Campeonato Brasileiro

O lamento pelo gol que não veio é o grito de alívio, de campeão: A noite de nervos do Fla octa e do Inter vice

É difícil imaginar um desfecho mais tenso ao Campeonato Brasileiro. Dois jogos paralelos definiam o destino da taça. Dois jogos que acabaram muito mais marcados pelo desespero, e não pela confiança de botar a faixa no peito. O Flamengo dependia apenas de si e, apesar do controle da bola no Morumbi, viu o pesadelo de encontros recentes se repetir contra o São Paulo. Os tricolores foram mais eficientes e venceram por 2 a 1. Assim, o Internacional tinha a chance de ouro em seu colo. E tudo o que não se viu no Beira-Rio foi o almejado gol contra o Corinthians. Bola na trave, pênalti revertido, tento anulado: os colorados poderiam ter vencido. Mas o empate por 0 a 0 é que marca o lamento, estendido por 41 anos, e que confirmou mais um título ao Fla, mesmo derrotado, em noite para a memória de quem viveu e roeu as unhas – e não foram só os torcedores flamenguistas ou colorados que compartilharam o nervosismo, afinal.

O Flamengo, oito vezes campeão brasileiro, também emenda um raro bicampeonato nacional – apenas o segundo de sua história. A régua natural para comparar os rubro-negros é com 2019, mas aquela campanha ganhou ainda mais valor por aquilo que se viu no Brasileirão de 2020, de tantas alternâncias na liderança. O Fla, bem mais instável, ainda se valeu de sua qualidade individual imensa e contou com os protagonistas de seu ataque para fazer a diferença nas vitórias. Não foi o time mais seguro ou imponente, mas conseguiu ser mais regular nos detalhes, numa campanha em que todos abusaram dos erros. Já ao Inter, resta o vazio pelo quase. Num time que tantas vezes pareceu exceder seus limites, faltou exatamente um triz para conseguir o gol que mudaria toda essa história.

Abaixo, dois relatos, um sobre cada jogo, para resumir a noite intensa nos embates que valiam título no Campeonato Brasileiro:

Beira-Rio: Um gol versus 41 anos de espera

Quando o São Paulo fez 2 a 1 contra o Flamengo, a situação era clara ao Internacional: salvo uma reviravolta no Morumbi, bastava um gol, em aproximadamente meia hora, para encerrar 41 anos de espera pelo título brasileiro. Não faltou força de vontade para buscá-lo. Faltou um pouco de futebol. Até houve oportunidades, uma bola na trave, um gol anulado por impedimento, um bololô na área aos 54 minutos do segundo tempo. Mas não houve oportunidades o bastante. O gol não foi feito. O jogo contra o Corinthians terminou empatado por 0 a 0. A espera continua.

Difícil tirar do árbitro Wilton Pereira Sampaio o protagonismo do primeiro tempo. Não porque tenha errado nas duas decisões capitais que impediram o Internacional de abrir o placar, mas pela demora e confusão nas revisões do assistente de vídeo. Por um outro ponto de vista, é adequado a um jogo decisivo de um campeonato que não dominou o uso do monitor mesmo após 38 rodadas.

O começo do jogo foi morno para o Internacional. Mesmo em casa e precisando vencer, quem chegava um pouco mais era o Corinthians, dono da primeira boa chance. Ramiro recebeu dentro da grande área e bateu de primeira, com desvio, mas ainda bem perto da trave de Marcelo Lomba. O Colorado respondeu com Edenílson, sempre ele. Passou por dois e finalizou para a primeira defesa de Cássio na partida.

Aos 31 minutos, aconteceu o primeiro daqueles dois lances capitais. Contra-ataque rápido do Internacional puxado por Patrick após uma roubada de bola no meio-campo, Moisés apareceu pela ponta esquerda e cruzou rasteiro. Ramiro deu o carrinho para bloquear e a bola acertou o seu braço de apoio. Claramente o braço de apoio. Wilton Pereira Sampaio viu o lance com clareza e não hesitou para apitar o pênalti. No entanto, foram necessários muitos minutos de revisão do VAR até que ele fosse ao monitor confirmar o que deveria ter visto na primeira vez: foi no braço do apoio que, segundo a recomendação atual, não gera pênalti.

Nos minutos finais, Yuri Alberto teve uma oportunidade dentro da área, mas estava bem marcado e ganhou apenas escanteio. Logo em seguida, recebeu de Patrick nas costas da defesa, entrou na área e marcou com um toque de classe. O auxiliar, como sempre, deixou o lance correr, apesar do claro impedimento. Depois de mais alguns instantes exageradamente longos, o gol também foi anulado.

A boa notícia ao Inter, porém, era que o São Paulo havia aberto o placar contra o Flamengo. Era necessária apenas a vitória para ser campeão, desde que o Flamengo não virasse o jogo. Aos cinco minutos, quase. Cruzamento perfeito de Heitor pela direita, Edenílson apareceu entre os zagueiros com um míssil de cabeça à queima-roupa. Cássio fez uma defesa maravilhosa. Yuri Alberto ainda se esticou para pegar o rebote. Para fora. E, para piorar, o Flamengo empatou.

Mas, para melhorar, o São Paulo voltou a ficar à frente logo depois. E aí começou o desespero do Internacional. O Flamengo parecia batido. Era só fazer um gol. Um só. Caio quase conseguiu, aos 18 minutos, com um chute de fora da área que explodiu na trave de Cássio – que ainda relou na bola. Àquela altura, o controla era todo do Colorado. Tinha a posse de bola, atacava, tentava, e o Corinthians esperava, se defendia, contra-atacava.

Pesou a falta de recursos ofensivos do Internacional, um problema que permeou toda a sua campanha. Demorou 20 minutos até outra boa chance aparecer, em um escanteio cobrado por Peglow para Lucas Ribeiro, na segunda trave. Muito tempo desperdiçado. A cabeçada passou muito perto do ângulo de Cássio. Em um outro escanteio, Abel Hernández dividiu com Cássio pelo alto. A bola sobrou, o Inter chegou a marcar, mas o árbitro já havia anotado falta antes de a bola entrar.

O momento mais duro ao torcedor colorado foi nos acréscimos. Victor Cuesta fez uma bela jogada pela esquerda. Tabelou, invadiu a área e cruzou rasteiro. Edenílson se esticou para marcar. Explosão no Beira-Rio. Mas bandeira levantada. Posição de impedimento. Gol anulado. Frustração no Beira-Rio.

Ainda houve uma última chance. Cobrança de escanteio. Até Marcelo Lomba estava na área. A bola seguiu viva, da direita para a esquerda, da esquerda para a entrada da área, da entrada da área para o meio da área. Lucas recebeu, girou e bateu. Por cima. Foi para fora. Junto com os sonhos da torcida colorada.

Morumbi: O inferno (e o paraíso) são os outros

O Flamengo entrou em campo com a mesma equipe que derrotou o Internacional no final de semana. Apesar das dores que tiraram ambos daquele jogo, Rodrigo Caio e Gabigol estavam confirmados. Também seguiam na equipe Gérson e Arrascaeta, destaques no triunfo do Maracanã. Enquanto isso, o São Paulo apostou em uma formação diferente. Veio com três zagueiros, além do garoto Wellington na lateral esquerda, diante da suspensão de Reinaldo.

Os primeiros 15 minutos veriam um amplo domínio do Flamengo, mas pouca penetração na defesa do São Paulo. Os rubro-negros rodavam a bola na intermediária, sem tanta velocidade para encontrar os espaços. Desta maneira, os tricolores não se expunham a muitos riscos. A primeira boa chance dos cariocas só surgiria aos 12 minutos, numa cobrança de falta. Gustavo Henrique cabeceou para uma defesa fantástica de Tiago Volpi, mas o zagueiro cometeu falta e o lance sequer valeu.

O São Paulo daria um susto grande no Flamengo aos 18 minutos. Num contra-ataque, Luciano invadiu a área e caiu depois de uma disputa com Isla. Após a revisão, a arbitragem considerou o lance como normal. A espera pela definição aumentou um pouco mais as tensões, numa partida de muitas falta. Os tricolores estavam muito atentos na defesa, mas tinham dificuldades para construir no campo de ataque. Já os rubro-negros seguiam com ampla presença nos arredores da área adversária, mas muitas vezes dependendo das bolas paradas. Aos 33, uma nova chance surgiu em falta frontal. Arrascaeta acertou a barreira e Everton Ribeiro mandou para fora.

No fim do primeiro tempo, o Flamengo tentou aumentar um pouco mais a pressão e acelerar o jogo, concentrando suas ações pela esquerda. Bruno Henrique teve um chute bloqueado aos 39. Logo na sequência, o gol quase veio numa cobrança de escanteio. Bruno Henrique desviou de cabeça e, perto da linha de fundo, Gabigol tentou completar. O atacante já era abafado por Tiago Volpi e, com pouco ângulo, mandou para fora. Enquanto isso, a arbitragem distribuía vários cartões amarelos ao São Paulo – quatro nos 45 minutos iniciais.

O São Paulo só voltou a incomodar nos acréscimos do primeiro tempo. E o momento decisivo da etapa inicial aconteceria ali: o gol que abriu o placar. Na sobra de uma cobrança de escanteio, Tchê Tchê sofreu a falta de Everton Ribeiro na meia-lua. Luciano cobrou no canto do goleiro e contou com o posicionamento ruim de Hugo Souza, que se esticou, mas não alcançou a bola. O empate no primeiro tempo do Beira-Rio ainda dava o título ao Flamengo. Porém, a situação era limítrofe aos rubro-negros.

O Flamengo precisava de outra postura no segundo tempo e isso se notou durante os primeiros minutos. A equipe arriscava mais os lances e, aos dois minutos, Gabigol mandou uma bicicleta por cima do travessão. Seria uma prévia até que o gol de empate saísse, aos seis minutos. Gabigol conseguiu ganhar o escanteio pela direita. Depois da cobrança de Arrascaeta, Gustavo Henrique desviou de cabeça e Bruno Henrique apareceu sozinho na pequena área para definir. O Fla tirava um peso das costas, mas ainda precisava da vitória para não depender do que acontecesse no Beira-Rio.

Quando o Flamengo parecia mais propenso à virada, o São Paulo retomou a vantagem. E, de novo, o lance saiu às custas de um erro do goleiro Hugo Souza. Aos 13, o garoto repôs mal uma bola e seu lançamento caiu no peito de Daniel Alves. O lateral enfiou a bola e pegou Pablo na mesma linha dos zagueiros, para definir às redes. Os rubro-negros levaram um tempo a se recuperar do gol, sem exercer o mesmo abafa, com os tricolores escapando um pouco mais ao ataque. E a primeira troca de Rogério Ceni, aos 21, manteria o roteiro tradicional do treinador – com Pedro no lugar de Gabigol, que sentia dores na coxa.

No primeiro lance de Pedro, o centroavante cruzou para Bruno Henrique cabecear ao lado da trave. O substituto deu mais presença de área à equipe, o que não seria tão aproveitado. Aos 28, mais duas mudanças de Ceni, com as entradas dos garotos Matheuzinho e Diego Gomes nas vagas de Isla e Diego. Apesar das trocas para dar mais gás, os rubro-negros sinalizavam seu cansaço. Pedro até invadiu a área aos 31, mas não era acompanhado por ninguém e seu chute cruzado foi defendido tranquilamente por Volpi.

O jeito ao Flamengo era torcer pelo Corinthians em Porto Alegre. Dentro do Morumbi, os rubro-negros apresentavam pouquíssimo. Era uma equipe letárgica, que rodava a bola e não tentava nada de muito diferente para romper a marcação do São Paulo. Os tricolores seguiam protegendo muito bem sua área. Depois de ter colocado Galeano, Vizolli fez três trocas aos 40, mandando a campo Hernanes, Gabriel Sara e Igor Gomes. Os são-paulinos renovavam seu meio-campo para manter a segurança na proteção, mas até saíam um pouco mais ao campo ofensivo.

Os últimos suspiros do Flamengo viriam mesmo nos acréscimos. Foi quando os rubro-negros partiram ao desespero com mais cruzamentos na área. Bruno Henrique pararia em defesa de Volpi e, na cobrança de escanteio, a bola pipocou até que a falta de Pedro fosse marcada. Depois, em mais um lance brigado dos rubro-negros, Arrascaeta mandou para fora. Mesmo que o empate saísse a esta altura, não fazia muita diferença. A torcida era pelo Corinthians. Era pelo gol anulado de Edenílson. Quando o apito final soou no Morumbi, todos os olhares estavam no que acontecia dentro do Beira-Rio. E, depois da última chance desperdiçada pelos colorados, viria o grito de campeão. Com derrota e com doses cavalares de tensão, mas com um alívio descomunal, que conduziu a festa rubro-negra. Pela oitava vez, o Brasileiro é do Flamengo.

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