Brasil

Será que esses cartolas têm mesmo o coração corintiano?

Comédia do absurdo que vem marcando a administração do futebol do Corinthians é o maior desrespeito da história do clube para com sua Fiel torcida.

A sucessão de absurdos que aflige os corintianos nos últimos anos é inversamente proporcional ao amor da Fiel torcida pelo time.

O Corinthians, como todo grande clube do Brasil, sempre esteve envolto em bons e maus momentos, em graves crises e épocas de fartura. Mas não me lembro de uma fase em que a administração do time de futebol tenha sido marcada por tantas trapalhadas e desmandos como no recorte dos últimos dez anos. A começar pela construção do novo estádio, que precipitou uma condição de endividamento de difícil solução.

O caminho obscuro que o Corinthians tomou atrapalha há anos

Além disso, o Corinthians enveredou por um caminho obscuro na relação com empresários e jogadores. Durante um tempo o clube teve mais de cem atletas profissionais sob contrato, sendo que alguns deles nem chegaram a jogar com a gloriosa camisa corintiana.

Quando acertou na aposta com Fábio Carille, o grupo que mandava no Corinthians pensou ter encontrado uma fórmula mágica, a de jovens treinadores com custo baixo, confiando na capacidade de revelar jogadores e na força da torcida. Osmar Loss, Sylvinho, Fernando Lázaro, Jair Ventura, Dyego Coelho, Tiago Nunes. O novo Carille nunca aconteceu – inclusive ele próprio. 

Desesperado com a possibilidade de rebaixamento no Campeonato Brasileiro em 2021, o presidente Duílio Monteiro Alves montou um time de atletas experientes e com história no clube. Deu certo para a necessidade, mas criou-se um buraco de competitividade que ainda não foi preenchido. O que era bom para uma situação de emergência revelou-se um problema de efeito retardado.

A surrealidade do Corinthians: quanto mais arrecada, mais deve

Nesse recorte histórico a partir de 2014 o Corinthians construiu uma situação surreal: quanto mais arrecada, mais deve. Isso em se tratando de um dos maiores potenciais de arrecadação do futebol brasileiro. As notícias de dívidas de 40, 200 milhões com empresários e jogadores viraram rotina. Como se chegou a isso? Quem avalizou esse tipo de situação? 

A campanha que elegeu Augusto Mello foi tratada desde o início pela comunidade corintiana como uma escolha pelo menos pior. Os péssimos resultados de campo foram determinantes para a vitória da oposição, após um longo domínio do grupo de Andrés Sanchez. Talvez inebriados pelo holofote proporcionado pela incrível popularidade do Corinthians, os novos dirigentes foram vencidos pela verborragia. Falam pelos cotovelos, fazem promessas que não sustentam, anunciam bravatas como “acabou a farra de Flamengo e Palmeiras”. Mas no mundo real, longe dos holofotes, pagam micos como jogador treinar pelo clube e não assinar, atleta ter a renovação anunciada e a mesma não se concretizar, desmentidos públicos.

Paixão pelo Corinthians é potencial nada explorado

O Corinthians é uma paixão cujo potencial é infinitamente superior ao das pessoas que estão comandando o clube há bastante tempo. Seria desonesto avaliar a nova administração sob o mesmo parâmetro de um grupo que assumiu logo após o rebaixamento de 2007. 

A tradução dos problemas para a realidade do time é cristalina. O time de hoje está pior que o de 2023, que cumpriu um ano medonho. O Corinthians segue sendo um time que joga futebol sem alegria, sem entusiasmo. Vontade não falta, mas não tem nada a ver com alegria e entusiasmo em praticar o futebol. Some-se a isso a pressão burra e desnecessária de maus torcedores e nada de bom pode vir. 

O momento é de tranquilidade. De sumir dos holofotes, de deixar de lado a vaidade e os vídeos vazados ou não, de parar de prometer contratações que não podem ser feitas. O Corinthians precisa de um meio-campo. Não há time de futebol que funcione sem esse setor. Pode ser um meio pegador, pode ser criativo, pode ser as duas coisas. Mas tem que ser meio-campo, o que o Corinthians não tem.

É bizarro, mas Corinthians já tem uma decisão (precoce) no Paulistão

O jogo de domingo (4/02) contra o Novorizontino é uma decisão precoce. Com apenas três pontos em quatro jogos, sendo três derrotas consecutivas, o Timão está em décimo-terceiro lugar na classificação geral dos 16 times e em último no grupo C. O adversário tem um bom time, deu trabalho ao Palmeiras na estreia, tem projeto de futebol e fez boa campanha na Série B, ficando a um ponto do acesso.

Mano Menezes precisa de tempo para respirar na execução do trabalho. Seu passado mostra que é capaz. Vide o que fez no próprio Corinthians em 2008. O time foi eliminado na primeira fase do Paulistão no ano em que jogaria a Série B. Jogou, ganhou a B e foi vice da Copa do Brasil. No ano seguinte, turbinado por Ronaldo Fenômeno, ele, sim, a grande revolução na história do clube, plantou a semente para o período de glórias que viria até 2015.

Mas para isso é preciso que os cartolas (eles detestam ser chamados assim) provem que o amor que dizem ter pelo clube é maior que o que sentem pelas suas próprias imagens em fotos e vídeos ou pelos interesses políticos e particulares.

Seria o caso de perguntar a algum doutor alvinegro se eles têm mesmo o coração corintiano ou é um engano?

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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