Campeonato Brasileiro

O “lutar, lutar, lutar” dá lugar, 50 anos depois, ao “vencer, vencer, vencer”: O Galo volta a se sagrar campeão brasileiro

A longa espera da torcida atleticana se encerrou nesta quinta-feira, com a reconquista do Brasileirão graças a uma inesquecível virada sobre o Bahia

Quando penso nos 50 anos de hiato entre o primeiro e o segundo título do Atlético Mineiro no Brasileirão, penso no meu pai. O número cheio, meio século, dimensiona a distância, mas é um tanto quanto frio. Mesmo resgatar como era o Brasil em 1971 talvez escape do senso de realidade das gerações mais jovens. Porém, imaginar como o tempo se passou de um rapaz de 23 anos para o senhor de 73 me dá muito mais noção da longa espera. Meu pai mudou-se de estado, casou-se, construiu família, teve três filhos, virou avô, perdeu pais e irmãos, aposentou-se depois de uma vida inteira de trabalho pesado como operário. Vibrou com Reinaldo e Cerezo no Mineirão, encantou-se com Guilherme e Marques, virou testemunha dos milagres de São Victor e da magia de Ronaldinho. Ainda assim, mesmo depois de saborosos desafogos, a expectativa por um novo Brasileirão persistia. Até que viesse nesta quinta, com uma virada fantástica sobre o Bahia, daquelas que merecem a grandeza de um jogo de título. Uma noite para que a massa pudesse encher o peito para dizer que o Galo é bicampeão brasileiro, com toda raça de 50 anos pra vencer.

A caminhada do Atlético Mineiro durou emblemáticas cinco décadas, e alguns requintes de crueldade tornavam a areia do deserto mais quente sob os pés atleticanos nesta interminável peregrinação. O título de 1971, obviamente, constitui um orgulho. Por muito tempo o Galo foi considerado como o primeiro campeão nacional e, ainda que as contas tenham mudado mais recentemente, nada suplanta certos ares de pioneirismo ao redor do clube em meio a essa expansão da competição. Telê Santana foi eternizado, carregado nos braços do povo diante do feito. Dadá Maravilha, Vantuir, Vanderlei, Humberto Ramos e outras feras permanecem como lendas alvinegras. Porém, o mesmo gosto por afirmar tal ineditismo, com o passar do tempo, marcou as distâncias. Era doloroso dizer que parte da história foi inaugurada pelo Atlético, mas, paralelamente, novas gerações de torcedores não tinham presenciado a mesma alegria.

E não dá para dizer que o Atlético Mineiro não conquistou novamente o Brasileirão por “incompetência” ou qualquer outra diminuição do tipo. Esquadrões não faltaram, boas campanhas também não. Mas, num misto de indignação por decisões alheias e outros momentos em que a sorte parecia virar as costas, o novo título não veio. Qualquer lista dos melhores times da história do Campeonato Brasileiro precisa incluir o Galo da virada dos anos 1970 para os 1980. Foram dois vices e dois terceiros lugares, com esquadrões que incluem alguns dos jogadores mais talentosos daquele período. Reinaldo, Toninho Cerezo, Paulo Isidoro, Luisinho, Éder, João Leite e tantos outros possuem uma grandeza que não precisou exatamente do troféu para virar consenso – também por suas aparições na Seleção ou por um marcante hexacampeonato mineiro. Ainda assim, terem levado a Série A pelo menos uma vez seria uma justiça histórica.

Com o passar dos anos, na transição da década de 1980 para a de 1990, o Galo conviveu com outros times que por vezes fizeram campanhas fortes nas fases de classificação do Brasileiro e alimentaram as esperanças da torcida, mas não corresponderam necessariamente nos mata-matas. Foi o caso de 1986, 1987 e 1990, por exemplo. E se o aumento do número de competições na década de 1990 deu novas oportunidades para o Atlético celebrar também seus primeiros títulos continentais, campeão duas vezes na Copa Conmebol, nem mesmo a contratação de astros parecia solucionar o jejum no Campeonato Brasileiro. Novas campanhas expressivas vieram, mas não exatamente a sonhada taça, com a derrota na final de 1999 renovando traumas.

Cabe enfatizar, porém, que o trajeto feito pela torcida do Atlético nesses 50 anos não se concentrou apenas em decepções. E os bons momentos, é claro, não se restringem apenas ao redor dos títulos que também foram conquistados no período. A maior satisfação do Galo está mesmo em sua identidade. Em saber que, independentemente das glórias que acabaram tiradas e das lacunas, a paixão sempre guiaria o clube. Tal fé ajudou a formar o caráter atleticano. A grandeza do Clube Atlético Mineiro não se delimita necessariamente pelas taças ou pelos ídolos. Ela está nessa loucura coletiva que sempre conduz o time e que, mais cedo ou mais tarde, invariavelmente desembocaria nas mais apoteóticas comemorações. Na certeza de que toda a luta valeu a pena. “Lutar, lutar, lutar”, afinal, é parte fundamental do hino para os alvinegros.

(Foto: Bruno Sousa / Atlético)

Se a trajetória do Galo acabava marcada por barreiras e tropeços, a resistência e o espírito da torcida sempre disseram mais sobre o clube. E, antes que a bonança realmente viesse, o início do novo século guardou uma queda para a Série B. Seria o momento de abraçar mais uma vez o time, com o estádio cheio, e se reerguer para voltar mais forte. Mais forte e vingador. A recompensa também não tardaria, até que o Atlético Mineiro passasse a experimentar façanhas antes tão desejadas por seus torcedores. A década de 2010, afinal, é a de um time talhado a negar o impossível.

A Libertadores que o Galo conquistou em 2013 será uma das mais lembradas da história. E não é pelas defesas de Victor, não é pelas genialidades de Ronaldinho, não é pelos gols agonizantes. É pela forma como todos esses elementos se entrelaçam de maneira fantástica para garantir o inédito troféu. Se fosse um livro, talvez muita gente duvidasse da verossimilhança daquilo que o time de Cuca escrevia. Mas, como todos presenciaram diante dos olhos, não dava para negar que era real. O Galo ressuscitou tantas e tantas vezes naquela reta final de campanha, que as reviravoltas até pareciam um enredo caprichoso para o título à espera. Negar as probabilidades mínimas se tornou tão constante que até o incrível virou óbvio com aquele Atlético. Mas não sem antes que a resiliência da torcida fosse testada, em sofrimento que, através da crença inabalável, se transformou em épico.

E o mais impressionante é que o Atlético repetiria tal trajetória mais uma vez, um ano depois, para também levar a Copa do Brasil. As viradas se tornaram uma constante, inclusive para expurgar antigos algozes. Para lavar a alma da massa, numa campanha gigantesca até a decisão. Até um titânico confronto com os maiores rivais. Mas, para quem aguardava um final repetindo aquele nível todo de tensão atravessado ao longo dos meses, o regozijo foi muito mais doce aos atleticanos. A conquista categórica era como a chegada a outro paraíso. Que, entretanto, ainda não encerrava completamente a redenção, com o Brasileiro na mira para pôr fim de vez em todos os amargores de décadas.

E neste momento em que o Atlético Mineiro erguia dois troféus novos à sua história, a força também transparecia na Série A. O Galo era altamente competitivo, mas não necessariamente tinha o fôlego exigido numa competição de pontos corridos. Começou em 2009, quando algumas rodadas no topo durante o primeiro turno não serviram para sustentar a campanha. Tal impulso se repetiu em 2012, quando mais 14 rodadas na liderança até contribuíram para a conquista da Libertadores, com a classificação ao torneio continental do ano seguinte, mas não mantiveram os alvinegros no páreo pelo título nacional. Em 2015, a ponta foi mais breve. E outro ensaio pareceu ocorrer em 2020, quando o cenário se mostrava aberto. Ao final da última temporada, a diferença de três pontos se tornou a menor de todas para os mineiros levarem o título.

Nas últimas nove edições da Série A, o Atlético só não ficou entre os dez primeiros em uma delas. Em cinco acabou entre os cinco primeiros e teria dois vices. Foram 30 rodadas dormindo como líder e sete classificações para a Copa Libertadores. Faltava ao time em campo aquela resistência que sempre sobrou à torcida nas arquibancadas, ao confiar e apoiar incondicionalmente. Quando o Brasileirão, enfim, pintou no horizonte, seria para ninguém mais duvidar do Galo.

(Foto: Bruno Sousa / Atlético)

A campanha de 2021 é daquelas para sublinhar o poderio do Atlético Mineiro, que passou 21 rodadas na ponta desde o final do primeiro turno e abriu uma vantagem que tornou a conquista do título uma mera questão de espera. Uma espera curta, a quem já tinha aguardado tanto tempo. A equipe de Cuca se valeu do elenco recheado, se valeu de suas estrelas, se valeu de uma excelente sequência de resultados que parecia tornar os atleticanos imbatíveis. E a maneira como o Galo se portou dentro de casa, sobretudo, proporcionou tamanho domínio no topo da tabela.

São vários nomes inescapáveis ao sucesso do Atlético. Hulk faz um campeonato histórico em sua volta ao Brasil. Keno, Guilherme Arana, Nacho Fernández, Éverson, Junior Alonso, Nathan Silva, Matías Zaracho, Jair, Allan, Mariano, Diego Costa e ainda outros são jogadores obrigatórios para se reconstruir as histórias dessa campanha. Cuca confirma mais sua grandeza no clube depois do que ocorrera naquela Libertadores de 2013. Ainda há Réver, outro elo com aquelas epopeias vividas anos atrás. O atual time do Galo parece honrar todo o peso que sua camisa possui no Brasileirão, de grandes ídolos que não necessariamente acabaram recompensados como deveriam.

E se existe um protagonista especial, o torcedor merece ser colocado neste papel. Depois de tanto tempo com estádios vazios e futebol incompleto por conta da pandemia, a massa pôde abraçar definitivamente o Galo nesta reta final. Foi uma virtude a mais, pela sinergia que existiu em diferentes jogos dentro do Mineirão – mesmo que os ingressos tenham chegado a preços exorbitantes. Se existem torcidas que causam impacto dentro de campo, a atleticana serve de exemplo. A longuíssima espera se transformou em repetidas festas até que, nesta quinta, mesmo longe de casa, com uma gigantesca virada por 3 a 2, a terra prometida chegasse com o título matematicamente assegurado quase 50 anos depois. Desta vez, não haverá qualquer reviravolta ou história triste para frustrar os alvinegros. Tudo isso num momento ainda mais deleitoso, pela enorme crise que vive o rival azul, e que permite que um só grito ecoe por todas Minas Gerais.

O Atlético Mineiro vai por mais. A chance de transformar 2021 num ano ainda mais inesquecível está posta, com os duelos diante do Athletico Paranaense podendo proporcionar uma rara dobradinha nacional – e uma tríplice coroa que servirá para incomodar um pouco mais os rivais. Além do mais, o elenco parece forte o suficiente para manter o ritmo e levar novos troféus. A dúvida dos atleticanos mais cautelosos é sobre as consequências que o mecenato pode ter no futuro, até pelas dívidas altíssimas. Por enquanto, a estratégia agressiva dá resultados e os títulos são exatamente importantes para fazer a roda girar. Com o tempo, é preciso que a situação se consolide e novas fontes de receitas se estabilizem, como o novo estádio.

Mas se o futuro ainda promete novos desafios ao Atlético, dentro e fora de campo, o torcedor deve se dar ao direito de, neste momento, desfrutar o presente. De esquecer um passado que perdurou por meio século no Brasileirão. Afinal, o hoje é leve aos alvinegros, com o único peso sendo o da taça erguida sobre a cabeça. Tantos torcedores, enfim, sabem agora qual aquele sabor sentido pela primeira vez em 1971 e que não falta mais para tornar as atuais gerações de atleticanos completas. A loucura do Galo, agora, é pela comemoração que tantas vezes escapou. A espera faz do momento mais eufórico.

Pelo meu pai, depois do tanto que se viveu desde aquele dia de Telê carregado nos ombros, sei o tamanho que o reconforto de se proclamar “campeão brasileiro” significa. Que signifique o mesmo para toda a massa. Depois de tanta raça e amor, a obsessão pelo segundo Brasileirão finalmente troca o “lutar, lutar, lutar” pelo “vencer, vencer, vencer”.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo