Campeonato Brasileiro

Seu time está sendo prejudicado no Brasileirão e vai continuar assim

Reclamações sobre arbitragens são recorrentes e em parte elas têm razão, mas continuarão acontecendo

O Campeonato Brasileiro tem certos marcos temporais que são bastante comuns, a ponto de quase o tornarem uma espécie de Dia da Marmota. Há aquele momento de reclamar do calendário e desfalques da data Fifa, algo que é sabido desde o dia que se divulga o dito cujo. Tem também aquele momento, já na reta final, normalmente nas últimas 10 rodadas, que o STJD aparece com alguma irregularidade que ficou escondida a maior parte do campeonato. Outra é a reclamação de arbitragem, mas dentro dela há uma categoria bem específica: a reclamação de arbitragem que sugere um complô para ajudar o seu rival na disputa pela taça. Todo ano tem, seja quem for que esteja na luta pelo título.

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O Brasil é um país fértil para teorias conspiratórias. Não só aqui, é verdade, mas nos ateremos aqui porque é do Brasileirão que estamos falando. Há sempre uma tentativa de levantar suspeitas e mostrar que o seu time é prejudicado. Não importa qual é o seu time, de qual cidade. Sempre há uma teoria sob medida criada para dizer que sim, o seu time é prejudicado. Os dirigentes não se furtam a assumirem seus papéis de justiceiros e dizer que “não irão mais tolerar esse tipo de coisa”, em uma gritaria que serve muito a você, torcedor. Sim, é a você que ele está falando.

O torcedor, na grande maioria dos casos, só se importa com o seu próprio time. O resto que se exploda. É parte da nossa cultura, a ponto de termos o famoso ditado “farinha pouca, meu pirão primeiro”. O nosso instinto coletivo é próximo de zero, então a gente não está preocupado em resolver os problemas se eles não forem os NOSSOS problemas. Os problemas dos outros são problemas deles. E dane-se.

Arbitragem ruim, terreno fértil para conspirações

O tema arbitragem é muito fértil, porque a brasileira é realmente muito questionável. O nível é baixo, temos diversos problemas em relação a critérios, falta um comando unificado e transparente e há pouca prestação de contas em relação a isso. A arbitragem é muito suscetível a pressões de todos os lados e é por isso que os dirigentes fazem essas gritarias todas.

Não é um processo linear. Os clubes escrevem “representações”, uma nota de repúdio em versão futebolística, às vezes até enviam representantes à sede da CBF no Rio de Janeiro para uma “reunião”, que fica assim, entre aspas, porque é um café, no máximo, com umas reclamações lá que no máximo ficam registradas em uma ata – talvez nem isso.

Tudo isso serve para que? Um primeiro motivo pelo qual os dirigentes de clubes vão a público detonar a arbitragem é que isso cria uma pressão para os próximos jogos. Você cria um ambiente hostil para a arbitragem e tenta criar um ambiente onde o árbitro tenha não só o já habitual receio de errar, mas o receio de errar contra o time que reclama. Não há qualquer comprovação que isso funciona, mas é sem dúvida uma pressão a mais em cima do árbitro, ajudada pelo impulsionamento das críticas dos dirigentes repercutidas pela imprensa especializada e consumida por toda comunidade do futebol.

O segundo motivo é para mostrar a você, torcedor, que o clube está fazendo algo, que não é bobo, que não é bunda mole, que não é frouxo, que não vai ser passado para trás. Isso é para você, torcedor, se sentir abarcado na sua desconfiança que “estão nos roubando”, que “aquele outro time lá” é sempre beneficiado, enquanto o seu time é sempre prejudicado, perseguido pelas mais diversas razões. A CBF não quer que o SEU time seja campeão, por qualquer razão maluca que tenham falado, e o discurso do dirigente acalenta os corações conspiracionistas dos seus torcedores.

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O inferno são os outros

Todo torcedor tem um pouco de conspiracionista em si. É uma delícia acreditar que o problema do time é que os jogadores são vagabundos sem raça ou amor à camisa; que eles são canalhas que estão tentando derrubar o técnico; que o problema é o jumento que fica no banco de reservas; e, claro, que é o árbitro, a mando de interesses escusos, que está operando e roubando o seu time. Todas as teorias deliciosas para se acreditar e entrar em um espírito negacionista dos próprios problemas. E isso acontece com todos os torcedores em algum nível, inclusive você.

Veja a citação abaixo, da National Geographic Brasil, que fala sobre teorias da conspiração:

Especialistas afirmam que a maioria das pessoas não cai tão fácil em mentiras. Mas quando a desinformação oferece explicações simples e casuais a eventos que de outra forma seriam considerados aleatórios, “ela ajuda muitos indivíduos a restaurarem a sensação de controle e equilíbrio”, conta Sander van der Linden, psicólogo social da Universidade de Cambridge.

Sentiu como isso é familiar na nossa vida como um todo, em todas as áreas? É fácil cair em teorias conspiratórias, muito mais fácil do que a gente imagina. É claro que há muitas teorias conspiratórias ridículas, mas nós caímos em algumas constantemente, porque elas simplesmente fazem sentido. Quer ver como isso é um perigo?

As pessoas utilizam atalhos cognitivos — regras basicamente inconscientes para tomar decisões de forma mais rápida — para decidir em quem irão acreditar. E aqueles que se sentem com ansiedade ou com uma sensação de desordem, ou ainda que anseiam por explicação cognitiva podem depender ainda mais desses atalhos cognitivos para dar sentido ao mundo, explica Marta Marchlewska, psicóloga social e política que estuda teorias da conspiração na Academia Polonesa de Ciências.

Quando os dirigentes reclamam de arbitragem, muitas vezes até têm razão, como vemos frequentemente. A arbitragem é ruim, os erros acontecem em todos os lugares e aqui, com condições piores, árbitros menos preparados e um ambiente de pressão muito maior criado pelos próprios dirigentes, além de uma liderança por vezes incapaz de melhorar tudo isso, a tendência é que aconteça mais.

É justo que se reclame de um erro. O ponto é: quem quer resolver? A sensação é que os clubes só querem é que OS OUTROS sejam prejudicados, e não ele. É similar à discussão sobre os adiamentos de jogos por times que têm jogadores convocados: se vai me prejudicar, sou contra. Se só prejudica o outro, bom, azar o dele. Sendo assim, os erros continuarão e o seu time, seja qual for, continuará a ser prejudicado eventualmente, como todos são em alguma medida. E continuaremos vivendo em uma gritaria pra ver quem grita mais alto e quem consegue ser ouvido (em que a resposta é: provavelmente ninguém). Assim como em tantas áreas da vida, o que vemos é gente que se mostra feliz com o caos, exceto quando é o prejudicado. Se não é, chama de mimimi e tá tudo certo.

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Qual seria a solução para a gritaria contra a arbitragem?

A solução é muito menos fácil e muito menos gostosa de aceitar: é preciso que todos os clubes, juntos, trabalhem para elencar quais são os maiores problemas da arbitragem e, conjuntamente, tracem políticas junto à CBF para unificar os critérios, ter mais transparência e criar condições melhores para os árbitros.

Isso passa também pela formação de arbitragem e pela profissionalização – e aqui leia-se a profissionalização como a dedicação em tempo integral, com benefícios trabalhistas para que os profissionais possam exercer a função do melhor modo possível. Além disso, é preciso revisar os métodos do VAR: quem são os operadores do VAR? Eles são bem treinados? Eles passam por processos constantes de avaliações? Como melhorar isso?

Vamos além disso: como fazer com que as imagens à disposição do VAR sejam da melhor qualidade possível, e não só de acordo com o estádio? Isso passa pela própria CBF ter sua transmissão por exemplo, já que atualmente todas as imagens são de responsabilidade da emissora que transmite, no caso, o grupo Globo e o grupo Warner, responsável pelo TNT Sports.

Não há solução fácil e sinto muito se você acredita nisso, mas as coisas não são tão simples. Gostamos de acreditar em bobagens simplistas que explicam coisas complexas, mas normalmente os problemas exigem uma solução árdua, que envolve esforço coletivo – inclusive o seu, mesmo que não te prejudique diretamente. As coisas mudam com processos, não com varinha mágica.

Com tudo isso, o problema é bem claro: falta espírito coletivo, falta união e sobra teatro de dirigentes que fazem o papel de policiais justiceiros e sobram papeis de vítima de injustiças reais ou imaginárias, que os torcedores amam abraçar. Basta lembrar quanto os clubes (e seus torcedores, especialmente) adoram usar discursos na linha de “contra tudo e contra todos”, ou algo “contra a imprensa, que torcida para o rival”, ou “contra a CBF, que não queria que a gente ganhasse”.

Quando pararmos de ser ridículos e olharmos para o problema com seriedade e coletividade, talvez as coisas comecem a melhorar. Enquanto um aponta o dedo para o outro fazendo afirmações levianas sugerindo um complô, estaremos todos apenas cumprindo os nossos papéis no teatro do ridículo do Dia da Marmota no futebol brasileiro, como um filme ruim repetido todo ano na Sessão da Tarde. Se prepare porque tudo isso se repetirá no ano que vem, já que ninguém dos brabos que gritam pensam mesmo em fazer algo para melhorar. Só querem amenizar o seu apetite por explicações lógicas para o caos que vivemos por culpa desses mesmos que bradam contra a injustiça.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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