Campeonato Brasileiro

O pulo do Galo

Quando o São Paulo desandou a ganhar o Brasileirão, as cornetas do apocalipse soaram para anunciar que o país veria seu número de grandes clubes diminuir drasticamente. Adotada a seleção natural de Charles Darwin, só os mais aptos sobreviveriam. Os bem administrados, os evoluídos, os diferenciados (o último termo ainda não havia virado piada made in Morumbi) Nossa liga seria como as europeias, onde poucas equipes se revezam para levantar a taça, cabendo aos demais o consolo de brigar por uma posição honrosa. Bem que fazia sentido. Com a implosão do Clube dos 13 e as negociações dos direitos de transmissão feitas clube a clube, desniveladamente, crescem as chances das cornetas estarem corretas. Por enquanto, ainda é só terrorismo verbal.

Antes mesmo do tricampeonato são-paulino, os pontos corridos já tinha dado um campeão inédito ao Brasileirão. A conquista do Cruzeiro, no entanto, era uma pendências que, pela tradição do clube, seria corrigida mais cedo ou mais tarde, assim como tinha sido a volta de uma conquista do Santos em um campeonato nacional no ano seguinte. Em seguida, viria a redenção do futebol carioca. Ser um clube organizado nem se mostrou assim tão essencial, como o Flamengo provou. Os clubes mais sérios estarão por mais tempo rondando o topo da tabela e correrão menos riscos, como prega a teoria. Na prática, nada impede que possam embicar para baixo em um ano de planejamento infeliz. Da mesma forma, os mais tradicionais, vez por outra, aparecerão para brigar lá por cima. Um título do Atlético-MG, o primeiro campeão, e em jejum desde então, confirmaria tal expectativa.

Jornadas de estrela

As piadas eram irresistíveis: o time mineiro acabava de contratar Ronaldinho e Jô, de passagens polêmicas e boêmias por Flamengo e Internacional, respectivamente. Logo para jogar na cidade com maior número de bares por metro quadrado no Brasil… Por enquanto, vem dando certo. Jô tem marcado gols e sua chegada veio em boa hora, já que André foi impedido de entrar em campo por questões burocráticas. Ronaldinho continua com aquela mobilidade quase nula dos tempos rubronegros, mas é importante na bola parada. E às vezes até arrisca um brilhareco com a bola rolando, geralmente em passes longos. Um bom coadjuvante.

Porque o protagonista é a grande novidade do campeonato, o nanico Bernard. Formado na base do clube, tornou-se fator de desequilíbrio, a ponto de dividir com o veterano vascaíno Juninho o posto de melhor jogador do Brasileiro. Tivesse despontado um pouco antes, poderia estar nas Olimpíadas, desfalcando sua equipe. Rápido, habilidoso e muito inteligente, teve como lances mais célebres os dois chapéus antes de um cruzamento para Jô, a quem ainda consagrará de tanto servi-lo. Mas contra o Sport pôde desfilar todo seu repertório, com direito a duas assistências e um golaço por cobertura. Sem contar a dedicação em recuar para ajudar na marcação, uma aptidão que outras revelações como Neymar, Lucas e Ganso não souberam demonstrar.

O quadrado ofensivo é completado por um Danilinho bem mais regular em seu retono ao clube. E ainda há a opção da entrada de Guilherme, eleito o melhor jogador do Mineiro, entre os titulares, quando estiver com melhor ritmo de jogo. Mas o destaque não fica apenas para o ataque, o mais produtivo do campeonato até aqui. A defesa é a segunda menos vazada e foi sendo montada aos poucos, com jogadores de bom nível: Marcos Rocha e Júnior César nas laterais, Réver e Leonardo Silva na zaga. Victor pode não ser unanimidade, mas é um goleiro com passagem por seleção brasileira. Talvez falte mais técnica aos volantes, mas eles têm dado conta do recado, com muita entrega, dando mais liberdade aos atacantes e compensando a indolência de Ronaldinho.

Bons e maus exemplos

Na goleada sobre o Sport, o Galo mostrou um traço importante para quem quer ser bem sucedido nos pontos corridos: confiança. O time da casa ensaiou momentos de pressão, mas o líder do torneio não se abalou. Não mostrou aquela fúria recomendada a quem quer triunfar na Ilha do Retiro, mas compensou isso na base da paciência. Quando Vágner Mancini se desesperou e deixou o rubronegro pernambucano com apenas um marcador no meio-campo, o Atlético deslanchou. E graças ao placar elástico, superou a campanha inicial do Corinthians no Brasileirão passado, alcançando os mesmos 28 pontos em 11 jogos, mas com um gol a mais de saldo.

O campeão da Libertadores é mesmo o melhor exemplo para os mineiros. Com a “gordura” acumulada nas primeiras rodadas, manteve-se na briga pelo título nacional até o final, mesmo sem ter um time brilhante e ainda longe de atingir a competência coletiva demonstrada em 2012. Porém, repetir a trajetória será mais complicado para o Atlético, já que seus rivais o perseguem de muito perto e parecem estáveis. Fluminense, campeão de 2010, e Vasco, vice de 2011, não deixam o Galo fugir pelo terreiro e ainda podem se gabar por terem melhores experiências recentes nesse galinheiro.

O Atlético já se credenciou para brigar pelo título, mas terá seu grande teste quando as coisas passarem a dar errado. Em algum momento, o desempenho cairá, porque ninguém consegue mantê-lo por longas 38 jornadas. A forma com que lidará com isso definirá se ele pode mesmo saciar o seu jejum de grandes conquistas, se a campanha será suficiente apenas para devolver o clube ao cenário internacional com uma vaga na Libertadores ou se este galo não está à altura da rinha e usará suas esporas para tocar seu cavalo paraguaio tabela abaixo.

Há alguns anos, treinado pelo mesmo Cuca, o Botafogo largou na frente, também jogando um futebol bem agradável, mas entrou em parafuso à primeira instabilidade. Não soube evitar a mistura entre a falta de autoestima de quem desconfiava não ter bola para estar ali e a pressa em sonhar com um título ainda distante. Os mineiros não podem cair na mesma armadilha. Ajudará bastante se o seu técnico não mostrar o desequilíbrio emocional que impede sua carreira de decolar, mesmo tendo times bem montados no currículo. E também se Ronaldinho e Jô permanecerem comportados e Bernard souber lidar com marcações mais duras, consequência inevitável de sua boa fase. Seguindo os passos de seu mascote, o Atlético Mineiro madrugou no campeonato. Mas não pode vestir o pijama antes do tempo.

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Equipe Trivela

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