Brasileirão Série A

Scarpa demorou a engrenar, mas se despede do Palmeiras como o protagonista de um título brasileiro

Scarpa teve um começo acidentado, entre problemas coletivos e judiciais, mas subiu de produção com Abel Ferreira e irá embora como forte candidato a ídolo

Houve um momento em que vender Gustavo Scarpa era provavelmente a decisão correta. Foi na passagem de 2019 para 2020, com Vanderlei Luxemburgo no comando, quando o Almería, da Espanha, acenou com uma proposta de aproximadamente € 7 milhões. Não havia muitos argumentos contrários. Embora tivesse chegado como contratação de peso, o canhotinha que se tornaria responsável pela popularização do cubo mágico nunca havia explodido com a camisa verde. Ele próprio queria a experiência de jogar na Europa, mesmo se tivesse que fazer um estágio na segunda divisão espanhola antes encontrar algo melhor. No fim, o Almería suspendeu as negociações, e o acordo nunca foi fechado. Para a sorte do Palmeiras.

O sonho europeu de Gustavo Scarpa será realizado. O seu contrato não será renovado e, no começo de 2023, terá acesso fácil à literatura britânica quando se apresentar ao Nottingham Forest, lutando para sobreviver na Premier League. Cabeça boa que é, sabe que está indo para um clube em dificuldades, mas que precisa “pisar na Europa” para chamar a atenção se quiser defender camisas mais fortes. Dessa vez, o palmeirense, em gigantesca maioria, gostaria que ficasse. Porque desde que Abel Ferreira chegou, Gustavo Scarpa se transformou em um dos principais jogadores de um time que conquistou praticamente todos os títulos. Do título brasileiro deste ano, provavelmente o principal.

O Palmeiras insistiu para ter Gustavo Scarpa. Havia feito tentativas durante 2017 antes de fechar o negócio no começo do ano seguinte. Aproveitou que o jogador conseguira liberação do contrato com o Fluminense na Justiça, alegando atrasos de pagamentos. Scarpa foi anunciado em janeiro de 2018, chegou a defender o clube alviverde em alguns jogos, mas o imbróglio judicial seguiu. Em março daquele ano, o Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro derrubou a liminar que o permitia defender o Palmeiras. Seu contrato foi rescindido no Boletim Informativo Diário da CBF. Nesse intervalo, houve interesse do exterior, mas o desejo mútuo prevaleceu. Scarpa retornou ao Palmeiras na metade de 2018 após um habeas corpus liberá-lo de seu vínculo com o Fluminense.

O seu primeiro ano foi ainda mais tumultuado com uma lesão que o tirou de ação por dois meses. Se em 2019 teve bons números, o ano ruim do Palmeiras do ponto de vista coletivo, entre o fim da terceira Era Felipão e a chegada polêmica de Mano Menezes, atrapalhou destaques individuais. Em entrevista à Gazeta Esportiva, Scarpa fez um balanço desse período e também admitiu que começou mal em 2020, quando chegou a proposta da Espanha, sob o comando de Vanderlei Luxemburgo. “Por muito tempo, eu me cobrei muito sobre a minha trajetória no Palmeiras porque realmente muita gente colocou confiança em mim”, começou.

“Eu lembro que, no meu primeiro ano, no segundo jogo que fiz, fui titular, fiz dois gols, e aí caiu a liminar, fiquei três meses afastado. Voltei já jogando e ajudando a equipe no Brasileiro. Machuquei, com uma lesão estranha para caramba, fiquei dois meses fora e ainda consegui retornar na reta final do Brasileirão e ajudar a equipe com gol decisivo, bater pênalti, ser titular, ajudar na conquista do título. Em 2019, fui artilheiro do clube na temporada. Acho que o nosso time, apesar de não ter conquistado título, tentou fazer um belo ano. Não acho que teve destaque individual. Em 2020 é que começo mal com o Luxemburgo, mas consigo dar a volta por cima. Depois disso, só para cima”, contou.

Enquanto tentava corresponder em campo, Scarpa ganhou pontos de carisma nas redes sociais pelas suas resenhas de livros. Achou As Memórias Póstumas de Brás Cubas “legalzinho” e tem certeza que Capitu traiu Bentinho em Dom Casmurro, dois livros de Machado de Assis. A Revolução dos Bichos, de George Orwell, é “bem maneiro, uma sátira interessante, outra época e pá, mas maneiro”. Ficou estressado “fiiiirme” com Garganta e Maricota. A análise do clássico A Metamorfose de Franz Kafka entrou para a história: “maneiroooo. Mlk inseto”.

O desempenho como jogador de futebol finalmente ficou à altura do de crítico literário com a chegada de Abel Ferreira. Scarpa chegou a dizer, em entrevista ao UOL, que “talvez seja a primeira vez que eu e a grande maioria entra em campo e sabe literalmente tudo que tem que fazer”. Os times mais bem organizados sabem tirar o melhor das suas peças individuais e foi o que Abel Ferreira fez. Em momentos decisivos, aproveitou a inteligência de Scarpa para usá-lo de uma maneira mais tática, fechando o lado esquerdo, quase como lateral, às vezes exatamente como lateral. Foi a grande sacada em Montevidéu contra o Flamengo, por exemplo. Scarpa começou a brilhar pelo trabalho que exercia sem bola. E depois passaria fazê-lo também com a bola.

Grande parte do sucesso do Palmeiras neste Campeonato Brasileiro passou pela bola parada. A quantidade assustadora de gols dos seus zagueiros ganha destaque, mas alguém precisa cruzar para eles. Esse alguém é geralmente Gustavo Scarpa. Antes de entrar em campo contra o Fortaleza, tinha 18 assistências, além de 13 gols. Foi decisivo em vários momentos. Deu as assistências para os gols de Gómez e Murilo na grande virada contra o São Paulo no Morumbi. Marcou uma pintura contra o América Mineiro, no resultado mínimo que valeu o título simbólico do primeiro turno. Uma campanha que o ajudou a marcar seu nome na história do Palmeiras no século 21: é o nono com mais partidas (231) e o sexto em gols (43) – antes do jogo desta quarta-feira.

O palmeirense precisou esperar para ver o Gustavo Scarpa do Fluminense que durante tanto tempo foi um objeto de desejo. O começo teve problemas, dentro e fora de campo, mas ele finalmente começou a florescer sob o comando de Abel Ferreira. No fim, se vai com oito títulos: dois Brasileirões, dois Paulistas, uma Copa do Brasil, duas Libertadores e uma Recopa Sul-Americana. Infelizmente, atingiu a plenitude apenas na reta final, a meses de ir embora, mas o pacote completo foi suficiente para deixar saudade, como um forte candidato a ídolo dessa recente fase vitoriosa do Palmeiras.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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