Brasileirão Série A

Paulo Junior: Vasco foi a Salvador, mas jogou e sonha direto da Barreira

Enquanto o Vasco empatava com o Bahia na Fonte Nova, em Salvador, torcida marcava presença nos arredores de São Januário

O Vasco empatou com o Bahia com seus onze jogadores mais cinco reservas correndo atrás do ponto na Fonte Nova, em Salvador, mas o jogo, aquele protagonizado pelo torcedor e que lhe cabe enquanto pertencimento e resistência num futebol cada semana mais silenciado e autoritário, aconteceu em São Januário, no Rio de Janeiro, distante a um dia e pouco de estrada, explodindo num gol de pênalti do centroavante Pablo Vegetti.

A discriminatória proibição da presença de torcedores no estádio vascaíno começou por conta do comportamento da torcida na derrota para o Goiás, há mais de dois meses, mas depois tomou ares clara e diretamente elitistas, com uma interdição que aponta que a Barreira do Vasco não deveria receber um evento do porte de um jogo de futebol. Um desembargador chegou a questionar por que algumas coisas nos emocionam, como o esporte, e outras não, como “a escória humana na cracolândia”. Escória, escreve o dicionário, se refere ao mais desprezível, residual; na metalurgia, é o subproduto, os restos, as impurezas da fundição de minério.

Tudo isso no país que suspende estádios a torto e direito, embarga a alegria das arquibancadas, impede a cerveja, veta a presença de visitantes, atravanca caravanas nas estradas, dosa faixas e bandeiras, interrompe partidas por conta do gás de pimenta no nariz dos jogadores. O campeonato do planeta em que comemoração vira cartão amarelo ­– me desculpem pelo gol! O Brasil é a escória da festa do futebol, isso sim.

Ramón Diáz, referência do futebol sul-americano e atual treinador do Vasco, entendeu tudo, por óbvio. “Pero queremos jugar en nuestra cancha”, esbravejou ao reconhecer que o time precisa melhorar, claro, mas que ter o direito básico de atuar sob o apoio de sua casa é condição mínima na briga contra o rebaixamento, mergulhado cinco pontos abaixo do primeiro time fora da zona da degola, o próprio Bahia da igualdade de domingo, 1 a 1. El Pelado, ao tempo que vê o time melhorar em alguns pontos, se entusiasma com o poder de mobilização na Barreira para garantir que o time não voltará à segunda divisão.

Em campo, há boas notícias no recorte recente. Gary Medel, sete jogos, não demorou a mostrar como eleva o nível de confiança defensiva do time, principalmente como zagueiro, numa ótima sequência até voltar a ser volante nesse último jogo. Paulinho, seis partidas, foi um achado no meio-campo, e não à toa nunca foi nem substituído desde que virou titular, peça fundamental em manter o gás, bater e voltar, até o final. Pablo Vegetti, cinco presenças, tem três gols e ótima capacidade de brigar pela bola aérea e segurar o zagueiro rival, um matador que já é indispensável para o pior ataque da tabela. Praxedes também teve bons momentos (jogou muito na vitória sobre o Atlético-MG), assim como Serginho, autor do gol diante do Galo. Foi uma boa janela de inverno.

E Dimitri Payet. O francês terá 17 jogos pela frente para entrar na história do clube, em missão ingrata, porém possível, de buscar as vitórias necessárias para a permanência na Série A. A estreia entrando no intervalo foi de participações apenas pontuais, normal para a falta de entrosamento e sequência, alguma carência de ritmo, mas o bastante para ter a calma necessária de oferecer um passe na medida para a virada, desperdiçado no chute de Jair no final do jogo. Em lance parecido dentro de algumas semanas, o camisa 10 provavelmente estará mais à vontade para finalizar.

Ramón Díaz ganhou opções, tem os próximos dias sem jogos para afinar esse novo time depois de tantas estreias recentes e, acima de tudo, parece entender de mobilização e de Vasco da Gama nesse momento delicado. Se na ponta de cima da tabela o português Bruno Lage trucou diante da pressão de assumir um líder Botafogo em Nilton Santos lotado, insinuando colocar o cargo à disposição à beira de um título brasileiro, embaixo o argentino se agarra nas novas lideranças e no comovente entusiasmo coletivo de seus seguidores, comprando uma briga, a 1600km de distância, com quem viu o jogo apertado, e feliz, direto da Barreira do Vasco, o melhor lugar do mundo para aquelas tantas pessoas.

Foto de Paulo Junior

Paulo JuniorColaborador

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.

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