Eduardo Baptista precisava se provar. E no pouco tempo que teve, não conseguiu
O desafio de Eduardo Baptista era difícil. Talvez o mais difícil do Brasil. Precisava suceder um treinador campeão e identificado com uma torcida ansiosa, em um time campeão, com jogadores campeões e reforços caros, debaixo da lupa da imprensa que aumentava a pressão cada vez que dizia que o Palmeiras tinha a obrigação de vencer tudo. Treinadores com mais tempo de estrada teriam dificuldade para lidar com um cenário desses. Imagina um profissional jovem em seu segundo trabalho em um dos 12 grandes do sul-sudeste? Desde o primeiro dia de trabalho, Eduardo esteve em teste: precisava provar que tinha capacidade de ser o técnico que o Palmeiras precisava. No pouco tempo que teve, as dúvidas mais aumentaram do que diminuíram. E ele foi demitido na última quarta-feira, após a derrota por 3 a 2 para o Jorge Wilstermann.
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A diretoria viu-se em uma encruzilhada no final do ano passado. O mercado de técnicos não estava convidativo. Sem Cuca, e perdendo Roger por questão de dias, precisou escolher um nome para treinar a equipe entre muitos perfis e currículos parecidos. Escolheu Eduardo, com o máximo de convicção que aquela conjuntura poderia fornecer. Ou seja, pouca. Ele caminhou no fio da navalha ao longo de todos esses meses. A demissão indica que o cenário mudou porque não faria sentido trocar Eduardo por outro Eduardo. A novidade parece ser que Cuca quer voltar a trabalhar e as negociações para seu retorno ao Allianz Parque estão avançadas.
Vale entender um pouco o contexto: correta ou não, a torcida do Palmeiras passa por uma ansiedade incomum, que transborda para a diretoria e para os jogadores. O título brasileiro ajudou a aplacá-la, mas os novos reforços e a perspectiva de ganhar a Libertadores trataram de restaurá-la. Depois de muito tempo relegado ao papel de coadjuvante – ou pior -, o palmeirense se vê finalmente em posição de conquistar muitos títulos. E quer conquistar todos. De preferência, o mais rápido possível. A confiança no treinador precisa ser próxima do incondicional para que ele tenha algum sossego para trabalhar. Existia com Cuca. Nunca existiu com Eduardo Baptista, e o retrocesso das últimas semanas, embora maior do que o que costumamos ver em oscilações inerentes ao desenvolvimento de uma equipe, passou a sensação de que seria ele o empecilho para o ano glorioso que foi vislumbrado.
Independente disso, a demissão soa bastante cruel porque foi efetivamente baseada em cinco partidas: as duas contra a Ponte Preta, as duas contra o Peñarol e a última, na Bolívia. Até esse momento, a evolução, cuja ausência foi usada pelo presidente Mauricio Gagliotte para justificar a troca de comando, existia. E o Palmeiras ganhou três desses jogos, embora uma dessas vitórias, contra a Macaca, tenha sido inútil. Mas virou em Montevidéu, contra o Peñarol, depois de estar perdendo por 2 a 0, o que é um resultado fantástico em qualquer circunstância.
O Palmeiras havia encerrado bem a primeira fase do Campeonato Paulista, com direito a uma vitória categórica contra o São Paulo, a melhor exibição coletiva da equipe de Eduardo Baptista, e uma virada emocionante contra o Santos, na Vila Belmiro. Havia jogado bem contra o Atlético Tucumán, na Argentina, mesmo com um a menos, e vencido o Jorge Wilstermann na bacia das almas. Naquele momento, nada indicava que o gol de Mina, aos 50 minutos do segundo tempo, viraria um hábito. Venceu jogando bem os adversários mais fracos do Estadual e passou voando pelo Novorizontino, nas quartas de final. A virada do primeiro jogo, depois de sair perdendo, mostrou maturidade.
No entanto, as coisas começaram a dar errado, e Eduardo Baptista não entregou as respostas. A solidez defensiva – cinco gols sofridos nos primeiros dez jogos, a maioria por desatenção e erros individuais – desapareceu. Fernando Prass foi vazado dez vezes nas cinco partidas fatídicas. O ataque, que vinha se encaixando depois de um começo abaixo do esperado, parou de buscar triangulações e trabalhar a bola. Cruzou 60 vezes contra a Ponte Preta. Contra o Jorge Wilstermann, na Bolívia, colocou as fichas exclusivamente no abafa.
As apostas de Eduardo não funcionaram. O esquema com três zagueiros foi um desastre no primeiro tempo contra o Peñarol, no Uruguai. Colocou Borja no banco para aproveitar a boa fase de Willian, ignorando que os melhores momentos do atacante brasileiro aconteceram na companhia de um centroavante, e não como camisa 9. Na hora de colocar o colombiano em campo, contra o Wilstermann, tirou justamente Willian, em vez de tentar usar a dupla. Parecia um pouco perdido na tentativa de solucionar os problemas.
O que minimiza suas falhas é a formação desequilibrada de elenco. Impossível que alguém imaginasse que Zé Roberto, 42 anos, e Egídio seriam suficientes para cobrir a lateral esquerda. O ano passado mostrou claramente que a contratação de um especialista da profissão era urgente – e o Palmeiras ainda tem Victor Luís, do Botafogo, sob o contrato. Vieram vários meias e atacantes, mas o lateral esquerdo não veio. Jogadores como Jean, Vitor Hugo e Dudu caíram de produção nos momentos cruciais. Os jogadores e a diretoria também têm sua parcela de culpa.
Para usar uma expressão comum do futebol, Eduardo Baptista precisava matar um leão por dia para sobreviver no cargo. Matou alguns, isso ninguém discute, mas foi descartado assim que começou a perder para os felinos porque ninguém no Palmeiras nunca acreditou nele com todo o coração e os quatro meses de trabalho não conseguiram convencer nenhum cético. E, debaixo da sombra de Cuca, ficou em posição ainda mais vulnerável. Bastava um empurrãozinho para cair.



