Brasil

Dois irmãos

Aos poucos, a disputa pelo título do Campeonato Brasileiro vai ficando ainda mais restrita. Já aumenta o número de pessoas que dizem que somente São Paulo ou Flamengo poderão comemorar a consagração como time no topo do futebol brasileiro, no dia 6 de dezembro. E a 35ª rodada deixou essa restrição um pouco melhor definida. Afinal de contas, o Palmeiras voltou a incorrer nos erros costumeiros contra o Sport; Atlético e Cruzeiro permitiram golpes duros num sonho que já estava bastante prejudicado; e o Internacional cresce num momento já tardio.

O São Paulo, principalmente, firmou-se como o principal candidato à conquista. Já há algum tempo, a equipe não exibia uma performance tão consistente como a mostrada contra o Vitória. Descontando o apoio da torcida, praticamente certo numa situação dessas, a equipe de Ricardo Gomes demonstrou comprometimento, situação altamente necessária em fases decisivas.

Novamente, o meio-campo são-paulino apresentou o salto de qualidade que deu, após se acostumar ao comando do novo técnico. Ricardo Gomes tomou uma decisão absolutamente acertada, ao alterar levemente o esquema, deixando Washington sozinho no ataque e colocando Hugo na armação, ao lado de Jorge Wagner, onde o carioca rende melhor. Não por acaso, ambos ainda chegaram com eficiência ao ataque, para aproveitar as chances que Washington perdeu – e fizeram os gols do 2 a 0.

Mais atrás, a linha de quatro jogadores não tinha obrigação férrea para marcar, o que permitia a Hernanes e Arouca avançar para marcar, quando os dois encarregados de fazer as jogadas de ataque subiam para concluir. O resultado foi um time que manteve o domínio da partida no Morumbi, sem perdê-lo por um só instante e sem sofrer riscos na defesa. É necessário cuidado, porém, para cravar o São Paulo como favorito destacado.

De fato, o time paulistano é superior a Botafogo, Goiás e Sport. Todavia, não é menos verdade que, no próximo jogo, os botafoguenses entrarão em clima de decisão, já que o resultado deve definir a sorte do clube de General Severiano na Série A. Além do mais, o São Paulo ainda não resolveu os furos que há em seu barco. Furos que não haviam nos três títulos anteriores – como a inconstância maior dos zagueiros, ou até eventuais alfinetadas, que às vezes passam do ponto, como na discussão entre Hugo e André Dias, no últim sábado. A bem da verdade, seja hepta ou não, o time deverá encerrar 2009 com esses furos, mesmo.

Está aí um problema que o Flamengo não tem – ou, pelo menos, parece bastante menor no time de Andrade. Um jogo temerário, como deveria ser contra o Náutico, foi transformado numa partida fácil. Muito fácil. Tanto é que Petkovic nem precisou assumir tanto o papel de estrela do time, que coube mais a Adriano, nos Aflitos. O atacante voltou para buscar a bola, iniciou jogadas, deu passes, enfim, não se furtou a tentar algo além de somente finalizar – mesmo tendo a tarefa facilitada por um Náutico que parece, também, condenado à Série B, como o rival Sport.

O fato da defesa rubro-negra ter demonstrado segurança, mesmo sem Juan, também é absolutamente auspícioso – em que pesem as vezes que Bruno foi exigido, mostrando bastante segurança. Enfrentar Goiás, Corinthians e Grêmio não é tão fácil quanto aparenta: as três equipes têm condições de aprontar surpresas, e achar que possam “entregar” o jogo é conversa de torcedor, justificável, mas inverossímil. Todavia, nada mais parece assustar o Flamengo, que parece mais inabalável do que o São Paulo para os três jogos finais.

E o Palmeiras, pode brigar pelo título? “Pode ser” (fazer piadinha com o Twitter falso de Cleber Machado já tornou-se recurso muito batido). O Alviverde ainda tem, ora bolas, jogadores de técnica razoável. Todavia, o impedimento que diminuiu muito as chances do pentacampeonato palestrino parece residir no aspecto psicológico, derivado de insistentes erros táticos.

Explica-se: no 3-5-2 com que escala o time, Muricy insiste em colocar Edmílson na cabeça-de-área. Além disso, há espaço demasiado entre os meio-campistas e os zagueiros. Prato cheio para que atacantes e armadores rápidos consigam envolver os palmeirenses sem problema, como Adriano Pimenta, Arce e Wilson fizeram para o Sport nos 15 primeiros minutos de jogo, construindo o 2 a 0. E, ficando em desvantagem, o Palmeiras parece se apequenar, só conseguindo os empates à base de muito esforço, como fez no Parque Antártica (sobre o erro de Elmo Resende Cunha, leia nas Curtas).

O Atlético Mineiro, que tinha o sonho do título tão vivo há duas rodadas, parece ter sido abatido em definitivo, com as derrotas para Flamengo e Coritiba. No entanto, chegar à Copa Libertadores é um feito plenamente plausível, e até justificado, para a equipe mineira. Com Mário Sérgio, o Internacional sofre: a mesma equipe que convence contra o Santos pode ficar num empate burocrático contra o Barueri. Por isso, é temerário falar que o time é favorito a conquistar a quarta vaga ao torneio continental, por mais que esteja em quarto lugar.

Como ambos se enfrentam na próxima rodada, um empate poderia deixar o caminho aberto para o Cruzeiro, que também é superior aos seus próximos adversários, por mais que Atlético Paranaense e Curitiba precisem de alívio definitivo na luta para escapar do rebaixamento. Que, por falar nisso, está tão equilibrada quanto a disputa do título. O Fluminense tem uma reação empolgante, mas vive no fio da navalha, em que qualquer tropeço pode ser fatal. Uma derrota para o São Paulo pode abalar ainda mais o já afetado Botafogo, que parece perder forças para escapar da Série B que já jogou em 2003.

E, com tantos assuntos, fica cada vez mais difícil privilegiar sobre o que falar, num Campeonato Brasileiro que, definitivamente, não tem o mesmo nível dos nacionais europeus. Mas que ainda consegue preservar o que muitos têm na conta de principal ingrediente do futebol: emoção.

Surpresa e desânimo

Falar em desânimo no Grêmio parece um paradoxo. Justamente após o primeiro jogo com o retorno de Marcelo Rospide, quando a equipe da Azenha teve fibra para ir buscar um empate alentador contra o Cruzeiro. Porém, a equipe só o fez após um ano que tinha tudo para ser animador, com Paulo Autuori – e terminou com uma decepção indisfarçável, consumada com o retorno do treinador carioca ao Al-Rayyan.

Por mais que Autuori tenha tentado, não adiantou mudar o esquema. Mais do que acostumado ao 3-5-2, os gremistas jamais entraram nos eixos em definitivo, com o 4-4-2 e suas variações – tanto no 4-2-2-2, quanto no 4-1-3-2. Tcheco, que foi o principal dínamo da bela campanha do vice-campeonato, em 2008, parece ter ficado mais burocrático.

Léo, Réver e Rafael Marques caíam de produção, quando formavam as duplas de zaga. E a falta de um finalizador confiável ficou clara após a baixa forçada de Jonas. Nem Herrera, nem Maxi Lopez, nem Edixon Perea conseguiram marcar gols com regularidade. E um time que tinha tudo para figurar entre os postulantes ao título nacional faz uma campanha abaixo do que se esperava.

Exatamente o oposto do Avaí. É verdade que o Azulão já havia sido considerado a sensação do Brasileiro, no primeiro turno, quando sofreu apenas cinco derrotas. Todavia, a mudança gradual que Silas foi impondo ao time, passando do 4-4-2 ao 3-5-2, fez com que o time demorasse a se adaptar. E, no returno, o time acabou tendo sequências mais irregulares, com mais empates e derrotas.

E, diga-se de passagem, o novo crescimento no desempenho veio somente após as trÊs vitórias consecutivas, nas três últimas rodadas. Nas sete rodadas anteriores, o Avaí teve apenas uma vitória. Uma. Mas o time merece a ascensão que tem, com uma base razoável, que tem um goleiro confíavel (mesmo que um tanto “elétrico” demais) em Eduardo Martini. Um bom meio-campista, em Léo Gago. E William vive um ano como, talvez, só prometeu ter nos seus melhores momentos de Santos. E há Silas. Um técnico bastante sério, que conseguiu passar com segurança pela transição entre Segunda e Primeira Divisão, que sempre exige algum tipo de cuidado.

Com isso, o Avaí ainda ganha o direito de sonhar com a Libertadores. Algo merecido, pelo que o clube florianopolitano fez ao longo do ano.

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Equipe Trivela

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