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As dores e as glórias de Marcos em uma hora e 12 minutos

Marcos não queria um documentário. Exagero. Precisou de três meses para se acostumar com a ideia. Nem de cinema ele gosta. A última vez que comprou ingresso, pipoca e refrigerante foi para ver Impacto Profundo, 15 anos atrás. É uma humildade, talvez excessiva, que no caso dele parece natural. Já provou mais de uma vez que não sabe fingir. Garoto propaganda da Allianz, deve ter sido instruído a mencionar o novo estádio do Palmeiras sempre que puder. Ele cumpre, mas parece estar falando outra língua. Um pouco de aramaico misturado com um português nada rebuscado, simples e objetivo, carregado de sotaque do interior paulista. Marcos e excelência têm apenas um denominador comum: defesas.

E elas são abundantes no documentário Santo Marcos ao qual a Trivela assistiu em pré-lançamento na última terça-feira – a estreia oficial é em 22 de novembro. Algumas que você precisa ver de novo para acreditar que são reais. Todas com uma trilha sonora que transforma cada intervenção do camisa 12 no final da Odisseia de Ulisses. Épico demais. E os momentos tristes são narrados aos acordes que você encontra em qualquer novela, no momento em que o mocinho percebe que não vai casar com a Isis Valverde. Melancólico demais, meio forçado e nada condizente com a carreira do personagem que a obra se propôs a retratar.

A essência de Marcos é a simplicidade. A música escolhida pelos diretores fica finalmente apropriada quando ele e seus amigos começam a contar as histórias nas quais ele atua como um moleque travesso. Nenhuma desconhecida para quem acompanhou entrevistas passadas do ex-goleiro, mas a novidade não é necessária para arrancar risadas. Quer ingenuidade maior do que pensar em pedir um autógrafo para Oliver Kahn e Sepp Maier minutos antes de uma final de Copa do Mundo? Sentimento mais puro que compartilhar com os torcedores que enchiam a cara no posto da Rua Turiaçu, às quatro e meia da manhã, a felicidade de defender um pênalti do melhor jogador do maior rival?

A fatídica disputa de pênaltis que eliminou o Corinthians da Libertadores de 2000 mostra bem como Marcos às vezes agia por impulso. Ele, Carlos Pracidelli – a melhor entrevista do filme – e Sérgio, o segundo pai, o irmão mais velho e o eterno parceiro, analisaram as cobranças dos adversários antes daquela semifinal e definiram os cantos para os quais Marcos deveria cair. Adivinha se ele obedeceu à risca? E ainda aplacou a cólera do preparador de goleiros com uma resposta digna de um malandro que foi mais bem educado pela vida do que pela escola. “Carlinhos, eles sabiam que a gente tinha estudado as cobranças, então pensei que eles pudessem bater no outro canto”, explicou o travesso moleque.

O documentário não esconde os seus erros, mas também não os critica, e isso não é culpa dos diretores. Desafio qualquer um a sair à rua e voltar com cinco pessoas dispostas a falar mal de Marcos. Luiz Felipe Scolari dilui a culpa daquela saída em falso contra o Manchester United com os companheiros. Apenas Vanderlei Luxemburgo adota um tom mais forte quando admite que as declarações de uma cabeça quente e sem cabelos após derrotas humilhantes – várias derrotas humilhantes – causavam problemas internos. Aquela goleada que o Vitória impôs ninguém precisa explicar porque todos sabem que a centímetros da clavícula que ele quebrou a serviço do Palmeiras bate um coração verde e branco. Era impossível manter a calma. “Não colocaram todos os meus erros porque o filme ficaria muito longo”, brincou.

O roteiro engessado para caber em exatamente uma hora e doze minutos, alusão à camisa que Marcos eternizou, não deixa de contar nada importante, mas às vezes passa rápido demais por algumas coisas. A recusa do campeão do mundo à proposta do Arsenal para disputar a Série B pelo clube de Palestra Itália merecia mais espaço. Porque foi naquele momento, no qual decidiu retribuir o carinho e a compreensão que recebeu da torcida quando voltou do Japão como responsável pela derrota, que ele decidiu dedicar a sua vida ao Palmeiras. Isso vale mais do que qualquer defesa e qualquer título.

Talvez houvesse espaço se algumas entrevistas tivessem sido cortadas. A quantidade de depoimentos é louvável, mas Magic Paula, Jaqueline do vôlei, o skatista Sandro Dias, Sérgio Reis, José Maria Marin, Marco Polo Del Nero e Luciano do Valle contribuíram muito pouco para a narrativa. Aldo Rebelo, então, aproveitou o espaço apenas para reforçar a sua proximidade com o ex-presidente Lula. Usou o filme como palanque.

Santo Marcos é um recorte fiel da carreira de um devoto a 13 milhões de apaixonados. Afinal, se tudo se resume à constante alternância entre dor, felicidade, frustração e glória, o documentário retrata uma vida de lesões, milagres, erros e títulos de um ex-goleiro que aceitou o fardo da canonização, mas nunca deixou de ser um orientense humilde que batia bola no quintal da casa da mãe. Um homem que viveu o suficiente para uma dúzia de pessoas.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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