BrasilEspeciais

Desculpe, Marcos, se o traí

Não lembro qual foi o primeiro jogo de futebol a que assisti pela televisão. Nem no estádio. Mas provavelmente foi no final dos anos noventa, quando meu pai estava animado com o segundo time da Parmalat e me levava para acompanhá-lo. Entrei no gramado de mãos dadas com Oseias em um jogo contra o Vasco, e até hoje não consigo explicar por que preferi o camisa 9 ao 12. Sei que minha primeira vez na arquibancada, e não nas numeradas, foi na semifinal da Libertadores de 1999, contra o River Plate. Fiquei pendurado nas grades da escada, bem na ferradura do Palestra Itália. Vi de longe o golaço de Alex, mas quando fiquei mais velho, descobri que a classificação à final só foi possível por causa da atuação extraterrestre de Marcos no jogo de ida.

Tenho memória afetiva dessa época, mas ela foi apenas a semente da minha paixão. Ela ficou encubada por alguns anos até eu comprar uma edição do Lance, dez anos atrás. Adorei a leitura. Tornei-me fascinado por futebol, comecei a comprar livros e a assistir mais de dez jogos por semana. Percebi que conseguia compreender as nuances, decorar os nomes e as datas. Algum tempo depois, que teria capacidade para escrever aqueles textos, e curiosamente descobri minha vocação ao mesmo tempo em que floresceu minha maior paixão. Abandonei a minha ideia idiota de ser advogado e virei jornalista, com o objetivo de trabalhar com esporte, e até agora tenho conseguido.

“Ficar na hora em que o Palmeiras mais precisava, na Série B, me deu mais moral do que se pegasse 50 pênaltis do Marcelinho. Esse reconhecimento me faz não ter arrependimento nenhum na vida”. Marcos

O jornalismo esportivo é engraçado, se você quiser adjetivá-lo assim, porque a maioria entra nessa deliciosa roubada por paixão, e de repente se sente obrigado a deixá-la de lado. A tal da imparcialidade, uma história de ficção científica. Qualquer opinião carrega o jeito do interlocutor de ver o mundo, as suas experiências e bagagens culturais. Nunca é completamente isenta. A tal da imparcialidade tem que ser constantemente perseguida, mas com a mesma consciência do cachorro que corre atrás do próprio rabo: você nunca a alcançará. Por isso, é bom separar as coisas, a mesa do bar das redes sociais, a sala de casa dos diversos ambientes profissionais. E isso implica não apenas deixar a paixão de lado, como também criticá-la. Mais de uma vez implicou criticar o Palmeiras. Mais de uma vez implicou criticar Marcos.

E como criticar o cara o responsável pela maior alegria do palmeirense da minha geração, a defesa do pênalti cobrado pelo ídolo do maior rival, “que bate muito bem”, vista e revista milhões de vezes (o vídeo dela mais acessado no YouTube tem mais de 2 milhões de visualizações)? Uma vitória sobre o Corinthians que nunca será completamente vingada. Não com personagens tão grandes, times daquele calibre, em um contexto daquele tamanho, com tanta tensão no ar. É nossa e para sempre será nossa. As narrações de José Silvério, Luciano do Valle e Galvão Bueno ainda ecoam: “De-fen-deu Marcos!”.

Marcos, que depois da defesa da sua vida passou de carro pelo estádio do Palmeiras para compartilhar o mais puro sentimento de alegria com os torcedores que ainda comemoravam a classificação com muitas e muitas cervejas, como se antes de goleiro profissional fosse torcedor alviverde, uma ordem que muitas vezes se provou correta. Uma evidência fortíssima, que se tornaria definitiva no futuro, de que ele era um dos nossos.

O goleiro cujo erro crasso impediu o Palmeiras de ser campeão mundial, mas que voltou do Japão pedindo desculpas, com a consciência clara de que havia deixado escapar pelos seus dedos algo muito mais significativo do que o cruzamento de Giggs, e foi recebido pelos braços aconchegantes da torcida, que não precisava de mais nada para amá-lo.

LEIA MAIS: Há 15 anos, Palmeiras jogava melhor que o Manchester United, mas perdia o título Mundial

O ídolo que virou motivo de orgulho quase exclusivo dos palmeirenses durante anos obscuros, nos quais os rivais conquistaram campeonatos brasileiros, sul-americanos e mundiais, mas nunca tiveram um personagem tão bom e identificado com os seus clubes, uma bandeira tão gigante. Ele era o único argumento capaz de rebater a lista de títulos, porque um ídolo para amar consegue muitas vezes ser mais relevante que qualquer troféu.

O amigo que se transformou no irmão mais velho que o palmeirense admirava porque era popular com todo mundo, querido pelos torcedores de qualquer time, o Garrincha da Era Moderna, e o goleiro do pentacampeonato mundial da seleção brasileira. Quando desviou a falta cobrada por Neuville na decisão contra a Alemanha, o único que poderia reivindicar a ponta daqueles dedos era o palmeirense: “Esse é o nosso goleiro”.

[cycloneslider id=”marcos”]

O jogador que confirmou ser um dos nossos quando recusou a proposta do Arsenal para devolver o Palmeiras para aquele lugar da onde nunca deveria ter saído e que tantas vezes parece tão difícil de ficar. Trocou milhões de euros por milhares de reais, partidas em Paris, Londres, Berlim e Madrid por outras em estádios modestos no interior do país, a chance de conquistar títulos importantes e ser reconhecido mundialmente por uma vida de miséria futebolística. Foi quando decidiu definitivamente retribuir o carinho que recebeu após a falha no Mundial com a sua vida. Decidiu dedicá-la para sempre ao Palmeiras.

O torcedor em campo, que agia como porta-voz da dor da torcida depois de derrotas humilhantes, falando ao microfone tudo que queríamos gritar para o mundo, com toda a dor de sucessivas decepções. Mas também o representante dentro de campo, com a cabeça suscetível a mudanças de temperatura o bastante para furar uma bola lenta contra o Vitória porque naquele momento o chutão era a única forma de aliviar um pouco da frustração.

O sujeito com o coração tão verde quanto o do torcedor que qualquer palmeirense daria exatamente a mesma preleção que ele deu antes da final do Paulistão de 2008, prometeria se quebrar todo para ganhar daquela Ponte Preta. Ele arriscaria qualquer coisa para levantar o troféu que não conquistava há tanto tempo e tanto precisava, como qualquer um dos mais de 27 mil torcedores no Palestra Itália.

Marcos, que amava tanto o Palmeiras que não soube a hora de abandoná-lo, porque não há nada mais corajoso e difícil do que permitir à razão se sobrepor aos sentimentos quando um relacionamento atinge o ponto crucial em que está claro que uma separação é o melhor para todo mundo. Mas isso implicaria nunca mais ouvir e nunca mais gritar que ele era o melhor goleiro do Brasil, puta que o pariu. Trocar o goleiro santo por outro meramente humano e para sempre reduzir as expectativas de milagres em cobranças de pênalti, em chutes de longa distância ou à queima-roupa, em saídas do gol, jogos de futebol e na própria vida.

Muito antes de parar, Marcos sabia que não dava mais. Não havia mais região do corpo que não havia luxado, torcido ou quebrado em nome do Palmeiras. A dor nos treinamentos começava já no agachamento para amarrar as chuteiras. A agilidade e os reflexos estavam obsoletos. O tempo não perdoa nem as divindades. Seu penúltimo ato de devoção à torcida palmeirense foi ter engolido toda a aflição, a agonia e o sofrimento dos últimos anos para proporcionar mais algumas partidas aos seus iguais. O último foi ter tido a coragem de cortar o laço e se aposentar, por mais que isso resultasse em uma tortura muito mais dura que a física.

DOCUMENTÁRIO: As dores e as glórias de Marcos em uma hora e 12 minutos

E, apesar de tudo que ele sempre representou para mim, no exercício da profissão fui obrigado algumas vezes a criticá-lo porque nem sempre o jornalista pode sublinhar tudo que o torcedor aprecia. Quando precisei falar ou escrever que estava na hora dele parar, que ele não deveria jogar o resto do elenco na fogueira depois de uma derrota ou que Diego Cavalieri estava jogando melhor, eu me sentia sujo e obsceno. Eu me sentia traindo alguém que amava e que sempre retribuiu o meu amor com todas as fibras que tinha no corpo.

[post_duplo]

Até o momento em que me toquei que não precisava mais fazer isso. Foi em 12 do 12 de 2012, dirigindo de volta do Pacaembu, onde havia me despedido de Marcos. Ele estava aposentado, não era mais um personagem ativo do futebol, e minha obrigação nunca mais seria criticá-lo. Um caminhão de conflitos saiu das minhas costas.

Antes de ir embora, Marcos me agradeceu duas vezes, como palmeirense e jornalista, e pediu que eu nunca o esquecesse. Dei minha palavra. Talvez a promessa mais fácil da minha vida. Eu, ganancioso, fiz dois pedidos um pouco mais difíceis. Primeiro, que ele tenha a compreensão de me perdoar caso algum dia tenha lido ou ouvido alguma crítica minha, o que acho improvável, porque ainda sou insignificante nessa brincadeira. No segundo, englobo a minha maior declaração de amor, quase uma súplica: por favor, nunca seja técnico ou dirigente de futebol.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Bloqueador detectado

A Trivela é um site independente e que precisa das receitas dos anúncios. Considere nos apoiar em https://apoia.se/trivela para ser um dos financiadores e considere desligar o seu bloqueador. Agradecemos a compreensão.