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Com perfil parecido ao de Tite, Cristóvão precisa transformar a teoria em prática

Tite, se não for o líder da lista, está certamente entre os dois melhores técnicos da história do Corinthians. E na impossibilidade temporal de contratar Osvaldo Brandão, não havia nome dos sonhos para substituir o ídolo que está de saída para a seleção brasileira – ainda mais com o descarte imediato de Mano Menezes pelo presidente Roberto de Andrade. Qualquer um enfrentaria resistência e desconfiança, com um desafio gigantesco pela frente. Cristóvão Borges, anunciado na manhã deste domingo, não foge à regra.

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O Corinthians deve esperar, no mínimo, muito entusiasmo do seu novo treinador. Cristóvão tem uma chance rara. Depois de emendar trabalhos contestados no Bahia, no Flamengo, no Fluminense e no Atlético Paranaense, ganha o atual campeão brasileiro para voltar a constar nas listas dos principais técnicos do Brasil e não pode desperdiçá-la, sob o risco de ser a última.

Com ressalvas, claro: a equipe campeã foi desmontada pela diretoria e qualquer um, neste momento, teria problemas para sair da sombra do trabalho de Tite. São complicações ou justificativas aceitáveis para eventuais tropeços, dependendo da maneira como o trabalho se desenvolver.

Há algumas semelhanças de perfil entre os dois, que pesaram na escolha da diretoria corintiana, segundo essa matéria do Lance!. Ambos são estudiosos, preparados e ótimos em teoria. São ponderados no trato com a imprensa, funcionários e jogadores. Têm conceitos de jogo parecidos.

Tite, evidentemente, soube colocar suas ideias em prática com muito mais competência que Cristóvão. E, curiosamente, eles andaram lado a lado no começo da trajetória vitoriosa do gaúcho pelo Parque São Jorge até serem separados por uma defesa de Cássio.

O Vasco de Cristóvão, seu primeiro trabalho como técnico, foi vice-campeão brasileiro em 2011, apenas dois pontos atrás do Corinthians de Tite. No ano seguinte, os dois times encontraram-se nas quartas de final da Libertadores. Diego Souza teve aquela chance claríssima de gol no Pacaembu, parou em Cássio e Paulinho fez o gol da vitória corintiana.

As duas equipes tinham perfis parecidos. Cristóvão, frequentemente criticado por montar defesas frágeis, levou apenas quatro gols a menos que Tite, elogiado pela solidez nesse setor, durante as 38 rodadas do Campeonato Brasileiro de 2011. Com quatro tentos marcados a mais pelo Vasco, o saldo foi idêntico: 17 para cada lado.

Tite venceu os dois confrontos diretos, digamos assim, e sua carreira disparou. A de Cristóvão, no lado perdedor, estagnou, com o treinador baiano certamente imaginando o que seu futuro poderia ter sido se tivesse conquistado pelo menos um daqueles títulos para dar lastro ao que propõe fazer com seus times.

É difícil avaliar com propriedade os trabalhos de Cristóvão pós-Vasco. Não foi excelente e nem um desastre no Fluminense, notória máquina de moer técnicos. Teve pouquíssimo tempo tanto no Flamengo quanto no Atlético Paranaense, com aproximadamente 20 partidas em cada. No Bahia, que tem exigências diferentes, não fez nada além do básico, mantendo-se no meio da tabela.

A principal crítica que recebeu foi em relação à fragilidade do seu sistema defensivo.  Depois do Vasco, disputou 101 partidas de Campeonato Brasileiro e sofreu 121 gols, média de 1,2 por partida. Nem boa, nem ruim. Melhor que a de Atlético Mineiro (2º) e São Paulo (4º) no último Brasileirão. No Corinthians, descobriremos se o problema de Cristóvão é de fato a incapacidade de montar boas defesas ou falta de material humano. Diferente do que encontrou nos outros clubes, tem em mãos um elenco que sabe e gosta de defender bem.

Encontrará outra novidade: a paciência. O Corinthians teria que mudar o seu estilo para demiti-lo precocemente. Teve três treinadores desde 2008. Adilson Batista ficou pouco tempo, mas Mano Menezes e Tite tiveram respaldo, tempo e estrutura para desenvolverem os seus trabalhos. Tudo que Cristóvão sempre quis para conseguir colocar em prática as suas boas ideias sobre futebol. Agora é com ele.

Trabalhos de Cristóvão pós-Vasco:

Bahia (maio a dezembro de 2013)

Razoável. Terminou o Campeonato Brasileiro de 2013 na 12ª posição. Caiu nas oitavas de final da Copa Sul-America para o Atlético Nacional, da Colômbia, na disputa de pênaltis. Aproveitamento de 43,6%. No Brasileiro, levou 45 gols em 38 rodadas.

Fluminense (abril de 2014 a março de 2015)

Em quase um ano, colecionou duas eliminações frustrantes, para o Goiás na Copa Sul-Americana e para o América de Natal na Copa do Brasil, com direito a ser goleado por 5 a 2 no Maracanã. Ficou em sexto no Brasileirão de 2014, levando 42 gols em 38 rodadas. Acabou demitido, em março do ano seguinte, depois de empatar com o Tigres, pelo Campeonato Carioca. Aproveitamento geral de 56,5%.

Flamengo (maio a agosto de 2015)

Assumiu o Flamengo, na sequência, e ficou apenas três meses na Gávea. Nunca caiu nas graças da torcida e sempre enfrentou muitas críticas. Em 18 jogos, teve oito vitórias, um empate e nove derrotas, aproveitamento de 46%. Um retrospecto bastante desequilibrado. Saiu do clube depois de perder a ida das oitavas de final da Copa do Brasil para o Vasco.

Atlético Paranaense (outubro de 2015 a março de 2016)

Chegou ao Atlético Paranaense na 30ª rodada do Brasileirão do ano passado, na 11ª posição. Terminou um lugar acima, mas com campanha aceitável: três vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas. Foi demitido na sexta rodada do Paranaense, cinco meses depois, com 56% de aproveitamento em 20 partidas.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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