Brasil

Conheça a história pioneira de inclusão e vitórias do futsal down do Corinthians

Por Rodrigo Tammaro e Tomás Novaes

Por conta da pandemia do coronavírus, competições das mais diversas modalidades esportivas foram canceladas e adiadas em 2020. É o caso, por exemplo, das Olimpíadas de Tóquio, do torneio de Wimbledon, da Copa América e da Eurocopa. Entretanto, há um evento muito importante para o esporte e para a inclusão no Brasil que também foi cancelado: o Campeonato Mundial de Futsal Down, na Turquia.

O futsal down vinha numa crescente importante no Brasil. O país havia conquistado o título mundial em 2019, disputado em Ribeirão Preto, após superar a Argentina. Apesar do cancelamento da competição, e consequentemente do adiamento da possibilidade de o Brasil vencer o bicampeonato, a modalidade ainda se faz muito relevante no aspecto da inclusão no esporte. 

Por isso, conhecer a história, as dificuldades e a importância do futsal down é um passo inicial para contribuir com a modalidade e permitir que ela continue evoluindo e beneficiando cada vez mais atletas e famílias.

LEIA TAMBÉM: Por que o engajamento no futebol brasileiro ainda é um tabu?

A história do futsal down

A história do futsal down no Brasil se confunde com a história de um ex-jogador do Corinthians que, depois de se lesionar e pendurar as chuteiras, virou treinador de futsal para atletas com a síndrome. Esse é Cleiton Monteiro, com quem a Trivela conversou para traçar toda a trajetória dessa iniciativa.

 Cleiton treinando o time JR Corinthians (Reprodução/Twitter)
Cleiton treinando o time JR Corinthians (Reprodução/Twitter)

Existem diversas associações e sociedades no Brasil que prestam assistência a pessoas com deficiência intelectual, como é o caso daquelas com síndrome de down. No caso do esporte, a mais importante é a CBDI – a Confederação Brasileira de Deficientes Intelectuais, que existe desde 1989. Além dela, desde 1954 existem as Apaes, as Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais. Foi em uma dessas associações que Cleiton teve o primeiro contato com esse universo.

Logo depois de sair dos gramados, Cleiton assumiu o cargo de Diretor Social da Apae de Osasco (SP), onde ficou de 2005 a 2007. Naquele ano, Cleiton entrou para a CBDI, inicialmente no setor de eventos e depois, em parceria com a Associação Paradesportiva JR, como treinador de um time de jogadores com síndrome de down.

Convidado a treinar a equipe, Cleiton já estabeleceu que sua abordagem seria diferente. “Tudo que eu aprendi no profissional eu vou aplicar para eles”, lembra o treinador. Ou seja, os treinos seriam os mais parecidos possíveis com aqueles que ele teve em toda sua carreira no futebol. Logo depois, o histórico de Cleiton com o Corinthians levou o alvinegro a uma parceria que resultou no primeiro time de futsal down do Brasil: o JR Corinthians.

Sem outro time para jogar contra e sem campeonato para disputar, Cleiton resolveu agir: ajudou na formação do Projeto UP Santos, o segundo time de futsal down do país, fundado em 2008. Depois dele vieram a Liga Ituana (SP), o Comercial/Sem Fronteiras RP e o Projeto Egydio Pedreschi, ambos de Ribeirão Preto, em São Paulo, o Aril Limeira (SP), o Paraesportes Campos (RJ), o Cantinho da Paz (SP), o Cascavel (PR), entre muitos outros. 

Os campeonatos Brasileiro e Paulista de Futsal Down só tiveram suas primeiras edições em 2019, mas a Seleção Brasileira existe desde 2011. Foi nesse ano que o time do JR Corinthians representou o Brasil na Special Olympics, na Grécia e voltou campeão.

O treinador do time nacional também é Cleiton Monteiro e isso não é coincidência. Em todos os anos como treinador do Timão, o time só perdeu dois jogos. Por muitos anos o JR Corinthians teve um apelido glorioso: “O time que nunca perdeu”. Com esse sucesso, Cleiton foi de técnico e coordenador da CBDI para diretor técnico da Federação Internacional de Futebol para Atletas com Síndrome de Down, a FIFDS. 

Depois do primeiro Campeonato Mundial de Futsal Down, em 2017, do qual o Brasil não participou, Cleiton foi surpreendido ao ser eleito, por votação unânime, para o cargo internacional na FIFDS. Essa foi a prova de que o trabalho feito no Brasil já era observado pelo resto do mundo. “Hoje o Brasil é referência mundial”, afirma Cleiton.

Com esse cargo, ele pôde indicar onde seria o Mundial de Futsal Down de 2019 e, assim, o Brasil acabou sendo a sede. A final foi um clássico sul-americano: Brasil contra Argentina. Um jogo emocionante com arquibancada lotada levou o Brasil ao seu primeiro título de Campeão Mundial de Futsal Down.

“Eu fiquei muito feliz, estava muito emocionado e focado no jogo. Treinamos bastante. A gente focou, focou, focou e merecemos bastante”, comenta Rafael Cavalcante, goleiro do JR Corinthians e da seleção brasileira, eleito o melhor goleiro de futsal down do mundo após o torneio.

A seleção comemorando o título mundial. Foto: FL Piton/Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto

Em pouco mais de 10 anos, uma iniciativa pontual da criação do JR Corinthians evoluiu para transformar o Brasil no polo central da modalidade down do futebol no mundo. Cleiton enxerga o JR Corinthians como pioneiro desse caminho. “Foi difícil. Hoje já tem a estrada. Com as outras equipes, ela já começou a ser asfaltada, para quem andar por ela não ter mais problemas. E isso é bem gratificante”, conta.

Os obstáculos 

Mesmo com o título mais importante da modalidade e os anos de vitórias e taças, o futsal down no Brasil ainda enfrenta diversas dificuldades, comum a diversas modalidades do esporte amador, como falta de apoio e patrocínio, preconceito, estrutura precária, pouca visibilidade, etc.  

Uma das principais dificuldades dos esportistas com deficiência intelectual é que, por não terem deficiência propriamente motora, sua elegibilidade nas Paralimpíadas é limitada. Somente três modalidades paralímpicas admitem pessoas com deficiência intelectual: atletismo, natação e tênis de mesa.

Portanto, já que as modalidades do futebol e futsal não são admitidas, isso significa que o apoio, tanto governamental quanto privado, é ainda mais escasso. No Brasil, o futsal e o futebol down não recebem verba do Comitê Paralímpico.

Em abril de 2020 aconteceria outra edição do Campeonato Mundial, dessa vez na Turquia. Mesmo sendo o atual campeão mundial, o Brasil teve sérias dificuldades de conseguir verba para viajar. Tendo de recorrer a financiamento coletivo online, a repercussão levou a um passo importante na história do futsal down: com ajuda do ex-jogador e atual senador Romário Faria, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) passou a apoiar a Seleção Brasileira de Futsal Down, cobrindo a verba que faltava para a realização da viagem.

De acordo com Cleiton, o cancelamento do torneio foi muito prejudicial para a modalidade, principalmente por conta da visibilidade que o campeonato teria. Com o apoio da CBF e de outros patrocinadores, a expectativa era de que o futsal down daria mais um passo. 

Entretanto, o técnico comenta que ainda há perspectiva de desenvolvimento, mesmo com o campeonato adiado: “Existe uma luz no fim do túnel nesse sentido dos patrocínios e ela está bem mais próxima”. Isso porque a seleção já tem acordos com a Revedor para a confecção dos uniformes e materiais esportivos e com a Torcida para financiar outros custos. 

“Porém, ainda falta muita coisa dos governantes”, completa Cleiton, que acredita que a Bolsa Atleta — programa de financiamento do governo que vem recebendo diversos cortes nos últimos anos — e outros programas de incentivos ao esporte são fatores importantes para o desenvolvimento da modalidade.                

A disparidade técnica entre times e seleções também é um obstáculo: “Nós ficamos quase 11 anos sem perder um jogo porque nós tínhamos uma mentalidade de treinamento e saímos na frente”, afirma Cleiton. “As equipes perceberam isso e começaram a fazer a mesma coisa, tanto que atualmente temos jogos equilibrados contra adversários que antigamente nós goleávamos”, acrescenta.

De acordo com Cleiton, para incentivar e fomentar a modalidade, primeiro é preciso criar competições nacionais, como os campeonatos Paulista, Brasileiro e Copa do Brasil. Desta forma, mesmo aqueles atletas que ainda não têm condições de disputar um campeonato mundial, terão a possibilidade de disputar torneios que ajudam a estruturar o esporte. 

O próximo passo é a criação de competições internacionais entre clubes e seleções. Nessa perspectiva, Copa América, Eurocopa e Libertadores da América para atletas com síndrome de down são campeonatos em fase final de formulação que vão auxiliar na construção de uma estrutura competitiva também ao nível internacional. 

Inclusão e saúde: a importância do futsal para os atletas com deficiência

O desenvolvimento do futsal down não é importante somente na perspectiva de competição e conquistas esportivas do país. O esporte é um essencial instrumento de promoção da inclusão e da cidadania, além da melhoria na saúde de seus praticantes.

“O treino é muito importante para nós. Eu treino com vários amigos com síndrome de down”, comenta o goleiro Rafael sobre sua relação com o esporte. Porém, de acordo com o goleiro, a competitividade não fica de lado: “Nos jogos a gente fica focado”

Rafael com o troféu de melhor goleiro. (Reprodução/Instagram/@superrafa21)

Segundo Cleiton, são muitos os benefícios para os atletas do futsal down. No aspecto competitivo, o técnico trabalha a pressão, o lado psicológico e a responsabilidade. Também é possível tratar a questão dos erros e da segurança. “Tinha famílias que não queriam que eles disputassem competições porque eles poderiam perder. Mas perder faz parte da evolução. Eu induzo muito meus atletas a errarem, eles só vão saber o que é o certo se eles errarem”, afirma Cleiton.

Além disso, há a questão da saúde. Ao manter uma vida menos sedentária, os atletas podem, além de trabalhar a questão da coordenação motora e dos reflexos, desenvolver melhor sua saúde física e mental. Cleiton comenta sobre o depoimento do pai de um dos atletas, cujo filho não teve doenças severas desde que começou a praticar esportes. 

Seguindo a perspectiva do comentário de Rafael, a autoestima e a socialização também são muito importantes, principalmente por permitir que os atletas tenham contato com outras pessoas na mesma condição que eles. “Tinha muitos atletas que, até então, não tinham proximidade com outras pessoas com síndrome de down”, completa Cleiton. 

Disciplina e autonomia também são muito beneficiadas com a prática esportiva. O técnico comenta que havia atletas que “não amarravam o tênis”, mas que com os treinos e o auxílio da família se tornaram muito mais responsáveis e independentes.

Para Cristiane Cavalcante, mãe do Rafael, todos esses benefícios foram sentidos na vida do filho. “O esporte é muito importante. Eu sempre prezei muito, por conta da questão motora e da saúde. O esporte também deu mais disciplina para ele, regras de horário e responsabilidades que são muito importantes”, relata a mãe.

O desenvolvimento do futsal down, agora que as bases já estão sendo criadas, depende de maior incentivo governamental e mais patrocínios para que possam alcançar a estabilidade financeira do projeto. 

A participação e apoio da família dos atletas é fundamental para que eles possam extrair o melhor do esporte e para que tenham no futsal um local de aprendizado, mas também de convivência e alegrias. A esperança é de que em 2022, quando deve ocorrer a próxima competição internacional, a modalidade já esteja um passo à frente do que está hoje.   

 Enquanto o Mundial não chega, fica o relato de Rafael: “Estou ansioso, mas preciso melhorar bastante. Preciso treinar para caramba. A gente vai viajar, fiquem tranquilos”.

Mostrar mais

Jornalismo Júnior ECA-USP

A Jornalismo Júnior é uma empresa júnior formada por alunos de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) que produz conteúdo que vai desde a área de esportes até o cinema, entretenimento e a ciência.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo