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Carlos Alberto Silva: Engrandeceu o interior, lançou tantos talentos, contribui ao tetra

Mineiro de trato fácil, ótimo para gerir elencos. Professor de olhar cirúrgico, capaz de descobrir diversas promessas. E também corajoso o suficiente para apostar nelas, responsável pela eclosão de tantos nomes notáveis do esporte. É impossível revisitar a história do futebol brasileiro entre o final dos anos 1970 e o início dos 2000 sem citar o nome de Carlos Alberto Silva. Não foi um técnico revolucionário, nem passou anos seguidos à frente de um mesmo time. Seu talento, ainda assim, permitiu que se sagrasse campeão em diferentes cantos do país. Que se tornasse um dos treinadores mais celebrados, por seus feitos e pelos ídolos que proporcionou. O Guarani, campeão brasileiro de 1978, é o ponto alto de uma trajetória prodigiosa.

Nesta sexta-feira, aos 77 anos, Carlos Alberto Silva faleceu, cerca de um mês depois de passar por uma cirurgia do coração. Sua memória, contudo, permanece intacta. E a gratidão se espalha por diversos clubes, no Brasil e também no exterior. Um treinador que faz por merecer as tantas homenagens. Que, apesar dos poucos meses dirigindo a seleção brasileira, teve sua parcela de contribuição num dos maiores orgulhos do país, dando espaço a alguns dos protagonistas na conquista do tetra em 1994.

Lenda no Guarani

carlos alberto silva

Carlos Alberto Silva pode ser chamado de “professor”, com a boca cheia. Formado em educação física, logo começou a trabalhar em times do interior. Passou dois anos e meio na Caldense, até que chamasse a atenção daquele que foi o clube de sua vida. Em janeiro de 1977, recebeu o convite do Guarani. Os bugrinos queriam um treinador que pudesse valorizar os seus grandes talentos. Ninguém melhor do que o escolhido. Logo no primeiro dia de trabalho, saiu para observar os juniores. Promoveu cinco garotos de uma vez só, entre eles o seu futuro craque, o jovem Careca.

Além da montagem do elenco, Silva primou pela moldagem de um time equilibrado. Sua defesa sofria poucos gols, enquanto o ataque demonstrava grande capacidade, municiado mais atrás por Zenon e Renato Pé Murcho. E era considerado um paizão por seus jogadores, em um grupo que chegou ao seu ápice justamente na reta final do Brasileiro de 1978. A partir da terceira fase, os campineiros não perderam mais. Foram 12 vitórias e um empate, derrubando gigantes como Internacional, Santos, Vasco e Palmeiras, seu adversário na final. Uma vitória dedicada também ao esforço do comandante, que perdeu o pai nas últimas semanas do campeonato e seguiu em frente. Como tributo, ganhou a dedicação ainda maior de seus jogadores.

Ao longo de sua carreira, Carlos Alberto Silva teve mais cinco passagens pelo Guarani. E alguns dos melhores momentos vividos no Brinco de Ouro foram justamente sob as suas ordens. Em 1994, dirigiu outro time irresistível, cheio de garotos, estrelado por Djalminha, Amoroso e Luizão. O Bugre fez a melhor campanha do Brasileiro nas fases de classificação, eliminou o São Paulo de Telê Santana nas quartas de final e só parou nas semifinais, para o Palmeiras de Vanderlei Luxemburgo. Depois, o treinador teria ainda outra passagem notável em 1999, chegando até as quartas de final do Brasileirão, dando trabalho ao bicampeão Corinthians.

Campeão em tantos outros clubes

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No entanto, ao contrário do que seu extenso currículo no Guarani possa indicar, Carlos Alberto Silva esteve longe de ser técnico de apenas um clube. O sucesso no Brinco de Ouro abriu as portas em tantos outros lugares, também deixando a sua marca. No São Paulo, o clube da capital com o qual o treinador mais se identificou, conquistou dois títulos do Campeonato Paulista. Em 1980, bateu o Santos, em time encabeçado por Serginho, Waldir Peres e Oscar. Foi o treinador, aliás, quem “entregou” aos tricolores um dos maiores zagueiros de sua história, recuando Dario Pereyra do meio-campo para a zaga. Já no final dos anos 1980, Silva voltou para faturar o estadual em 1989, derrotando o surpreendente São José. Sua pedra no sapato no Morumbi acabou sendo o Brasileiro. Vice em 1981, superado pelo Grêmio, voltou a amargar o quase em 1989, dentro de casa, diante do Vasco. Entre os paulistas, também teve passagens por Corinthians, Palmeiras, Santos e Portuguesa, sem o mesmo impacto.

Em Minas Gerais, treinou as três forças de Belo Horizonte. No Atlético, viveu parte dos anos áureos de seu principal esquadrão, ajudando com a conquista do Mineiro de 1981, um dos seis consecutivos dos alvinegros, além de também assumir a direção em 1998. Já no Cruzeiro, depois de uma estadia em 1986, viveu períodos intermitentes na primeira metade dos anos 1990. O suficiente para seu olho clínico firmar Ronaldo Fenômeno na equipe principal, durante uma excursão à Europa, assim como para conquistar a Copa Master em cima do Olímpia em 1995. Pelo resto do país, Silva cravou seu nome em Goiás e Pernambuco, campeão estadual em ambos: em 1983, no aclamado tri-super do Santa Cruz, considerado um dos títulos mais marcantes do clube, e em 1986 pelo Goiás.

Fora do Brasil, Carlos Alberto Silva também ergueu suas taças. Em 1991, se aventurou no Japão, às vésperas do advento da J-League. Em tempos nos quais os clubes ainda levavam os nomes de empresas locais, o mineiro comandou o Yomiuri, futuro Verdy Kawasaki e atual Tokyo Verdy. Terminou campeão nacional em 1990/91, em time que desfrutava da classe de Rui Ramos e do faro de gol de Kazu Miura. Logo depois, trabalhou em Portugal. Conquistou o bicampeonato português com o Porto, em 1991/92 e 1992/93. Ajudou a lançar os pilares de um dos períodos mais gloriosos dos portistas, com jogadores como Vitor Baía, Fernando Couto, Emil Kostadinov, Aloísio, Domingos Paciência, entre outros.

As sementes do tetra

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Já em 1987, Carlos Alberto Silva foi o escolhido para comandar um período importante de renovação da seleção brasileira. Telê Santana havia sido chamado às pressas e falhou no Mundial do México, contando com um elenco envelhecido, que perdeu o bonde da história. Dentro do caos político vivido na CBF (para variar), só se apontou o novo técnico nove meses depois da derrota para a França, em março, às vésperas do torneio pré-olímpico. Cilinho era a primeira opção, mas declinou, com a bomba sobrando para Silva, interino em sua primeira campanha. O novo treinador tinha um perfil que se encaixava à proposta, especialmente pela capacidade de lapidar promessas. E conseguiu a classificação para as Olimpíadas de Seul.

O resultado assegurou contrato a Carlos Alberto Silva até dezembro. Em maio, ele fez sua primeira partida no comando da seleção principal, em pleno Wembley, empatando por 1 a 1 com a Inglaterra. Voltou da excursão à Europa com a conquista da Taça Stanley Rous na bagagem. Também faturou o ouro nos Jogos Pan-Americanos com o time olímpico – que, no fim das contas, refletia muito do principal, apenas com atletas que nunca haviam disputado uma Copa do Mundo. O ponto baixo veio na Copa América de 1987, com a eliminação nas semifinais, goleado pelo Chile por 4 a 0. De qualquer maneira, o saldo era positivo. Diante das circunstâncias, o trabalho era elogiável, tanto que valeu a renovação de seu contrato para 1987 – quando o futuro era incerto e ele estudava até mesmo uma proposta do Porto, então vencedor da Copa dos Campeões.

Mais importante que os resultados, porém, eram as mudanças implementadas. E, neste ponto, Silva deixou o seu legado. Diversos nomes marcantes ganharam a primeira oportunidade com a camisa amarela graças ao comandante. Parte deles, fundamentais na conquista do tetra em 1994. Em sua primeira partida no time principal, Silva promoveu a estreia de nove jogadores. Entre eles, Dunga, Ricardo Rocha, Raí e Valdo. No segundo compromisso, derrota por 1 a 0 para a Irlanda de Jack Charlton, Romário iniciou sua história na equipe nacional. Nos meses seguintes, aconteceria o mesmo com Taffarel, Jorginho, Neto, André Cruz e João Paulo. Capitão na Copa de 1990 (e hipoteticamente em 1994, não tivesse se lesionado), Ricardo Gomes ganhou a titularidade e a braçadeira neste mesmo período. Via-se ali as bases para um novo elenco.

O ponto alto de Carlos Alberto Silva no banco do Brasil aconteceu entre setembro e outubro de 1988. Comandou o time olímpico rumo à medalha de prata nos Jogos de Seul. Equipe de Taffarel sendo herói no gol, de Romário e Bebeto infernizando no ataque, de Jorginho e Mazinho se afirmando. Apesar da derrota para a União Soviética na final, a sensação era de dever cumprido. Mas o treinador só faria mais um jogo à frente da Seleção, vencendo a forte Bélgica por 2 a 1 na Antuérpia. Não durou no cargo por política. As críticas ao processo eleitoral que elegeu Ricardo Teixeira culminaram na sua demissão em 1989. Não teve tempo para conquistar tanto, completando apenas 19 jogos na equipe principal. Mas a sua importância no processo é inegável. Meses que engrandecem também a trajetória de um técnico tão notável.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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