Brasil

A separação entre Palmeiras e Roger Machado tem que ser uma oportunidade para ambos refletirem

Roger Machado saiu do Grêmio cobiçado. Era um técnico jovem, que sabia expressar suas boas ideias e havia conseguido transformar o catadão do seu antecessor em uma equipe de qualidade. Tanto que, ao deixar os gaúchos, tinha várias opções para escolher seu próximo projeto e o momento em que voltaria a trabalhar. Foi para o Atlético Mineiro e, apesar de alguns bons sinais, não deu certo. Mas ainda era possível colocar na conta do acidente de percurso. O Palmeiras pensava assim. Colocou o seu rico elenco nas mãos do treinador. E, novamente, não deu certo.

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As condições de trabalho para treinador no Brasil são precárias. Eles muitas vezes assumem bondes andando, precisam lidar com saídas e entradas constantes de jogadores, com estruturas caindo aos pedaços e nenhuma paciência dos dirigentes. Roger Machado, porém, em termos relativos, não tem muito do que reclamar. O prestígio que adquiriu no Grêmio permitiu que ele começasse seus novos trabalhos apenas no fim do ano, participando da pré-temporada e do planejamento do próximo, cenário que os professores descrevem como o ideal.

No Palmeiras, encontrou um estádio novinho em folha, frequentemente preenchido pela torcida, e estrutura para trabalhar. Era também um raro clube brasileiro em posição financeira de força – se por causa da patrocinadora ou não, é irrelevante para este argumento. O poder aquisitivo alviverde rivaliza apenas com o do Flamengo. Mais do que isso: é capaz de segurar os principais jogadores. Enquanto outros elencos eram dilapidados durante a Copa do Mundo, o Palmeiras perdeu apenas um reserva (Tchê Tchê) e um titular (Keno). E fez algo quase extinto no Brasil, ao rechaçar propostas milionárias por Dudu, o principal jogador do time.

E teve tempo. Novamente, em termos relativos. Sete meses podem não ser ideais para o desenvolvimento do trabalho de um treinador, mas, dentro da realidade brasileira, é impossível exigir mais. Roger Machado teve toda a pré-temporada, teve a primeira fase modorrenta do Campeonato Paulista para testar suas ideias e teve a parada da Copa para lapidá-las. Talvez não fosse o bastante para apresentar o produto pronto, mas deveria apresentar sinais de que estava no caminho certo.

A trajetória foi contrária. O Palmeiras de Roger Machado começou a temporada com otimismo. Contudo, na altura das finais do Campeonato Paulista, a evolução estagnou. E depois de semanas treinando enquanto Kylian Mbappé e Paul Pogba conquistavam o mundo, a equipe voltou pior ainda. A partida contra o Fluminense, a gota d’água, foi sintomática: mais erros defensivos e a incapacidade de construir chances de gol de qualidade, apesar de contar com meias como Moisés, Lucas Lima e Gustavo Scarpa. A saída de Keno foi muito sentida porque, durante o primeiro semestre, ele foi praticamente toda a fonte de inspiração do ataque palmeirense. Na base da individualidade.

O desempenho era ruim, e Roger não estava encontrando saídas. Em quatro jogos seguidos, contra Ceará, Flamengo, Santos e Atlético Mineiro, o Palmeiras saiu na frente e não conseguiu segurar o resultado. Apenas contra o Galo deu para achar um golzinho salvador no final e ficar com a vitória. São pontos perdidos que se juntam a outros da campanha do Brasileiro, principalmente em casa, contra Chapecoense e Sport, que farão muita falta na briga pelo título, o único objetivo possível para um time que tem um elenco tão qualificado.

As rusgas com a torcida também foram crescendo, à medida em que Roger insistia em jogadores que claramente não estavam entregando o que se esperava. Demorou demais para barrar Lucas Lima, e mais ainda com Miguel Borja. Fez sempre as mesmas substituições e, por algum motivo, uma delas era a entrada de Deyverson, em temporada pior do que a anterior. Problema parecido aparece no momento com Felipe Melo. O volante cometeu erros nos últimos gols que o Palmeiras sofreu e parece estar longe da sua melhor forma, mas continua titular absoluto – a única indicação do contrário veio no segundo tempo contra o Fluminense quando, amarelado, foi substituído por Lucas Lima.

E houve o pecado capital. Perdeu uma final para o Corinthians, dentro de casa. Não importa que era apenas o Campeonato Paulista. Era uma final, contra o Corinthians, dentro de casa. Depois de vencer em Itaquera, não conseguiu sequer empatar a partida de volta e foi derrotado nos pênaltis. Perdeu os outros dois dérbis do ano, no turno do Paulista e do Brasileirão. Se contava com o apoio maciço da torcida para se manter no cargo, essas derrotas contribuíram para deteriorar o relacionamento.

A campanha na Libertadores foi excelente, a melhor da fase de grupos, com vitória contra o Boca Juniors na Bombonera, como havia sido no Atlético Mineiro. O aproveitamento de pontos também é bom, na casa dos 70%. Mas o desempenho da equipe estava muito longe do que deveria estar a esta altura do projeto. E Roger Machado precisa refletir sobre o que está dando errado no seu método de trabalho. Ele tem ideias, tem conhecimento, tem capacidade, mas não está conseguindo colocar em prática.

No momento, ainda é difícil avaliar se a demissão de Roger Machado foi a melhor saída para o Palmeiras. O trabalho era indefensável, mas o mercado não apresenta boas opções. As informações mais recentes são de que a diretoria cansou dos jovens e busca um “medalhão”. Presa a glórias do passado, dinossauros como Luiz Felipe Scolari e Vanderlei Luxemburgo, ou Dorival Júnior, que quase comandou o terceiro rebaixamento da história do clube. Mas o nome do técnico não é a reflexão mais importante que o Palmeiras precisa fazer no momento.

Desde o início deste projeto, com a chegada de Alexandre Mattos e muito dinheiro na conta, nenhum treinador conseguiu colocar a casa em ordem. E foram vários, para todos os gostos: Oswaldo de Oliveira, Marcelo Oliveira, Cuca, Eduardo Baptista, Alberto Valentim (brevemente) e agora Roger Machado. Nem Marcelo, que ganhou a Copa do Brasil, nem mesmo Cuca, que foi campeão brasileiro (com exceção das primeiras 13 rodadas daquele campeonato), conseguiu montar uma equipe que jogasse bem o esporte que a gente ama. O problema está mesmo na comissão técnica? Ou será que está na direção? Ou será que está no elenco que, embora qualificado, na soma das suas peças não resulta no time que o Palmeiras quer?

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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