Brasil

Eficiência e “comprometimento”

Dunga assumiu a Seleção Brasileira com um objetivo: varrer para longe a falta de comprometimento e o descaso com a camisa da Seleção mostrado em 2006. Mesmo sem experiência na função, foi o escolhido para técnico do Brasil. Teve entreveros com os astros Kaká e Ronaldinho no começo da sua trajetória, em 2007, depois que os craques pediram dispensa da Copa América para tirar férias – que já não tinham tirado para a disputa da Copa de 2006.

A conquista do título da Copa América levou o técnico a se fechar com aqueles jogadores que foram com ele para a Venezuela. Kaká e Ronaldinho, assim, estavam descartados em princípio – isso no momento em que Kaká era, sem dúvida, um dos melhores jogadores do mundo, inclusive levando o prêmio da Fifa em 2007. Ali surgiam algumas das relações que se fortaleceram e tornaram-se um pacto pelo “comprometimento”. Isso mesmo sem ter jogado bem durante toda a campanha e vencido, de forma surpreendente, da Argentina na final – que fazia campanha melhor.

O time da final contra a Argentina era: Doni; Maicon, Alex, Juan, Gilberto; Mineiro, Josué, Elano, Júlio Baptista; Robinho e Vágner Love. Gilberto Silva, capitão da equipe na competição, não jogou a final por estar suspenso. Dos 11 que iniciaram o jogo, oito estão entre os convocados para a Copa. Dos 22 que foram à Copa América, 11 estão na lista.

Não foi só o “comprometimento” que montou a Seleção. Os demais jogadores que compõem o grupo dos convocados incluiu também Felipe Melo. Apesar da péssima temporada que fez pela Juventus, o volante foi um achado de Dunga quando o jogador ainda estava na Fiorentina e fez, é verdade, boas partidas pela Seleção nas primeiras convocações.

No gol, Dunga surpreendeu. Deixou de lado Victor, do Grêmio, e levou Gomes, do Tottenham. A convocação do arqueiro dos Spurs é mais do que justa. Fez excelente temporada pelo time inglês, que ajudou a levar à próxima Liga dos Campeões. Merecia ao menos estar entre os três e Dunga não o deixou de fora.

O titular Julio César é incontestável. É um dos melhores do mundo e, salvo algum problema, jogará todas as partidas. A ausência de Victor é mais sentida quando se olha para o goleiro reserva. Doni foi titular na Copa América e, segundo Dunga, brigou com o clube para estar lá – o que seria um sinal do “comprometimento”. Alegou ainda que foi esse episódio que fez o goleiro virar reserva da Roma, o que não é verdade. Doni perdeu a posição para Júlio Sérgio depois de se lesionar e ver o companheiro ter boas atuações. A ausência de Victor, justificou o treinador, foi porque ele não foi testado. A questão é que ele foi convocado diversas vezes e o técnico jamais o colocou em campo. A justificativa, então, fica capenga.

Em uma posição que mudou muito, a lateral esquerda, Dunga resolveu levar dois jogadores que não atuam como laterais em seus clubes. Michel Bastos, o provável titular na Copa, joga como meia pelo lado direito no Lyon. Gilberto joga como meia mais avançado ao ataque no Cruzeiro. Enquanto o primeiro não teve atuações convincentes nas poucas vezes que jogou, o segundo foi o lateral mais convocado para a posição, mas há pelo menos dois anos está em decadência técnica.

Ainda na defesa, o técnico levou como reserva o zagueiro Thiago Silva, do Milan, que se junta aos titulares Lúcio e Juan – dupla que Thiago considera como a melhor do mundo, segundo declarou essa semana – e ao reserva imediato, Luisão. Em todas os nomes, Dunga acertou em cheio. São quatro nomes que fazem por merecer estar na Copa.

Outros jogadores que entraram no grupo e nele ficaram de forma contestável foram os volantes Ramires, do Benfica, e Kléberson, do Flamengo. O ex-cruzeirense é titular no clube português e atua até mais avançado muitas vezes, compondo o lado direito do meio-campo. Na Copa das Confederações, atuou como reserva de Elano, na mesma função que atua no clube, e acabou ganhando a posição durante a competição. Pouco, porém, fez além disso.

Já o caso de Kléberson é difícil de ser explicado. Foi convocado em 2008, mas acabou machucado em um treino, sem ter sequer jogado. Nas Eliminatórias, só atuou alguns minutos no final da partida contra o Paraguai. Foi para a Copa das Confederações em seguida, quando entrou no final das partidas contra Itália e África do Sul. Depois, entrou em má fase no seu clube – apesar de ter sido campeão – e virou reserva. Em 2010, pouco fez para melhorar esse quadro, salvo boa atuação contra o Corinthians na Libertadores. Ainda assim, foi chamado para a Copa.

Por fim, o ataque teve outra surpresa. Adriano, envolvido mais uma vez em diversos problemas disciplinares no Flamengo, ficou fora da lista. O chamado foi Grafite, do Wolfsburg, jogador que teve apenas poucos minutos em campo no amistoso contra a Irlanda, no dia 3 de março para mostrar serviço. E, pelo jeito, agradou nos pouco mais de 26 minutos que “foi testado”. O atacante é bom jogador, mas há outros jogadores com mais capacidade do que Grafite. Pato, 20 anos, do Milan, é um deles. Além de jovem, é um atacante que sabe cair pelos lados e jogar centralizado também. Mais parecido com o camisa 9 da seleção é Fred, do Fluminense, que foi convocado para a Copa América, mas acabou cortado por lesão. Até mesmo Vágner Love, que teve algumas atuações ruins na Seleção, mas está bem no Flamengo, tem mais condições técnicas do que o atacante do Wolfsburg.

A lista dos sete suplementes de Dunga fez o torcedor brasileiro torcer para que ocorram mudanças. Alex, zagueiro do Chelsea, Marcelo, lateral esquerdo do Real Madrid, Sandro, volante do Internacional, Ronaldinho, meia do Milan, Paulo Henrique Ganso, meia do Santos, Carlos Eduardo, meia do Hoffenhein e Diego Tardelli, atacante do Atlético Mineiro.

Dos nomes da lista, Ronaldinho talvez seja o que fará mais falta. O jogador fez boa temporada pelo Milan. Fez nada menos do que 14 assistências no Campeonato Italiano, líder nesse quesito. Marcou ainda 12 gols com a camisa rossonera e ajudou o time a ficar em 3º lugar. Não foi capaz de derrubar o Manchester United, mas com a limitação do Milan, somada às contusões da equipe, fez o que era possível. Ronaldinho seria a opção mais importante para o banco de reservas, no mínimo. Sua ausência pode ser muito sentida em caso de necessidade de virar um resultado.

Preparação

Um dos pontos que a comissão técnica acertou fio trazer os primeiros dias de preparação da Seleção para o Brasil. Na última Copa, tudo foi feito no exterior, o que deixou a Seleção longe dos torcedores. É preciso cuidar para não tornar cada treino uma festa, mas é importante que os jogadores sintam a presença dos torcedores, seja em um ou outro treino, seja no aeroporto, seja em amistosos preparatórios, como o que a Argentina fez na segunda.

O modo como está sendo conduzida a preparação no Brasil é marcada pelo excesso de zelo. Treinos físicos fechados e afastamento da imprensa – que, é bom lembrar, não foi a culpada pela bagunça de 2006. O técnico e sua comissão mostraram sensibilidade ao abrir alguns treinos para que o público aplaudisse, tirasse fotos e apoiasse a Seleção.

Os amistosos que o Brasil fará serão absolutamente inúteis. Tanzânia e Zimbábue não trarão qualquer novidade interessante e nenhum tem estilo parecido com os adversários da primeira fase. Sendo assim, era melhor jogar coletivos, testar formações e sentir como estão os jogadores – o que não foi feito em Curitiba nessa semana.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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