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É preciso desconfiar dos méritos da nova Seleção de Dunga

A vitória do Brasil sobre a França, na França, e sua extensão, a magra vitória sobre o Chile, levaram o retrospecto de Dunga em seu retorno à seleção para oito vitórias e nenhuma derrota. Se ninguém vai esquecer o desastre de 2014 de uma hora para outra, parecemos cada vez mais inclinados a abandonar a sensação de terra arrasada que tomou conta do país depois dos 7 a 1. O problema que, em 2014, era “estrutural”, requeria “10 anos” pra ser resolvido, já não parece tão sério.

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É importante, claro, colocar em perspectiva 2014. Colocar em perspectiva os 7 a 1. Naquele momento, sob o impacto da humilhação, todos exageramos. O problema era estrutural mesmo, mas ele é estrutural desde 1930, e o Brasil ganhou 5 Copas com isso. E vai levar não 10, mas 50, pra percebermos que o Brasil não é, nem nunca foi, invencível. Enquanto outro país não ganhar 6 Copas, ainda vamos achar que somos os melhores pelo Direito Natural das Coisas e do Mundo.

Por outro lado, não é nem nunca foi uma questão só que nos levou a perder para a Alemanha por 7 a 1. A começar pela questão tática, e seguindo pela qualidade dos nossos jogadores. Os jogadores da Alemanha eram melhores do que os nossos em 2014? Provavelmente, estavam mais maduros. A Alemanha como time era melhor, mais entrosado, mas isso tem muito pouco a ver com tática. Mas os 7 a 1 não aconteceram por problemas estruturais do nosso futebol, nem por questões táticas. Aconteceram porque o zagueiro central e capitão do time, quando viu a desvantagem inicial, partiu para o ataque. Aconteceram porque não houve quem chamasse sua atenção. Porque não houve quem segurasse a bola. Quem chamasse a responsabilidade.

É importante colocar essas coisas todas em perspectiva para dizer o seguinte: não vejo nenhum problema em elogiar o trabalho atual de Dunga. O Felipe Lobo e o Marcelo Bechler, por exemplo, nunca foram pachecos, nunca fecharam os olhos para os problemas não só da seleção como do nosso futebol como um todo. Entendem mais de futebol dentro do campo do que eu. E eles enxergam méritos no trabalho de Dunga. O problema é que a análise do trabalho tático pode levar a uma falsa sensação de que atacamos os maiores problemas. Por isso é importante lembrar quais eram esses problemas.

Começando pelas vitórias. “O Brasil ganhou oito seguidas!”, como se em 2003/4 e 2007/8 não fosse parecido. Tivemos oito vitórias, mas é necessário enxergar que sete são provavelmente irrelevantes, independentemente dos avanços táticos. Ganhamos de dois times decentes, Argentina e França, sendo que, da Argentina, a gente ganha até quando joga com o time C – e perde até do time C deles.

Ganhar de times da América do Sul é algo que não pode ser visto como relevante, vão me desculpar. Ganhamos do Chile e da Colômbia na Copa do Mundo dias antes de perder da Alemanha por 7 a 1. Ganhar da Turquia, 4a colocada do grupo que tem a Islândia como 2a nas eliminatórias da Euro, e da Áustria, que tem como maior artilheiro o lateral Alaba?

Então vamos com calma: como sempre, ganhamos um monte de jogos que o Brasil ganharia até se não tivesse técnico. Ganhamos da França, e foi convincente, não quero negar isso: 3 a 1 na França dentro da França é sempre convincente, mas ainda é um, e apenas um jogo.

É verdade que ainda vejo as pessoas dizendo: “Mas ainda não ganhamos nada”. O problema é que a Copa América vem aí, e pode ser, ou melhor, há 50% de probabilidade de que a gente ganhe a Copa América. Aí já vai ter quem volte ao discurso da primeira passagem de Dunga pela seleção: do “não ganhamos nada”, passaremos ao “estamos ganhando tudo”.

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Dunga tem dado sinais de que pode ter aprendido com os erros do passado, e o time taticamente é organizado de maneira moderna. O problema é que não terá sido a primeira vez. Até Mano Menezes conseguiu ter um time organizado, e o primeiro time de Dunga era exatamente isso: organizado. Ainda que não houvesse variação tática, o problema maior do Dunga de 2010 não era esse.

E a questão é que os outros problemas da Primeira Era Dunga persistem. Esses problemas têm nomes fáceis de entender: Robinho, Souza Adriano, e por aí vamos. “Ah, mas o Dunga chamou o Firmino!” Amigo, qualquer um que acompanhe minimamente o futebol europeu e fosse técnico da seleção, também teria chamado! Era óbvio! Na primeira vez, e isso para mim conta a favor de Dunga, ele não chamou o Afonso Alves? O problema não era ele testar gente nova. Era escolher com base em critérios que não eram futebolísticos. Era chamar jogadores que não mostravam futebol, mas mostravam “a atitude certa”, e com isso deixar de fora gente que faria melhor o serviço.

O  problema de 2010 era a “Igreja Futebolística do Dunga” baseada na lealdade. Não perdemos da Holanda porque o time era mal treinado, taticamente ruim. Perdemos porque era emocionalmente instável, despreparado. Porque tinha gente no grupo que estava lá porque era “leal”. Era um grupo baseado na lealdade, e só na lealdade. Porque a liderança que o técnico inspirava era carrancuda, tensa, violenta. Hoje, não há o que possa explicar Robinho, ou Souza jogando pelo Brasil se não for uma proposta de “grupo”, de “lealdade”. E isso a gente já viu onde deu em 2010.

Ali, também, tínhamos um problema sério de liderança. O estilo do treinador impunha que não houvesse um líder do elenco – e a decisão de Felipão de não chamar nem Kaká nem Ronaldinho em 2014 levou à repetição do problema. Talvez o Neymar de 2015 possa ser esse líder? Provavelmente. Liderança é também uma questão de habilidade, o grande líder de 1994 era Romário, que nunca foi um líder com as palavras. Mas é necessário enxergar que esse era um problema grave do time desde 2006, quando o time tinha gente que podia liderar, mas que por algum motivo não liderou.

Levantar essas questões, fique claro, não invalida de nenhuma maneira a análise dos colegas – citei as do Lobo e do Bechler, mas provavelmente há outras muito boas. Elas acertam na mosca quando levantam algumas das questões, e mostram que evoluímos nelas. Mas é importante que complementemos essas análises bem feitas com outras perguntas. Todos merecem uma segunda chance, não há por que não dar uma a Dunga, e se ele tem demonstrado evolução na parte tática, por que não acreditar que possa também enxergar outros pontos onde errou no passado? Desde que alguém o ajude a ver que, por trás das vitórias, que ele também teve na primeira passagem, podem estar problemas que só vão aparecer tarde demais.

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