Brasil

Quatro jogos em 15 dias: clássicos decisivos entre Remo e Paysandu param Belém

Remo e Paysandu se enfrentam em quatro oportunidades em menos de 15 dias entre a final do Paraense e a semifinal da Copa Verde

Em menos de 15 dias, Remo e Paysandu, clássico que envolve dois dos maiores times da Região Norte do país, se enfrentam em quatro oportunidades, sendo duas pela semifinal da Copa Verde e duas pela final do Campeonato Paraense. O primeiro dos confrontos aconteceu na última quarta-feira (3), com empate por 0 a 0 pela semifinal da Copa Verde. Já neste domingo (7), às 17h (horário de Brasília), os rivais começam a decidir o estadual. Como já é de costume, todos os jogos foram marcados para o tradicional Estádio do Mangueirão, em Belém.

Com mais de 700 partidas disputadas desde 1914, o Clássico Re-Pa é considerado o duelo entre rivais que mais aconteceu na história do futebol.

O primeiro Clássico Re-Pa registrado foi disputado no dia 14 de junho de 1914. Na ocasião, o Remo venceu seu maior rival pelo placar de 2 a 1, no antigo estádio da firma Ferreira & Comandita, na Curuzu, em Belém. Rubilar foi o responsável por marcar o primeiro gol do confronto, enquanto Bayma (contra), aumentou a vantagem ao Remo. Matthews, atacante inglês do Paysandu, marcou o único gol da equipe no primeiro clássico da história.

Marcado por muitas curiosidades, o Clássico Re x Pa é um evento que marca não só a cidade de Belém, como também todo o estado do Pará. Apesar das várias transformações que o futebol brasileiro atravessa, principalmente no que diz respeito à divisão dos torcedores em clássicos, Remo e Paysandu conseguem resistir ao advento da torcida única e sempre promovem muita festa nas arquibancadas, dividindo de forma igualitária a quantidade de ingressos para este jogo.

Desde que o Novo Mangueirão foi reinaugurado, todos os jogos envolvendo Paysandu e Remo tiveram 50% de lotação para cada clube. Entre 2021 e 2023, os times utilizaram seus estádios próprios, o Baenão e a Curuzu para receber o clássico.

A representatividade do Clássico Re-Pa ao povo paraense

A reportagem da Trivela conversou com Jessé Lima, jornalista paraense especializado na cobertura de Paysandu e Remo, que falou sobre as transformações causadas em Belém e no estado do Pará quando o assunto é a disputa do clássico entre os times. Segundo o profissional, a semana que antecede um jogo como este é marcada por muita ansiedade e expectativa, e praticamente modifica toda a organização da capital paraense, com a ansiedade do torcedor dos dois times aflorada pelo confronto.

— O Clássico “Rei da Amazônia” é um dos maiores do mundo e o torcedor envolvido fica em uma grande ansiedade durante a semana que antecede o evento. Quem gosta do Paysandu ou do Remo cria aquela expectativa boa de poder acompanhar ao jogo. Tudo fica mais movimentado em Belém, desde as ruas do centro, até os bairros, com bandeiras e mais adereços enfeitando a cidade — destaca o jornalista.

O jornalista também pondera que, apesar da grande rivalidade entre Paysandu e Remo, não há clima hostil entre as torcidas. A piada com os rivais é feita, mas respeitosamente. O Clássico Re-Pa é um dos únicos do cenário do futebol brasileiro com torcida dos dois times, o que beneficia não só as equipes e o espetáculo em campo, mas também o comércio, que costuma faturar muito mais do que em dias normais.

— Todos se beneficiam desta atmosfera que antecede o clássico, desde o vendedor de camisas até quem está ali vendendo um espetinho. Durante a semana, quem não tem uma camisa do seu time correr para comprar e estar devidamente vestido antes do jogo. Portanto, é um conjunto de fatores que movimenta toda uma cidade e é um evento a parte dentro do nosso calendário — afirma Jessé Lima.

Atletas falam sobre o peso de jogar o clássico

A reportagem da Trivela conversou com três personagens importantes da história do Clássico Re-Pa. Robson, o “Robgol”, teve passagem marcante pelo Paysandu e marcou seis gols contra o Remo ao longo dos anos em que defendeu o clube. O atacante afirmou que o duelo é diferente de qualquer outro clássico, já que os habitantes de Belém param para acompanhar ao jogo.

— O clássico aqui é diferenciado, realmente a cidade para, o clima muda e todo mundo respira futebol — afirma o jogador.

Robson relembrou seu primeiro clássico, disputado no ano de 2003. Na ocasião, o centroavante marcou os dois gols da vitória do Paysandu pelo placar de 2 a 0, e entrou para as graças da torcida Bicolor a partir daquele jogo.

Outro jogador que vivenciou de perto o peso de disputar o clássico foi Vandick, campeão da Copa dos Campeões em 2002 e hoje diretor de futebol do Paysandu. O ex-jogador e agora dirigente afirma que o duelo contra o Remo é diferente de qualquer outro clássico ao redor do Brasil.

— Posso te garantir que realmente é algo fora do comum essa rivalidade. A cidade só fala desses clássicos e assim vai continuar até o último jogo — afirma Vandick.

Apesar de ainda poder contar com as duas torcidas, o ex-atacante chamou a atenção para a questão da violência no entorno do Estádio do Mangueirão. Segundo Vandick, não é algo comum, mas que mesmo assim é tratado como um dos maiores problemas do clássico.

— Quando tem briga não é no estádio, mas ainda é um fator a ser melhorado, reconheço. Será o máximo quando não tiver mais confusão ao redor do Mangueirão — pondera o dirigente.

Zé Augusto, também conhecido como Zé da Fiel, ou mesmo Terçado Voador, foi outro nome de destaque do Clássico Re-Pa. O ponta-esquerda defendeu o Paysandu entre 2000 e 2012, e considera o confronto um dos maiores do Brasil, já que foi o único que disputou em sua carreira.

O atacante deixou sua marca no clássico em 2009, quando marcou o gol de uma vitória do Paysandu e comemorou imitando o andar do ilustre setorista do Remo Paulo Caxiado, que na semana do duelo teria dito que o Terçado — apelido de Zé, uma espécie de machado usado na região — “não estaria amolado o suficiente”.

— Marquei um gol contra o Remo e como resposta ao que o Paulo Caxiado falou naquela semana, eu imitei o andar dele na comemoração. Aquilo ganhou ampla repercussão na imprensa aqui de Belém, mas foi muito legal, pois foi encarado de modo natural por ele. Naquele tempo não tínhamos redes sociais, mas com certeza aquilo ia viralizar — relembra Zé Augusto.

Qual o retrospecto do Clássico Re-Pa?

Em toda a história, o clássico Re-Pa foi disputado 772 vezes. São 268 vitórias do Remo, 242 triunfos do Paysandu, além de 211 empates. Em jogos do Campeonato Paraense, a vantagem ainda é do Remo, que venceu 126 jogos, contra 104 do seu rival e 124 empates em 358 jogos disputados. Na Copa Verde, os times se encontraram em 13 oportunidades, já contando com o duelo da última quarta. No torneio regional, a vantagem é do Paysandu, com seis vitórias, contra três do Remo, além de quatro empates.

Já na Série do Brasileirão, Remo e Paysandu se enfrentaram em 11 jogos e o equilíbrio é grande. São duas vitórias para cada time, além de sete empates. O último clássico Re x Pa na primeira divisão aconteceu em seis de outubro de 1993, quando as equipes empataram por 1 a 1.

Tabu de 33 jogos

Entre janeiro de 1993 e junho de 1997, o Remo impôs o maior tabu sobre o Paysandu em toda a história do confronto. Foram 33 jogos de invencibilidade, com 21 vitórias e 12 empates contra o rival. A sequência hegemônica durou quatro anos e seis meses, sendo considerada um dos maiores tabus entre clubes rivais em todo o mundo.

Contudo, uma entrevista concedida por Sergio Dias, ex-diretor do Remo em 2023, colocou em dúvida a integridade desta sequência e revelou possíveis manipulações de resultados durante o período de 33 jogos. O ex-dirigente disse ao podcast Show de Bola, da rádio Super Marajoara, que já sabia que o Remo seria o vencedor do clássico, afirmando que até mochila com dinheiro teria deixado no vestiário do árbitro. O ex-diretor participou de 31 jogos do longo tabu.

“Era um jogo importante, nós não podíamos perder e eu e o Minowa (outro ex-dirigente) trabalhamos no jogo. Falamos com o nosso companheiro (árbitro), ele estava dentro do gramado fazendo a vistoria. Ele falou pra gente ir no vestiário e colocar a pacoteira. Foi isso que aconteceu”, disse Sérgio Dias ao jornalista José Maria Trindade no podcast Show de Bola.

Maior invencibilidade no século XXI

Se nos anos 90 o torcedor do Paysandu sofreu ao passar um período longo em vencer seu rival, já no início dos anos 2000 foi o Remo quem passou uma quantidade de jogos considerável sem bater seu maior rival. Entre 2000 e 2002, o time Bicolor ficou 11 jogos sem perder um clássico.

Vale lembrar que nesta época, o Paysandu foi campeão da extinta Copa dos Campeões e conquistou a vaga para disputar a Libertadores da América em 2002. Foi a primeira vez que um clube da Região Norte do Brasil conseguiu se classificar para a competição continental.

Decisão de vaga na elite do futebol brasileiro

No ano 2000, Remo e Paysandu se enfrentaram na disputa do terceiro lugar do Módulo Amarelo da Copa João Havelange — o segundo nível do torneio. Considerado na época como o “Re-Pa do século”, quem vencesse a disputa seguiria para as oitavas de final do Módulo Azul, considerada a primeira divisão do Campeonato Brasileiro. O primeiro confronto aconteceu no dia 12 de novembro e o Remo venceu pelo placar de 3 a 2, com direito a um hat-trick de Robinho.

Na volta, disputada em 19 de novembro, o Paysandu saiu na frente com gol de Sandro, mas Jurinha deixou tudo igual e classificou o Remo para enfrentar o Sport nas oitavas de final daquela competição. Apesar da eliminação para o time pernambucano, o Remo saiu como vencedor no Pará por conquistar a vaga em um dos clássicos mais importantes em âmbito nacional em todo o histórico do confronto.

A invencibilidade do técnico Hélio dos Anjos no Clássico Re-Pa

Um dos personagens do Clássico Re-Pa é Hélio dos Anjos, treinador do Paysandu, que já esteve do lado do Remo nos anos 90. O técnico possui um retrospecto especial em sua carreira no que diz respeito a este confronto em específico, pois, seja treinando qualquer um dos clubes, nunca perdeu um clássico no Pará. O comandante esteve presente neste confronto em 13 oportunidades, com oito vitórias e cinco empates.

Os dois primeiros clássicos disputados por Hélio dos Anjos aconteceram em 1995, quando ainda era treinador do Remo. Foram duas vitórias pelo placar de 1 a 0, com gols marcados por Luís Müller. De 2019 para frente, os demais duelos aconteceram com o treinador defendendo o Paysandu, com seis vitórias e cinco empates.

Clássicos Re-Pa em 2024

  • Paysandu 0x0 Remo — 03/04 (quarta-feira) — Semifinal Copa Verde (ida)
  • Remo x Paysandu — 07/04 (domingo), às 17h (horário de Brasília) — Final do Paraense (ida)
  • Remo x Paysandu — 10/04 (quarta-feira), às 20h — Semifinal Copa Verde (volta)
  • Paysandu x Remo — 14/04 (domingo), às 17h — Final do Paraense (ida)
Foto de Lucas de Souza

Lucas de Souza

Lucas de Souza é jornalista formado pela Universidade São Judas em São Paulo. Possui especialização em Marketing Digital pela Digital House, e passagens pelos sites Futebol na Veia e Futebol Interior.
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