Campeonato Brasileiro

O mais bacana na volta de Douglas Costa é sua expressa vontade de defender o Grêmio

Ponta tinha propostas de outros lugares que recusou, diminuiu seu salário substancialmente e facilitou sua rescisão com a Juve

Um dos pratas da casa mais queridos do Grêmio está de volta ao seu antigo lar. Depois de um longo namoro, o Tricolor oficializou o retorno de Douglas Costa ao clube, depois de 11 anos atuando na Europa. Aos 30 anos, o ponta tem bola e idade para render bastante neste recomeço em Porto Alegre. Chega com uma trajetória vitoriosa e experimentada em grandes clubes. A questão é mesmo seus recorrentes entraves físicos, sem conseguir viver uma temporada tão saudável desde 2017/18. Mas, se a recuperação for plena, Douglas Costa possui condições evidentes de sobrar em campo. Por isso mesmo, o medalhão faz os gremistas sonharem.

Douglas Costa começou no Grêmio como profissional em 2008. Era tratado como uma grande promessa nas categorias de base, com rodagem nas seleções menores, e não demorou a apresentar seu talento no antigo Estádio Olímpico. O ponta não viveu necessariamente grandes momentos com os tricolores, mas tinha uma qualidade técnica que deixava claro como o futebol europeu pagaria uma fortuna por sua transferência. O Shakhtar Donetsk deu um passo à frente e contratou o garoto de 19 anos por €8 milhões em janeiro de 2010, na sétima compra mais cara feita pelos ucranianos até então.

Em cinco temporadas e meia na Donbass Arena, Douglas Costa amadureceu e virou um dos melhores do time. Ajudou o Shakhtar a ampliar seu domínio no Campeonato Ucraniano e apareceu nas copas europeias. Foi a deixa para que assinasse com o Bayern de Munique, servindo como alternativa a Franck Ribéry e Arjen Robben na Baviera. Douglas levou mais taças em seus dois anos por lá, embora também tenha começado a conviver com problemas físicos mais recorrentes. Vendido à Juventus, também faria uma primeira temporada maiúscula em Turim e chegaria em alta para a Copa do Mundo de 2018. Mas, desde então, foi raro ver o ponta em suas melhores condições – mesmo durante o Mundial.

Douglas Costa atravessou mais duas temporadas na Juventus, com dificuldades de ganhar sequência por conta das lesões. Tentou uma reeducação corporal, o que não necessariamente surtiu mais minutos em campo. A volta ao Bayern de Munique nesta temporada, mesmo emprestado, parecia um recomeço. Retornava ao clube onde jogou muito bem, num elenco campeão recentemente e com espaço para ser importante na rotação de Hansi Flick. De novo, o espaço se tornou limitado por questões físicas e a temporada para o brasileiro acabou em fevereiro. Pouco contribuiu à conquista da Bundesliga e não pôde ajudar nos mata-matas da Champions. Pesou, então, a vontade de retornar ao Brasil.

O mais interessante na volta de Douglas Costa é o esforço que o ponta fez para estar no Grêmio. Foi ele quem destravou seu contrato com a Juventus, liberado sem custos, e aceitou reduzir seu salário em dois terços para se adequar ao teto tricolor. Até existiam propostas de diversos cantos (Portugal, Turquia, Grécia, China e Estados Unidos, além de rumores envolvendo o Atlético de Madrid), mas a preferência era mesmo defender o clube do coração. Douglas parece empolgado em morar em Porto Alegre e se aproximar da família. Mais importante, nunca deixou de demonstrar um carinho imenso pelo clube e por sua massa de torcedores. Até por isso, criou-se um clima de expectativa enquanto o acerto se delineava nas últimas semanas. Com o novo reforço, o Tricolor ganha um nome para desequilibrar jogos e também para servir de referência aos mais jovens.

A contratação de Douglas Costa não basta ao Grêmio, considerando as carências da equipe de Tiago Nunes em certos setores. Mesmo assim, não se renega um jogador de seu calibre, ainda mais pela ligação íntima. O ponta sabe que encontrará um nível de intensidade mais baixo no Campeonato Brasileiro que pode ajudá-lo a ganhar sequência. O futebol daqui também possui uma medicina esportiva avançada, que é referência e não fica devendo a muitos clubes da Europa, outro fator importante nesta retomada. E há mesmo um lado de se sentir em casa, que contribui ao psicológico. Considerando a idade, com somente 30 anos, o atacante leva a crer que pode dar alegrias aos gremistas por algum tempo nesta volta ao clube.

Douglas Costa ainda fará um Gre-Nal particular com Taison, seu antigo companheiro no Shakhtar Donetsk. Se o colorado veio em condições físicas melhores e com destaque recente no futebol ucraniano, mesmo três anos mais velho, Douglas Costa teve um auge maior na Europa e tecnicamente também possui mais qualidade. Vai ser interessante ver o reencontro dos dois veteranos, que saíram ainda garotos e agora representam um tanto de apego com as categorias de base dos clubes onde foram criados.

Douglas Costa ainda é um prodígio da base que quis o Grêmio e vestirá com gosto a camisa do clube outra vez. É uma história sem precedentes nestas proporções dentro do Tricolor nas últimas décadas, considerando a decepção ocorrida com Ronaldinho, ou ainda a decisão de Lucas Leiva em seguir no futebol europeu e de Anderson em preferir, já em baixa, o outro lado da rivalidade. Douglas volta com uma trajetória que fala por si na Europa, bem como com laços gremistas que se reavivam. Sem muito tempo para protagonizar grandes feitos em sua primeira passagem, o ponta terá a chance de escrever uma história mais sólida na Arena. E, quem sabe, corresponder a tamanha animação por seu regresso.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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