Entre os males o menor, Felipão ganha uma inesperada chance de se redimir
Parece inacreditável, mas é verdade: Luiz Felipe Scolari está de volta ao futebol brasileiro. Tudo aconteceu muito rápido. Até a última quarta-feira, ele não era especulado em nenhum clube do país e considerava uma proposta da seleção sul-coreana. Mas o Palmeiras demitiu Roger Machado, depois da derrota para o Fluminense, e decidiu que precisava de um “medalhão” para corrigir o rumo da sua equipe. Dos integrantes da lista tríplice que saiu na imprensa, Felipão foi o primeiro procurado, aceitou e assinou contrato até 2020. Entre Dorival Júnior e Vanderlei Luxemburgo, era o menor dos males.
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Ao assinar a rescisão de Roger Machado, a diretoria palmeirense encontrou-se em uma sinuca de bico. Não havia escolha óbvia para sucedê-lo. No máximo, algumas razoáveis. Poderia ser Zé Ricardo ou Jair Ventura, mas ambos têm um perfil parecido com o do demissionário e o de Eduardo Baptista, que não deram certo, e ambos foram recentemente demitidos em baixa. A alternativa seria um estrangeiro, o que foi rapidamente rechaçado porque havia certa urgência. O novo nome tinha que ser confirmado antes do confronto contra o Cerro Porteño, em 9 de agosto, e negociações com profissionais de fora costumam demorar. Além disso, atirar um treinador que não conhece o futebol brasileiro no meio de uma maratona de partidas todas as quartas e todos os domingos seria um risco.
Talvez a atitude mais sensata tivesse sido manter Roger Machado um pouco mais. No entanto, uma vez que ele foi demitido, alguém precisaria treinar o time do Palmeiras. Alexandre Mattos e companhia decidiram mudar de direção. Queriam um treinador experiente, com currículo de conquistas em mata-mata, para tentar ganhar as duas competições eliminatórias em que ainda se encontram (Libertadores e Copa do Brasil). Na base da tentativa e erro, também buscaram um nome mais forte depois das apostas em profissionais jovens e em ascensão. Abel Braga caberia nesse perfil, e foi a primeira escolha no fim do ano passado, antes da chegada de Roger, mas o ex-treinador do Fluminense ratificou que volta ao batente apenas em 2019.
Entre Dorival Júnior e Vanderlei Luxemburgo, os outros candidatos, Felipão era o menor dos males. Luxemburgo tem relação mais difícil com os jogadores e passa seu tempo livre dando entrevistas na televisão para provar que não se reciclou, nem pretende se reciclar, em um esforço muito grande para nunca mais ser contratado por nenhum clube grande. Também tem um passado vitorioso no Palmeiras, mas inspira menos carinho do que Scolari. Dorival é, de todos, o que tem um fracasso na Rua Turiassu mais fresco na memória: quase foi protagonista do terceiro rebaixamento, em 2014. Depois disso, teve uma passagem boa no Santos e não foi bem no São Paulo.
Felipão, depois de ser eliminado de maneira humilhante da Copa do Mundo de 2014, voltou ao Grêmio, e não fez um bom trabalho. Conseguiu uma sequência interessante de resultados no Brasileirão, com direito a uma goleada contra o Internacional, mas encerrou a campanha de sétimo colocado com quatro partidas sem vitória. Perdeu o Grenal da decisão do Campeonato Gaúcho do ano seguinte e alcançou um aproveitamento geral de 58%, com um estadual no meio, no qual o clube sempre vai ganhar a maioria das partidas. Seguiu para a China ganhar os seus milhões de dólares. No Guangzhou Evergrande, fez o que tinha que fazer: em três temporadas, três títulos nacionais e a conquista da Champions League asiática de 2015. Mas não vamos nos iludir. Não faz muito tempo que os revezes aconteceram.
Pode ser que Felipão tenha aprendido novas ideias e métodos na China, embora não tenha mostrado nada de especial no Guangzhou Evergrande. Não dá para contar com isso. O mais provável ainda é a implementação daquele velho e empoeirado estilo rudimentar de marcação forte, ligação direta e bola parada. Seria uma surpresa se fosse diferente. E nem é modernização que a diretoria do Palmeiras está buscando. Se fosse, teria mantido Roger Machado ou buscado outro treinador da sua geração.
O primeiro efeito da chegada de Felipão é ser um escudo para os dirigentes em ano eleitoral no Palestra Itália. Embora com a imagem desgastada pela reta final da sua última passagem, e por causa da derrota para a Alemanha, ele ainda tem um tamanho gigantesco no imaginário do torcedor palmeirense, cuja memória afetiva lembra da conquista da Libertadores, dos confrontos com o Corinthians, até mesmo da Copa do Brasil de 2012 antes da segunda queda. Seus trejeitos, aquela tradicional bufada em entrevistas coletivas, seu carisma, tudo isso ainda têm poder de atração.
Em campo, aposta-se na mística do treinador “cascudo”, “experiente”, “copeiro”, que conhece truques para vencer competições mata-mata que outros ainda não descobriram. Isso é uma tremenda bobagem, mas, de fato, existe a possibilidade de que Felipão entregue o que é necessário para avançar na Libertadores e na Copa do Brasil. Não por ser o portador de segredos milenares, mas porque jogadores talentosos no ataque, uma defesa arrumada e a injeção de sangue que este time realmente precisa podem ser suficientes para embarcar no imponderável das eliminatórias em ida e volta. Se não faz muito tempo que ele contribuiu para o Palmeiras ser rebaixado pela segunda vez, também não faz muito tempo que ele foi campeão com Marcos Assunção e Betinho. Agora, tem Willian, Gustavo Scarpa, Dudu, Moisés e outros bons jogadores.
Os primeiros desafios são o Cerro Porteño e o Bahia. Se vencê-los, o Palmeiras pode embalar e ver o que acontece, que são as palavras de ordem no momento. Contratar Luiz Felipe Scolari hoje em dia parece uma insanidade que vai contra tudo que os manuais de boa administração de um clube de futebol orientam, mas o Palmeiras às vezes funciona melhor na loucura e na gritaria do que na racionalidade. Para Felipão, chega uma oportunidade inesperada de redenção. Foi um dos treinadores mais vitoriosos do Brasil, campeão mundial com a Seleção em 2002, mas seu legado ficou muito arranhado pelos últimos trabalhos ruins. Caso dê certo em sua terceira passagem pelo Palestra Itália, pode recuperar um pouco da sua imagem. Mas seu retorno ao Brasil ainda é um grande “se”.



