Campeonato Brasileiro

Reflexo do momento, o Goiás 2×2 Flamengo teve um roteiro maluco num jogo que parecia trivial

Assunto frequente até quando vive as fases mais modorrentas, o Flamengo tantas vezes oferece uma motivação especial a quem tenta o derrotar. Afinal, será um resultado com mais visibilidade, sob a chance de frustrar a maior torcida do país. Nos últimos meses, porém, desafiar os rubro-negros significa mais. O time de Jorge Jesus justifica sua badalação e recebe o reconhecimento por seu futebol vistoso, independentemente das rivalidades. Encarar o Fla, mais do que a mídia, garante a chance de derrubar uma das melhores equipes brasileiras nos últimos anos. E não são poucos os oponentes que abraçam o desafio como se fosse uma final. Assim fez o Goiás. Dentro de uma atmosfera vibrante no Serra Dourada, os esmeraldinos conseguiram arrancar pontos dos flamenguistas, no empate por 2 a 2 determinado pelo insano segundo tempo.

Aos adversários, não é apenas uma questão de comprovar sua força. Também tem uma ponta de orgulho, que envolve a própria capacidade de mobilização ao redor deste Flamengo. Mais do que acontece normalmente, o Fla vai arrastando multidões aos estádios longe do Rio de Janeiro. Foi o que se viu nas arquibancadas do Serra Dourada, com uma porção expressiva de rubro-negros. Entretanto, o Goiás tinha a sua honra a defender, também empurrado por sua barulhenta torcida. Como fez o CSA na rodada anterior, poderia exibir o seu máximo.

Os jogos recentes do Flamengo quase sempre apresentam um alto nível de entretenimento – e não apenas pelo Flamengo. Sim, a equipe de Jorge Jesus exibe uma rotação muito acima do comum no futebol brasileiro e comanda o show, como os resultados falam por si. Mas muitos desafiantes se sentem motivados para explorar as fraquezas e também tentar sair para o jogo, especialmente times que não têm lá muito a perder a esta altura do campeonato. É o caso do Goiás. Depois do que aconteceu no Maracanã, com a goleada por 6 a 1 no primeiro turno, o que os esmeraldinos poderiam temer? Seria um jogo aberto.

E se aquela goleada, de certa maneira, inflou o monstro que dominaria o Brasileirão nos últimos meses, o Goiás também desejou se provar como um antídoto. Os erros foram assimilados. Michael voa baixo no campeonato, assim como Tadeu. Os esmeraldinos começaram muito bem este segundo turno, apesar da queda recente. Dava para arriscar uma outra história diante dos claros favoritos, num momento em que a maratona de jogos também exerce os seus efeitos sobre os rubro-negros.

O Flamengo entrou em campo sem jogadores importantes. Rafinha e Gérson começaram no banco, pendurados, enquanto o lesionado Diego Alves deu lugar a César. O primeiro tempo começou promissor, após uma cabeçada de Pablo Marí que carimbou a trave. Mas a verdade é que os flamenguistas não imprimiram a voracidade de outros momentos, algo que já tinha se percebido contra o CSA. Não era apenas a ausência dos titulares. Coadjuvante, o Goiás equilibrou bem os primeiros 45 minutos.

O puxão de orelha de Jorge Jesus no intervalo deve ter sido grande. O Flamengo voltou com tudo para o segundo tempo e fez valer sua fase. Gabigol parecia ansioso por marcar seu 20° tento no Brasileirão, algo que se via desde o final de semana. O artilheiro perdeu uma chance no mano a mano com Tadeu aos oito minutos. No entanto, logo no lance seguinte, a bola o procurou e o centroavante meteu para dentro, num lance todo enrolado. O que vale é o barbante balançando. E o barbante balançaria novamente num lance parecido pouco depois, aos 17, para Rodrigo Caio ampliar. Também após um escanteio da direita, e também depois de um desvio no meio da área, o zagueiro tratou de escorar. Depois, teve até uma desnecessária confusão, por uma provocação de William Arão a Tadeu na comemoração.

O Flamengo parecia ter o jogo nas mãos. Os rubro-negros esboçavam uma goleada, que Tadeu não permitiu ao espalmar o chute de Everton Ribeiro. Mas o Goiás não estava disposto a servir de sparring desta vez. Os esmeraldinos tinham sua chance. E o arisco Michael, um raro exemplar que se mete entre os flamenguistas como um dos melhores jogadores do campeonato, resolveu aprontar. O ponta era um azougue pelo lado esquerdo do ataque, partindo para cima de Rodinei. Não deu sossego ao lateral até que Rafael Moura descontasse aos 31, aproveitando um cruzamento do companheiro. Os goianos estavam ávidos pelo empate.

Como raras vezes se viu neste Brasileirão, o Flamengo podia se sentir acuado. Michael quase fez o segundo, num chute pelo lado de fora da rede. Rafael Vaz chegou a enganar muita gente, que gritou gol para o arremate perigosíssimo que passou ao lado da forquilha de César. E a situação se complicou aos cariocas numa confusão aos 39. César saiu mal do gol e cometeu a falta fora da área. Na sequência, Pablo Marí salvaria milagrosamente o chute de Rafael Moura, ao meter a cabeça na bola. Mas o árbitro não aliviaria ao goleiro. Querendo aparecer mais que os jogadores, nada surpreendente em seu trabalho, Ricardo Marques Ribeiro expulsou César duas vezes – primeiro ao mostrar o segundo amarelo, depois ao rever o lance no vídeo e aplicar o vermelho direto. O reserva Gabriel Batista entrou no lugar de Vitinho.

Os acréscimos seriam longos, o Flamengo teria um a menos e o time precisaria confiar em seu terceiro goleiro. Em meio a todo o drama, o Goiás insistia. E o gol sairia aos 49, em mais uma participação de Michael. O atacante partiu nas costas da defesa e deu um leve toque para tirar de Gabriel. Comemorou feito CR7. Mas o empate dos esmeraldinos também teve discussão. Do outro lado do campo, pouco antes do tiro de meta que iniciou o lance, Rafael Moura empurrou o rosto de Filipe Luis. O árbitro não apitou e os rubro-negros ficaram na bronca, mas não seria a reclamação que alteraria o resultado do jogo. Ao final, houve até um bate-boca entre Arão e Gabigol, com Jesus também demonstrando irritação com o volante.

Apesar do tropeço, o Flamengo sabe que oscilações tendem acontecer. Anormal é a série de vitórias recente do clube, por mais que seja condizente ao futebol exuberante exibido pelo time de Jorge Jesus. A vantagem no topo da tabela, ainda assim, é de confortáveis oito pontos sobre o Palmeiras, 68 no total. O que será frequente aos rubro-negros é o clima eruptivo a cada compromisso. Assim como o Goiás, outros tentarão tirar sua casquinha da campanha histórica. Vão exigir um empenho ainda notável dos cariocas, num momento em que o desgaste sobre os titulares tende a ser maior. O Goiás teve a sua oportunidade desta vez, se redimindo ao menos um pouco daqueles 6 a 1. Os esmeraldinos aparecem na décima posição, com 39 pontos. Valorizaram a noite no Serra Dourada.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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