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Carta aberta: “Mano, não seja Coronel Jesuíno Mendonça”

Caro Mano,

Tudo bem? Faz tempo que não conversamos. Desde sua saída do Corinthians na nos vimos mais. Mesmo de longe, acompanho seu trabalho. Sei que continua sendo sério e honesto. E duro. Um técnico de seleção deve estar com a cabeça cheia sempre.

Você, por exemplo, deve estar muito preocupado em busca de um goleiro e de um meia. Continue procurando, Mano, mas também reserve um horário para o lazer. Não se pode ficar o tempo todo pensando no trabalho. Eu tenho uma sugestão de lazer que, além de divertir, pode te ajudar no comando da seleção.

Veja Gabriela, Mano. Retrata o período do auge do cacau, no sul da Bahia, em 1925. Há muitas histórias que traçam um painel da época. Uma delas é trágica e cômica ao mesmo tempo. Falo do coronel Jesuíno Mendonça e o modo como entende a relação homem-mulher. “Se prepare que vou lhe usar”, repetia incessantemente para a mulher, que o traiu. Traído, coronel Jesuíno não quis saber de discutir a relação. Passou fogo na mulher e no dentista, que lhe punham um par de chifres na testa.

Coronel Jesuíno resolveu se casar novamente. Comprou uma menina nova – pagou uma dívida do pai dela – e foi logo avisando: se não for virgem, eu mato. Já matei uma, mato outra. Na noite de núpcias, foi direto. “Deite na cama, abra as pernas e deixa o resto comigo”. Nada de amor, mulher foi feita para obedecer.

Longe de mim compará-lo com coronel Jesuíno. Acho até que você tem um jeitão romântico, do tipo que gosta de Roberto Carlos e Altemar Dutra, mas sua entrevista após a vitória contra a África do Sul, tem um pouquinho daquele raciocínio machista. Você acusa jornalistas de torcerem contra, você pede que jornalistas torçam a favor e que o povo ame a seleção.

Assim, sem nada, Mano? Sem um bombom, sem uma flor, sem um futebol bonito. Mano, vamos fazer uma mudança de gênero aqui. Em vez de seleção, vamos falar selecionado. No masculino. Em vez de povo, digamos população. Mano, o SELECIONADO que você dirige precisa conquistar a POPULAÇÃO brasileira.

Não é fácil, eu sei. Nós somos mal acostumados. Nós nos entregamos a Pelé, Garrincha, Didi, Rivellino, Gérson, Romário, Rivaldo, Ronaldão, Ronaldinho, que nos deram títulos. Mas a população não é interesseira. Não nos vendemos por título. Basta tratar bem, como Falcão, Sócrates, Cerezo e Xico fizeram. Perderam, mas são amados. Telê, se estivesse vivo, seria aclamado pelo povo novamente.

Mano, sei que os tempos são difíceis. Sua vida seria mais fácil se esses craques ainda jogassem. Sei que todos que o criticam – eu também – convocariam praticamente os mesmos jogadores. Mas, você há de concordar, se a moçada é essa, dá para fazer com que joguem melhor, não dá?

Você é pago para isso, Mano. Se você é fã do 4-2-3-1, com três meias trabalhando para um atacante, esse UM não pode ser o Leandro Damião, não acha? E desses TRES, pelo menos UM tem de ser cerebral. Faça o Ganso jogar Mano. Não acredito no Oscar, mas se você acredita, faça com que ele jogue. Ou desista desse esquema. Olha o Sabella, ali na Argentina, que está reconciliando o Messi com a seleção. Olha o Tabarez, do Uruguai, que tem obtido sucesso com jogadores piores que os nossos. (Agora, vai cair, afinal Lugano e Forlán já não estão bem).

Por fim, Mano, se o coronel Jesuíno tinha um rival no dentista, tomo a coragem de lhe comunicar algo desde que você já deveria estar desconfiado. Nós, a população, temos outro amor. Isso vem de tempo, antes dava para convivermos os três em alegre ménage, mas agora, está difícil.

A gente gosta mesmo é do nosso time. Viu o palmeirense lotando o Pacaembu para jogar junto e arrancar seu time do fundo do poço? Aquilo é amor verdadeiro. Desculpe a palavra, mas é amor de puta. Por mais que a gente sofra, a gente ama o clube. O selecionado, não.

Para montar o selecionado, você está prejudicando os clubes, que são – me desculpe confessar – nosso amor verdadeiro. Você acha que são-paulinos e santistas estão felizes em ver seus times desfalcados de Lucas e Neymar? Por causa da África do Sul? Por causa da China? O corintiano está feliz de encarar o Grêmio sem o Paulinho e o Cássio?

Mano, você pode não ser o culpado de muita coisa. Mas ser técnico da seleção não é como servir o Exército, como diz meu amigo Vitor Guedes. Não é obrigatório. É um trabalho bem pago. Então, se vira, amigo. Monte um time que dê alegria e resultados. Conquiste a gente. Por que, se você vier dar uma de Coronel Jesuíno, a gente vaia mesmo. E corre para os braços do dentista.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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