Brasil

Crescente de casos de LGBTfobia no futebol assusta, e medidas punitivas estão longe de coibir o preconceito

Anuário sobre a LGBTfobia registrou um aumento de 76% nos casos de homofobia entre torcedores e jogadores, em 2022

O Coletivo Canarinhos LGBTQ+ realizou um levantamento sobre a LGBTfobia no futebol brasileiro e publicou, na semana passada, as descobertas em seu anuário, que compila dados de 2022, e aponta para uma crescente preocupante de casos. Em 2022, foram registrados 74 casos de homofobia entre torcedores e jogadores, o que significa um aumento de 76% nas ocorrências em relação à temporada anterior.

O documento mostra que mais de 80% dos torcedores LGBTQIAP+ não vão aos estádios de forma organizada e uniformizada por se sentirem perseguidos, além dos mais de 60% que alegam não ter qualquer diálogo com o clube ou com seus grupos políticos. Isso demonstra o apagamento desses torcedores das arquibancadas. 

Até mesmo em datas comemorativas da comunidade LGBTQIAP+, como o 17 de maio (Dia Internacional contra a Homofobia) e o 28 de Junho (Dia do Orgulho), normalmente usadas para “limpar” a imagem dos clubes, registraram queda nas manifestações de apoio, entre 2020 e 2022. 

Camisa 24 ainda é alvo de preconceito

Outro aspecto muito latente do levantamento foi o uso da camisa 24. O preconceito histórico que associa o número à homossexualidade surgiu com o jogo do bicho. Isso porque o animal representado pelo número 24 é o veado. O termo, incorporado pelas torcidas ao longo das décadas, é usado até os dias atuais para ofender pessoas da comunidade LGBTQIAP+ nos estádios. 

Por outro lado, até mesmo os jogadores continuam evitando a todo custo utilizar essa numeração, segundo aponta o anuário. Nas edições 2022 e 2023 da Copinha, por exemplo, as súmulas apontaram praticamente a inexistência da numeração. Onã Rudá, presidente da Canarinhos, destacou a importância de combater esse tipo de atitude, principalmente nas categorias de base, período de formação dos atletas. 

– A Federação Paulista de Futebol estabelece que a ordem numérica dos atletas deve ser de 1 a 30, e muitas federações pulam o 24. E a gente consegue aferir isso a partir da súmula do jogo. Então, dentre aqueles que foram a campo com a 24, a gente vê uma queda, infelizmente. Em paralelo a isso, vemos as incidências de episódios de LGBTFOBIA que acontecem porque o atleta juvenil está usando a camisa 24 – analisou Onã. 

Medidas punitivas estão longe de gerar o efeito esperado

Nesse cenário que assusta, e afasta a comunidade LGBTQIAP+ do esporte, as autoridades começaram a se movimentar, a fim de punir os clubes que não coibirem os atos homofóbicos

O levantamento também analisa os casos de LGBTfobia que chegaram ao Supremo Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) no ano passado. Apesar do crescimento do número de julgamentos, de condenações e de transações disciplinares, a impunidade nesses episódios ainda é latente. 

Isso porque os casos julgados pelo STJD são os que são registrados na súmula da partida pelos árbitros ou enviados por notícia de infração. Na ponta dessa equação estão os procuradores, e são eles que decidem se apresentam ou não a denúncia formal. Infelizmente, são muitos os casos que não transitam em julgamento, porque diversos procuradores rejeitam as denúncias.

Dos clubes citados judicialmente, Fluminense, Paysandu, Atlético Mineiro e Atlético Goianiense foram condenados. Porém, o Paysandu não pagou a multa. 

Ou seja, as medidas punitivas continuam longe de serem as ideais para que o preconceito seja, de fato, combatido nas arquibancadas.

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