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Eternos um ao outro, Renato Portaluppi deixa o Grêmio com muita história, em separação que faz bem aos dois lados

Ídolo máximo do Grêmio, Renato Portaluppi deixa o clube maior do que chegou como técnico, fez história e encerra um ciclo que estava claramente no fim

Ver um ídolo sair é sempre dolorido. Mesmo quando as coisas não estão mais tão bem, quando as rusgas são constantes e a felicidade já parece distante. Decidir pelo fim é sempre complicado, porque as boas memórias levam a imaginar, quem sabe, que a felicidade vai voltar. Renato Portaluppi pediu demissão e deixou o Grêmio nesta quinta-feira, em uma decisão que acabou tomada em comum acordo, já que ele já era questionado internamente e a sua demissão era cogitada depois da eliminação na fase preliminar da Libertadores diante do Independiente del Valle.

O treinador encerra a sua terceira passagem pelo clube com uma coleção de sete títulos, incluindo a Copa do Brasil e a Libertadores, além de três campeonatos gaúchos. Foi um período que Renato reconstruiu a sua carreira. Chegou para substituir Roger Machado e mudou o time para melhor: fez com que o Grêmio tivesse um futebol atraente, envolvente e vencedor. Passou a disputar muitos dos títulos que vieram depois. Era o treinador mais longevo entre os times da Série A, há mais de quatro anos no comando. Deixa o Grêmio como o treinador que mais comandou o clube na história, com 411 jogos (211 vitórias, 110 empates, 90 derrotas), títulos importantes e eternizado como uma lenda, simbolizada pela estátua que ganhou, mas que vai muito além disso.

Renato gostava de se envaidecer ao dizer que o seu time jogava o melhor futebol do Brasil. Em vários momentos, isso foi verdade. Em 2016, conquistou o título da Copa do Brasil, encerrando 15 anos de seca nacional, e em 2017 foi o seu ápice: conquistou a Libertadores, título que o clube não ganhava desde 1995, com Luiz Felipe Scolari. Fez com que o Grêmio igualasse Santos e São Paulo com três títulos, os brasileiros que mais venceram. Igualou também a marca rara de ser campeão da Libertadores como jogador e técnico, e pelo mesmo clube.

O Campeonato Brasileiro é talvez o ponto mais questionado do trabalho de Renato ao longo dos anos. Não que o seu time tenha feito campanhas ruins. A pior delas foi justamente quando o técnico chegou, em 2016, que foi nono; nos três anos seguintes, ficou em quarto, garantindo classificação à Libertadores. Por fim, ficou em sexto na temporada passada, 2020, e só conseguiu vaga na fase preliminar. A queda para o Independiente del Valle acaba sendo uma punição por não ter conseguido ficar em uma colocação melhor.

A perda do título na final da Copa do Brasil também teve um peso, já que era uma chance de mais uma taça e que ainda daria, de brinde, uma vaga na fase de grupos. A derrota aconteceu, o que é normal diante de um adversário forte como o Palmeiras, mas a forma como isso aconteceu acaba pesando contra o treinador. Em 2019, a forma como o time foi eliminado na Libertadores também incomodou contra o Flamengo, tomando um 5 a 0 no Rio de Janeiro, que deixou marcas.

O futebol do Grêmio já não era mais o mesmo. O treinador teve acertos e erros, com muitos jogadores recuperados, outros que foram apostas furadas. Se antes o time tinha problemas para ser regular a ponto de brigar pelo título brasileiro, mais recentemente tem oscilado dentro das partidas. Nos dois jogos contra o Del Valle, o time teve bons momentos, não aproveitou e acabou derrotado.

A derrota deixou a situação de Renato mais complicada. Os questionamentos que vinham da torcida aumentavam, assim como o questionamento interno. O treinador resolveu se antecipar. Pediu demissão e foi acatado pelo clube, que já analisada a possibilidade de demiti-lo. Sua saída acontece quando parece que não há mais caminho a seguir. Renato conseguia ganhar os Gre-Nais, o que tem um peso, mas faltava muita coisa ao time.

A saída de Renato Portaluppi acaba sendo um marco para o Grêmio, porque não há treinador que chegue com o respaldo que o ex-atacante teve. Um ídolo histórico, que conquistou taças, fez o time jogar um grande futebol e virou estátua. Nenhum treinador, por melhor que seja, encontrará um ambiente de tanto apoio quanto ele teve. O próprio Renato, aliás, não encontrará um clube que o apoie como o Grêmio apoiou nesse seu tempo na casamata.

Quando Renato chegou ao Grêmio, em 2016, seu grande respaldo era a idolatria como um dos maiores atacantes da sua geração, eternizado com a camisa 7 com títulos e grandes atuações. Deixa o Grêmio com outro status enquanto treinador. Se colocou na lista de grandes técnicos, foi especulado em outros clubes, como o Flamengo, antes da chegada de Jorge Jesus, e provavelmente voltará a ser especulado no rubro-negro no futuro. Terá um mercado maior do que tinha quando assumiu o Grêmio.

O trabalho no Grêmio fica na história. O saldo é positivo, embora os últimos meses tenham deixado muito mais questionamentos do que elogios. O Grêmio precisará encontrar um novo caminho e não terá uma missão fácil. Escolher um novo treinador, que possa aproveitar algo que foi construído nos últimos anos, jogar tudo fora, é um desafio. A Renato resta esperar por novos convites, que certamente virão, e de mais lugares do país além dos seus ex-clubes. A separação do ídolo e do clube, neste momento, faz bem a ambos. O futuro ninguém sabe. Como diz a música do Titãs, “É cedo ou tarde demais pra dizer adeus, pra dizer jamais”.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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