.
— O futebol paranaense perdeu em 2006 uma de suas glórias do interior do estado, o União Bandeirante Futebol Clube fechou suas atividades depois de 42 anos de ininterrupta participação no Campeonato Paranaense. O desaparecimento do caçula milionário foi inevitável com o afastamento do patrono Serafim Meneghel, que por problemas de saúde, deixou também o comando da Usina Bandeirantes, que por toda sua existência, manteve o futebol do clube alvinegro fundado em 1964. Entre as conquistas e os grandes times formados, o clube foi marcado por um grande acervo de histórias e folclóricas passagens quase sempre envolvendo o comendador Serafim Meneghel — diz trecho de uma notícia do portal “Futebol Paranaense” da época.
Finalista do Campeonato Paranaense em cinco ocasiões (1966, 69, 71, 89 e 92), a equipe marcou a história do futebol paranaense e deixou fixado na memória do torcedor um passado de glórias e atletas revelados por lá. Até os dias atuais, os cidadãos da pequena cidade de Bandeirantes, de cerca de 32 mil habitantes, sonham com o retorno das atividades da instituição, que ainda possui as instalações no local, mas sem uso.
— Sem qualquer alarde, uma página do futebol paranaense foi encerrada no dia 4 de agosto de 2006. Após 42 anos de ininterrupta participação no Campeonato Paranaense (um recorde no interior), o União Bandeirante encerrou suas atividades, alegando dificuldades financeiras. A FPF (Federação Paranaense de Futebol) só foi comunicada da desistência em dezembro, mas a saída era esperada desde 2005 — escreveu o blog “História do Futebol”.
Em uma de suas últimas partidas, a equipe mostrou garra diante dos seus torcedores. Contra o Coritiba, clube da capital paranaense, o time da modesta Bandeirantes venceu por 1 a 0 no estádio Luís Meneghel, deixando bastante saudade e nostalgia aos seus apoiadores.
Mas e o Fábio?

Diferente do destino do seu clube formador, Fábio viu sua carreira decolar cada vez mais. Após a passagem pelo Vasco se encerrar em 2004, o jogador foi contratado em definitivo pelo Cruzeiro e lá viveu as maiores glórias da sua carreira.
Pedindo passagem e conquistando espaço, o arqueiro não só escreveu sua história pessoal, mas também fez parte da história cruzeirense por 16 anos, se tornando o atleta que mais vestiu a camisa da Raposa e conquistando 12 títulos, dentre Campeonatos Brasileiros, Copas do Brasil e torneios estaduais.
— A trajetória vitoriosa do Fábio, se deu por sua dedicação e comprometimento com o dia a dia de treinos, quanto ao desempenho e a regularidade, é fruto dos cuidados extracampo. Fábio não tem vícios, se ocupa com leituras nas horas de folga e prioriza o descanso, por isso a longevidade na carreira — disse o ex-jogador Jairo Silva.
Mesmo com o sucesso conquistado pelos anos de Cruzeiro e Vasco, Fábio nunca esqueceu suas origens e sempre se manteve próximo das pessoas que o ajudaram e estiveram ao seu lado durante o início da sua carreira. Atualmente, o arqueiro defende o Fluminense, contratado no início de 2022.

— Fábio continua sendo uma pessoa humilde, a fama não subiu pra cabeça dele, alguns anos atrás entrei em contato com ele pedindo para dar uma força para o meu sobrinho que também estava querendo ser jogador. Já fazia um bom tempo que não conversávamos, mas parecia que nunca tínhamos perdido contato. Foi bacana a conversa e ele deu a maior força para o meu sobrinho, ajeitou o teste pra ele, o buscou na rodoviária, deixou ele alojado em um hotel e pagou todos os custos, enfim, foi muito prestativo, solidário, e isso mostra a pessoa de bem que o Fábio é, serei sempre grato pelo que ele fez — relembrou com carinho João Cesco.
Agora, no Tricolor Carioca, Fábio segue fazendo a história, mesmo aos 44 anos. Além de se tornar o jogador com mais partidas na história do futebol mundial, o arqueiro também segue empilhando títulos, incluindo o da Libertadores da América em 2023.
Além da principal taça das Américas, o jogador também tem outros cinco títulos no tricolor: Taça Guanabara (2x), Campeonato Carioca (2x) e Recopa Sul-Americana.
— Eu admiro o Fábio por se cuidar, cuidar da carreira dele, pelo homem e pai de família que ele virou. Está fazendo uma carreira perfeita. Onde passou foi exemplo de atleta e de homem — lembrou com carinho o treinador Lio Evaristo.



