Brasil

De volta ao Santos, César Sampaio detalha trabalho com ‘especialista’ Caixinha e exalta Neymar

Em entrevista exclusiva à Trivela, o agora auxiliar técnico do Peixe se declara ao clube e explica qual será sua área de atuação em 2025

Formado nas categorias de base do Santos no final da década de 80, César Sampaio deixou o clube no final de 1991. Foram mais de 33 anos longe daquele lugar que agora o auxiliar técnico da comissão fixa do Peixe considera o seu ninho. 

Às vésperas da sua reestreia pelo Alvinegro, contra o Mirassol, às 21h30 (horário de Brasília) desta quinta-feira (16), pela primeira rodada do Campeonato Paulista, Sampaio concedeu uma entrevista exclusiva à Trivela

Com a sua habitual descontração, Sampaio explicou sobre todas as funções que executa no clube, falou sobre início de trabalho com Pedro Caixinha, relembrou vivências no clube, além de experiências com Serginho Chulapa, Pepe e Neymar

Trivela: Qual tem sido exatamente a sua função no Santos?

César Sampaio: É muito bom voltar para o local onde tudo começou. Ao clube que deu vazão aos meus sonhos e rever amigos. Confesso que quando comecei a jogar, não pensei que teria uma carreira tão gloriosa como tive. Sobre a minha função no Santos, sou auxiliar técnico da casa. O meu vínculo é com o Santos. Entre as atribuições que tenho, passo suporte para comissão técnica, participo do trabalho de campo com a comissão técnica do Pedro Caixinha e tenho interface também com a categoria de base. 

Nesse primeiro momento estou mais próximo do elenco profissional, mas, paralelamente a isso, estou desenhando esse perfil de jogador do Santos como sempre foi, e interajo também com futebol feminino. 

Enfim, tenho várias atribuições institucionais com a base, feminino e também com os compromissos sociais dos Santos. Esse ano a minha imagem vai estar atrelada não só dentro de campo, nessa função de auxiliar técnico, mas também, eventualmente, com alguns compromissos da instituição.

Como tem sido esse início de trabalho com o Pedro Caixinha?

Nós já nos conhecíamos, mas de maneira bastante parcial, porque os nossos encontros eram sempre pré e pós os jogos. Nos últimos cinco anos estive na comissão do Tite, então interagiamos, mas nada parecido com o que acontece hoje. Estou muito feliz com esse início, porque trata-se de um especialista naquilo que faz. Não só ele, como toda a sua comissão. Pessoas muito capacitadas que vivem diuturnamente à produção dos treinamentos para que possamos fazer um bom início de Campeonato Paulista. 

Estou muito contente também com a abertura que eles têm me dado. Eu vinha de uma outra comissão e a gente sabe como é sensível isso. São cargos de confiança e tenho contribuído pontualmente com algumas observações. Estou aprendendo muito com ele. Venho de um modelo de jogo diferente, que levou o Tite a conquistar tudo que conquistou, e agora esse conteúdo um pouco diferente, mas bem interessante. O importante é que os atletas compraram a ideia nesta pré-temporada, todo mundo tem aprovado aquilo que é proposto e bate com o DNA do Santos. Espero que toda essa preparação sirva para que o Santos tenha um grande início de Paulista. 

O que tem te chamado a atenção nesse início de trabalho com o Caixinha?

É um modelo onde a bola é o instrumento referência. No modelo posicional que trabalhava com o Tite, nós tínhamos gatilhos específicos com atletas ou setores. Já em relação ao trabalho do Caixinha, o princípio dele é: quando não temos a bola, é atacar a bola. Ou seja, a gente aumenta os gatilhos. Na filosofia passada (Tite), a estratégia era levar o jogo para um determinado jogador ou determinado setor. Hoje, entre outras atribuições, temos vários gatilhos que não posso falar muito para não entregar as ideias para os adversários (risos). Mas tem sido tudo prazerosa essa troca de ideias. 

Cesár Sampaio conversando com o Leo Godoy
Além de auxilar da comissão técnica fixa, Sampaio de outras funções no Santos (Foto: Flickr/SantosFC)

Foram cerca de cinco anos com o Tite. Por que decidiu deixar a sua comissão técnica?

Pós-Flamengo nós tivemos uma reunião, onde o Tite falou que ia dar um tempo na carreira para preservar um pouco mais a saúde. Ele teve uma arritmia na Bolívia e teve alguns outros problemas atrelados às cobranças que recebia. A partir disso, ele nos deixou em liberdade. Assim como o próprio Cleber Xavier, que estava há 24 anos com ele e se posicionou para seguir uma carreira individual. Mas mais do que a liberdade do Tite, o que pesou foi o convite do Santos. Eu tenho muitas raízes aqui, uma memória afetiva muito grande, porque sou o que sou graças ao Santos. São valores desportivos, mas que transcendem, porque foi em Santos e no Santos que me formei como homem, conheci a minha esposa. 

No início também pensei em dar um tempo na carreira, organizar algumas outras coisas que tenho. Até falei para o Pedro (Martins), responsável direto por essa mudança, que foi a contratação mais fácil que ele fez na vida. Quando ele me convidou, eu só pedi para me falar quando começava e o que teria que fazer. Foi uma das piores negociações que fiz, em termos profissionais, mas o meu coração e a minha família estão muito felizes. A gente espera contribuir com esse momento que o Santos vive. Tive vivências como atleta, gestor e auxiliar e quero devolver um pouco de tudo que o Santos me deu. O Santos tem um lugar especial na minha e na vida de todos os meus familiares. 

Quando você fala em piores negociações, se refere às questões financeiras?

Pior de negócio mesmo. Eu já estive na função de gestor e tem negociação que você faz a proposta, aí vem a contraproposta e outros ajustes. Em um nível de Série A, é incomum tudo se resolver tão rápido como foi. Não esperava o convite, mas quando ele veio me pegou pelo emocional. Ou até mais do que isso. 

Lembro de uma frase que diz: ‘Quando você foi muito feliz num lugar, cuidado se você for voltar, porque não encontrará o tempo por lá’. 

Cada momento é único. Mas por outro lado, tem coisas que o dinheiro não compra. Existem emoções que o dinheiro não traz. E é isso que estou vivendo aqui. Estou ativo, feliz, interagindo com todos. Estou desfrutando deste momento. Tive momentos na vida de precariedade e o Santos me ajudou. Agora quero retribuir isso com o trabalho. Vai ser um grande ano. 

E como foi a experiência como auxiliar técnico dentro de uma Copa do Mundo?

Experiência fantástica. A vivência com o Tite foi maravilhosa, uma pessoa incrível. A gente se identificou muito. Ele tem traços humanos que nos deixou muito próximos. A espiritualidade também nos uniu, independentemente das nossas religiões, e de amor ao próximo. Ele é um especialista naquilo que faz. Um estrategista. Não só ele, mas o filho dele também e o Cleber Xavier. O Tite é um amigo, um consultor. Antes de vir para o Santos nós conversamos e ele me apoiou bastante para esse desafio.

Qual foi o sentimento após a eliminação para a Croácia?

O sentimento foi de luto. De tristeza mesmo. A gente sabe o peso da camisa da Seleção Brasileira mundialmente falando. Recentemente estive falando disso com o Rincón, aqui no Santos, e com o Pulgar, no Flamengo. Ambos deixaram claro que torciam para o Brasil na Copa. Então, foi duro, porque vínhamos jogando melhor, saímos na frente, mas tomamos o empate e nos pênaltis fomos eliminados. Na minha opinião, fizemos uma boa campanha até o confronto contra a Croácia, jogamos melhor, mas Copa do Mundo é efetividade. Tivemos 70% de bola, mais de 20 finalizações, sendo 14 no gol. A Croácia teve três finalizações, com uma no gol. E nos pênaltis, que muitos dizem ser loteria, mas, na verdade, é equilíbrio emocional para a boa execução do movimento, nós perdemos. Foi difícil de superar. 

César Sampaio e Cleber Xavier na seleção
César Sampaio fez parte da comissão técnica da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2022 (Foto: Flickr/CBF)

Qual derrota em Copas doeu mais em você: 1998 ou 2022?

Costumo qualificar os títulos e as derrotas como filhos. Cada um tem o seu espaço especial. É uma dor fria, solitária, ninguém tem acesso a isso e cada atleta tem uma reação específica. No meu caso, foi uma dor que quis ficar num buraco mesmo. Sozinho e dar um tempo. Em 2022, por exemplo, o Tite ficou no Rio de Janeiro, porque tem muitos parentes no Sul, enquanto fui para Caxias do Sul, porque tinha muita gente querendo conversar comigo, pedindo entrevistas e procurei me distanciar de tudo. Eu considero um período de luto. Acho que por estar como auxiliar técnico, a derrota de 2022 doeu mais. Como atleta, eu fiz uma grande Copa. Para ter uma ideia, eu tinha média de três a quatro gols por ano, e saí da Copa do Mundo com três gols. Inclusive o primeiro gol do Mundial. Então, mesmo com o Brasil perdendo a final para a França, e naquele dia tivemos outros eventos que nos prejudicaram na final – convulsão do Ronaldo -, saí com uma boa imagem. Além disso, a de 2022 é mais recente. Ainda dá um negócio ao lembrar da eliminação. 

Após pendurar as chuteiras, você trabalhou como gerente de futebol. Como foi essa experiência e por que decidiu virar auxiliar técnico?

Foram caminhos paralelos que tomei no futebol. Quando eu paro de jogar, montei uma empresa com o Rivaldo, a CSR. Fizemos um trabalho legal no Guaratinguetá, na área de gestão. Mas éramos dois ex-atletas que achávamos que iríamos mudar os problemas do futebol no Brasil e no Mundo (risos) e pagamos bem caro por isso.

Fomos referência para alguns ex-atletas, formamos alguns jogadores importantes, mas o saldo negativo foi muito alto. Para se ter uma ideia, eu quase me separei, porque perdi muita grana (risos). 

Achei o trabalho muito legal, mas vi que não era para iniciantes. A partir de então vi que era necessário estudar. Fiz o curso de gestão e cursos complementares. Na função de gestor, eu contratava treinadores e decidi fazer o curso de técnicos da CBF para tentar levar aos clubes que estava gerindo profissionais que tivessem o modelo de jogo próximo à identidade da instituição. E fazendo esses cursos conheci o Tite. À época, a Seleção Brasileira contava com auxiliares pontuais. Esses auxiliares eram sempre um ex-atleta com histórico na seleção para estar interagindo com os jogadores convocados. Principalmente os mais novos. O Juninho Paulista era o coordenador da seleção e me chamou pela primeira vez. Quando fui convidado pela segunda vez, o próprio Juninho perguntou se queria seguir efetivamente, porque era um pedido do Tite. 

Tomei um susto e falei: ‘Mas eu não sei nada de campo, estratégia’ (Risos)’. 

Eles tiveram muita paciência comigo e o que sei hoje foi graças a eles. Pude contribuir pontualmente em alguns momentos importantes. Desde então tenho me aperfeiçoado. Fiz todos os cursos de técnicos da CBF, fiz um módulos nos Estados Unidos. Sou um ávido por aprender. Tento extrair ao máximo de quem está ao meu redor. E foram essas inquietudes no futebol que me trouxeram para o campo. 

Por ter sido gestor e estar como auxiliar, você tem participado dos nomes escolhidos para reforçar o Santos?

Sim. Temos debates aqui. É um colegiado de pessoas do setor e essas trocas compõem os elementos para uma contratação. E são vários elementos. Primeiro o financeiro (risos). Escolher um bom jogador não é difícil, mas fazer eles entrarem no orçamento é o desafio. Temos que encontrar o melhor dentro do que o nosso bolso pode pagar. 

Por participar dos possíveis reforços, você já ligou para o Neymar, com quem conviveu na Seleção?

Não (Risos)… Lembra que falei do bolso (risos). Tem determinados jogadores que temos que estar preparados. O nosso bolso ainda não chegou nessas cifras. Mas tive a oportunidade de conviver com o Neymar e sou muito grato a Deus por isso. Que ser humano fantástico! Menino ímpar mesmo. Uma pessoa que sempre me respeitou. Tivemos uma relação muito boa. Ele também é um torcedor fanático do Santos, vez ou outra aparece na Vila e faz estremecer as paredes por lá. Vamos ver se nós estruturamos tudo aqui para que grandes nomes possam vir. O Neymar seria a cereja do nosso bolo. 

Você pensa em ser treinador?

Hoje não. Convivi esses últimos seis anos com treinadores diretamente e entendo que é uma posição que tem que absorver tudo para estar 100% voltado a essa demanda de campo, competições e adversários. Na minha qualificação, já sou um treinador, mas entendo que estrategicamente a minha posição no Santos me permite contribuir melhor, pois atuo em diferentes setores. Não só com o Caixinha. 

Em algumas entrevistas você já comentou sobre os ‘trotes’ que recebia do Serginho Chulapa ao chegar no profissional. Como era essa relação com ele?

Serginho é um anjo pra mim. Devo muito a ele. Quando retornei, me telefonou para dizer que estava muito feliz e torcendo para dar tudo certo. 

Por que um anjo? 

Na minha primeira renovação de contrato profissional, estava com o aluguel dos meus pais atrasado. Sempre fui um cara sorridente, de bem com a vida. Nesse dia o Serginho me viu meio mal e me perguntou o que tinha acontecido. Expliquei que estava esperando um aumento maior de salário, mas não tinha dado certo. Eu não tinha empresário, o meu irmão cuidava dessas coisas. 

Ele ouviu e falou: ‘Espera aqui que vou subir lá (na diretoria)’. Quando voltou, voltou com uma melhora de 40% em relação ao salário que eu tinha acertado (risos). Lembro que me perguntou se esse valor estava bom. Eu fiquei sem acreditar, agradeci. Mas ele falou: 

‘Se eu ver você andando no campo e se não tocar a bola pra mim, vou te meter a porrada e teu salário vai para R$ 500,00’ (risos)’. 

Era uma relação muito sincera. Mas ele batia na gente mesmo (risos)… não tinha conversa, não. 

Você era um dos atletas de Cristo. Tentou converter o Serginho?

Eu me converti aqui em Santos e, recém-convertido, estava fanático pela religião, achando que todo mundo estava errado e só eu era certo. Queria levar todo mundo para a igreja e fui convidar o Serginho (risos). Ele estava sendo expulso muitas vezes, brigava nos jogos. Então pedi para falar com ele. Todo canhado, cheguei e falei:

Sampaio: ‘Serginho, estou querendo falar com você’. 
Serginho: ‘O que você quer?’
Sampaio: ‘Sabe o que é, você anda muito nervoso, precisa mudar um pouco’
Serginho: ‘Mudar o quê?’
Sampaio: ‘Vamos na igreja comigo, fazer uma oração para você se acalmar’

Ele olhou pra mim de cima pra baixo e disse:

Serginho: ‘Eu vou. Mas com uma condição’
Sampaio: ‘Claro, qual?’
Serginho: ‘Depois do culto, você vai sair comigo para uma parada que eu vou escolher’.

Eu achei melhor não aceitar e sugeri uma oração ali no clube mesmo. Andorinha com morcego não voa junto, não. Ele ia me matar (Risos)

Você teve o Seo Pepe como treinador. Ele era um técnico de paz ou linha dura? 

O Seo Pepe é uma referência pra gente. A maneira como ele nos ensinou o passo a passo dentro e fora de campo foi incrível. Ele falava muito do jogador que quando jogava bem ficava bonito, mas quando ia mal, ficava feio (risos). 

Sempre orientando a guardar dinheiro, não se empolgar com a noite ou essa atmosfera que se apresenta para jovens atletas, mas que é mentirosa. Ele foi um pai pra mim. Ele já havia passado por tudo que aquela geração estava começando a passar e sempre nos ensinou. Dentro de campo era um estrategista. Conseguia identificar os pontos fracos dos adversários, em termos táticos, e trabalhar em cima disso. Foi o treinador na minha transição da base para o profissional. Sempre muito próximo dos mais jovens. Não só ele, mas o Clodoaldo também, que me ensinou vários atalhos da posição. 

Essas, aliás, são coisas malucas que você vive no Santos. Até o Pelé fez palestras para nós que éramos da base. Quem é da base do Santos tem acesso a coisas estranhas. Você acha que nunca vai ver esses ídolos na sua vida e de repente eles aparecem no vestiário. Isso te impacta e te prepara muito. Até hoje, quando estou em baixa ou com algum problema, lembro de muita coisa que eles falavam lá no passado. 

Últimas notícias do Santos:

No seu retorno, o Santos anunciou a sua volta dizendo que ‘O Bom filho à casa torna’. Você queria ter se transferido para o Palmeiras?

Queria ter saído sim. Em 1991, quando fui para o Palmeiras, era boa uma projeção profissional. Lembro de uma frase que a minha avó materna falou naqueles dias. Estava em dúvida e fizemos uma reunião familiar para conversar sobre essa possibilidade.

Ela disse: ‘É isso que você quer? Tem certeza que é isso? Então, segura na mãe de Deus e vai’. 

Quando ela falou isso, me tranquilizei, fui e vivi grandes coisas no futebol. A minha primeira convocação para a seleção foi com a camisa do Santos, mas eu precisava fazer ter tomado aquela decisão, mesmo considerando o Santos o meu verdadeiro ninho. 

Foto de Bruno Lima

Bruno LimaSetorista

Jornalista pela UniSantos com passagem pelo Jornal A Tribuna de Santos. Já trabalhou na cobertura de jogos da Libertadores e das Eliminatórias Sul-Americanas no Brasil e no Exterior. Na Trivela, é setorista do Santos.

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