Por que o Corinthians não deve esperar que Spindel faça o mesmo papel de Fabinho?
Com perfil técnico e foco em mercado, Spindel agrada pela capacidade negocial, mas sua chegada ao Timão exige clareza sobre função
O Corinthians busca uma solução rápida para preencher o vazio deixado por Fabinho Soldado no comando do departamento de futebol. A saída do dirigente, oficializada na última terça-feira (23), já vinha sendo sinalizada internamente, e acelerou o movimento da diretoria alvinegra no mercado.
Nesse cenário, o nome de Bruno Spindel, ex-Flamengo, surge como uma possibilidade concreta — e que exige leitura cuidadosa sobre perfil, função e expectativas.
Livre no mercado desde agosto, quando deixou o Flamengo, Spindel carrega no currículo uma trajetória longa e relevante no clube carioca. Ele atravessou diferentes gestões, desde Eduardo Bandeira de Mello, mas ganhou protagonismo real durante o mandato de Rodolfo Landim, quando foi alçado ao cargo de diretor-executivo de futebol, em 2019. Foi ali que construiu reputação e passou a ser associado a uma fase de organização e crescimento financeiro do Rubro-Negro.
Onde Spindel fez a diferença no Flamengo?

O principal trunfo de Bruno Spindel está longe do contato cotidiano com o elenco. Sua força sempre esteve nos bastidores estratégicos: negociação de contratos, condução jurídica, estruturação administrativa e, sobretudo, operações de mercado.
No Flamengo, participou de negociações de alto impacto, especialmente nas vendas de jogadores, muitas delas com modelos sofisticados — bônus por metas, manutenção de percentuais econômicos e cláusulas que ampliaram receitas futuras.
A melhor definição do papel de Spindel no Rubro-Negro veio, curiosamente, de um dirigente que superou o grupo político de Landim no final de 2024. Em sua posse como presidente, no início do ano, Luiz Eduardo Baptista, o BAP, foi direto ao falar sobre o profissional.
— Eu conheço o Bruno muito bem, fui eu quem trouxe ele em 2012 quando fui vice de marketing. O título do Bruno como diretor de futebol, vamos combinar, ele era um diretor de contratação, de negociação. Ele é um excepcional trader, é um dos caras que mais conhece disso no Flamengo.
A fala é reveladora. Spindel nunca foi o homem do discurso, da gestão emocional ou da presença diária no vestiário. Suas principais valências sempre estiveram na mesa de negociação.
Enquanto Marcos Braz ocupava o espaço mais visível e midiático da antiga gestão, Spindel atuava como o operador técnico, cuidando da engrenagem que sustentava decisões complexas. Não por acaso, construiu a imagem de dirigente detalhista, conhecedor do mercado e com forte domínio jurídico e contratual.
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Spindel no Corinthians e o risco de uma expectativa desalinhada

O ponto de atenção está na comparação inevitável com Fabinho Soldado. Diferentemente de Spindel, Fabinho exercia um papel muito mais próximo do dia a dia do elenco, funcionando como elo direto entre diretoria, comissão técnica e jogadores. Era uma figura de presença constante no vestiário, no treino e na rotina do grupo — algo que nunca foi o centro da atuação de Spindel no Flamengo.
Não por acaso, no próprio clube carioca, com a mudança de cenário político e a chegada de novos nomes ao departamento, Spindel foi gradualmente perdendo espaço, até ficar sem uma função bem definida durante boa parte de 2024. O desfecho acabou sendo sua saída no fim de agosto, em um processo mais ligado à reorganização interna do que a uma avaliação técnica de seu trabalho.
Se a ideia do Corinthians for substituir Fabinho por alguém com o mesmo perfil relacional, o encaixe tende a ser problemático. Spindel não construiu sua carreira a partir desse tipo de gestão de grupo, e forçá-lo a ocupar esse espaço pode resultar em ruído interno e frustração mútua. Não se trata de competência, mas de vocação.
Por outro lado, se o clube alvinegro enxergar o cargo como uma função mais executiva, estratégica e menos emocional — alguém para organizar processos, conduzir negociações complexas e dar respaldo institucional ao futebol —, Spindel pode, sim, ser uma boa escolha.
O acerto, nesse caso, passa menos pelo nome e mais pela clareza do papel que ele será chamado a exercer.



