Brasileirão Série A

O milagre de Saulo é daqueles lances que trazem a emoção de uma final aos pontos corridos

O papo de que os torneios de pontos corridos “têm 38 finais” é uma das maiores balelas do futebol. Não estou negando que o peso de cada resultado é uniforme, mas há um elemento de tensão fundamental em qualquer encontro decisivo nos mata-matas. Uma percepção geral de que aquele é “o momento” – e que, em maior grau, se nota em toda a Copa do Mundo, por exemplo. Não é isso, porém, que exime os pontos corridos de suas doses cavalares de emoção. À medida que a competição entra em sua reta final e o equilíbrio se mantêm, os jogos se tornam mais tensos. E essa atmosfera particular pairou no Estádio Nilton Santos neste domingo. De certa forma, o Botafogo 2×2 São Paulo teve seus traços de mata-matas, sobretudo pela pressão tricolor nos minutos finais. Daqueles jogos que se impregnam na memória, de uma forma ou de outra. Que terá a defesa de Saulo para ser relembrada por muito tempo.

Já vinha sendo uma partida muito intensa, de gols, chances e discussões – que, aliás, serão tratadas em outro texto logo mais. O cenário continuava aberto nos minutos finais, embora a iniciativa maior fosse do São Paulo, tentando manter a liderança. E o impossível se concretizou já aos 48, numa defesa que marcará a carreira de Saulo para sempre. O milagre no chute de Rojas foi impressionante. A bola veio à queima-roupa e o goleiro precisou se esticar para espalmar. No entanto, o rebote pipocou na área. Difícil também se levantar a tempo e se recuperar para desviar com o joelho o chute de Diego Souza. Que o atacante tenha batido em cima do botafoguense, em um lance que se esforçou mais para alcançar a bola do que propriamente para acertá-la da melhor maneira, o arqueiro tem seus méritos pela reação rápida e por fechar o ângulo com a meta escancarada. O grito preso na garganta saiu de qualquer forma, seja em urro de lamento ou em comemoração aliviada.

Pela maneira como o São Paulo reagiu na partida, buscando a igualdade duas vezes, não dá para falar que são dois pontos perdidos pelos tricolores. Em compensação, é sim um ponto dado ao Botafogo por Saulo, merecidamente festejado depois da partida. O que o goleiro fez é extraordinário, candidatíssima a ser considerada a melhor defesa do campeonato. Sua dimensão, entretanto, demorará mais algumas semanas para ser medida. Seu valor real fica entre as ambições de são-paulinos e botafoguenses na sequência da Série A. Desde já, não se nega que foi fantástica.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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