O transformou suas perspectivas no Brasileirão durante o último mês. Se muita gente começava a descartar os colorados, diante da saída de Eduardo Coudet, a equipe apresentou um poder de reação impressionante. E num campeonato em que diversos times seguem no páreo sem convencer, os gaúchos entram na reta final da campanha em alta, merecendo mais créditos pela maneira como têm emendado vitórias. , de fato, recuperou seu toque de Midas no Beira-Rio e faz um trabalho, além de surpreendente a muitos críticos, também louvável pelos diversos acertos. Neste domingo, o Inter arrancou uma vitória emocionante sobre o Fortaleza e chega com a motivação lá no alto para sua semana mais decisiva na competição.

Quando Abel Braga chegou, parecia mais prudente manter as bases do que vinha sendo feito por Eduardo Coudet. O Inter apresentava uma equipe bem montada, que não chegava a ser brilhante, mas que reafirmava sua competitividade para seguir no topo da tabela do Brasileirão continuamente. Não foi possível dar esse seguimento. As ideias dos treinadores são bastante distintas e, mais do que isso, o contexto não beneficiou. O próprio Abel precisou se tratar da COVID-19, deixando o comando por quatro jogos ao assistente Leomir de Souza, e o rendimento de alguns jogadores despencou, em especial de Thiago Galhardo. Em meados de novembro, os colorados pareciam sem grandes expectativas.

E os resultados, afinal, davam motivos à desconfiança. Abel Braga não começou bem, até buscando preservar alguns conceitos de Coudet, mas perdendo a mão em certas escolhas e alterações. Depois da troca de comando, o Inter passou sete partidas em que a única vitória culminou na eliminação para o América Mineiro na Copa do Brasil. Parecia uma equipe entregue à sua própria sorte, em que faltava intensidade e os jogadores não sabiam muito como proceder em campo. Neste ponto, a eliminação na Libertadores também parecia praticamente consumada, antes do encontro com o Boca Juniors na Bombonera.

A transformação do Internacional nesta virada de ano passa, inegavelmente, por Buenos Aires. O segundo duelo com o Boca Juniors marcou o retorno de Abel Braga ao banco de reservas, recuperado da COVID-19. Mais importante, os colorados transformaram sua atitude em relação à derrota no Beira-Rio. Viu-se uma equipe bem mais consciente de suas armas e consistente. Os gaúchos recuavam mais para marcar, sem a pressão sufocante pregada por Coudet. Além disso, voltavam a apostar mais na velocidade pelos lados em suas construções. Foi assim que o Inter realizou uma excelente partida na Bombonera, que rendeu a vitória, apesar da eliminação diante dos xeneizes nos pênaltis.

As lições pareciam assimiladas, por Abelão e por seus jogadores. O Inter soube retirar ânimo daquela desclassificação e manteve a mentalidade positiva vista na Bombonera durante a sequência do Brasileiro. Não é sempre um time tão agressivo quanto no primeiro tempo de Buenos Aires, mas os colorados parecem saber dosar suas forças. Têm uma proteção defensiva até melhor, com as linhas mais recuadas, e buscam as vitórias sem precisar apresentar um futebol “moderno” ou exuberante. Ganhar é o que basta nesta nova versão do Inter em 2020/21 e isso faz a diferença num Brasileirão no qual os concorrentes não exibem constância.

Dentro de campo, Abel Braga abriu mão do 4-1-3-2 que acompanhou Coudet ao longo de sua passagem pelo Beira-Rio. O veterano tem priorizado o 4-2-3-1 em suas escalações, por vezes adiantando o meio no 4-1-4-1 ou então fechando duas linhas no 4-4-2. Independentemente da estratégia escolhida, nota-se muito mais capacidade para atacar pelas pontas e de preencher o meio-campo, sem ficar tanto na dependência de uma ou outra peça funcionar melhor – como era nos tempos de seu antecessor. Há uma dose de pragmatismo, entre a velocidade nos contragolpes e a confiança nas bolas paradas, inclusive na defesa. Ainda assim, é uma ideia muito mais funcional para evitar o desalento dos colorados pela sequência ruim.

Abel também possui o mérito de recuperar alguns jogadores que não tinham tanto espaço com Coudet. Apesar da séria lesão recente, Rodrigo Moledo justificou o seu retorno ao miolo da zaga. Da mesma forma, Rodrigo Dourado recuperou sua titularidade na cabeça de área após longa lesão e mostrou como segue sendo um dos jogadores mais confiáveis do elenco. E isso não significou diminuir o espaço a outros nomes vitais. Edenílson é um meio-campista precioso nas mãos do treinador e, se Thiago Galhardo caiu, Patrick assumiu o protagonismo. O Pantera Negra fez uma atuação inesquecível na Bombonera e vem repetindo sua importância, como diante do Fortaleza. Isso ajuda até outros companheiros, algo demonstrado por Moisés na lateral esquerda.

Outro grande acerto de Abel Braga está no espaço e na confiança que concede aos jogadores da base. Nem todos foram lançados por ele, mas o moral garantido a uma excelente geração dos colorados gera frutos visíveis. Os últimos jogos foram repetidamente resolvidos pela gurizada, com gols fundamentais de Caio Vidal, Bruno Praxedes e João Peglow. Dentre os jovens que também despontam, Yuri Alberto não foi formado no Beira-Rio, mas mostra como poderia ser muito mais aproveitado e corresponde com uma fase excelente nas últimas semanas. É outro que ajuda nessa melhora da produção.

A tabela pode ter auxiliado o Internacional. Das seis vitórias seguidas que o time conquistou no Brasileirão, apenas o Palmeiras aparece brigando nas cabeças. Nos demais jogos, os colorados venceram Botafogo, Bahia, Ceará, Goiás e Fortaleza – alguns deles, com mais aperto do que se imaginaria contra equipes em má fase. De qualquer maneira, um dos problemas do Inter nesta campanha esteve exatamente na forma como o time derrapou contra oponentes mais acessíveis. Na mesma sequência de seis jogos durante o primeiro turno, com Coudet, foram apenas duas vitórias conquistadas. E o argentino, cabe lembrar, se despediu com empate diante do Coritiba.

A vitória sobre o Fortaleza neste domingo serve como um ponto alto ao Inter. Após as dificuldades encaradas contra o Goiás no compromisso anterior, os colorados fizeram um primeiro tempo bastante agressivo. Conseguiram os dois primeiros gols e, mesmo depois que os adversários descontaram, seguiram com as melhores oportunidades. O time seguiu desperdiçando na volta ao segundo tempo e, apesar do susto com o empate do Leão do Pici, conseguiu se reerguer. Patrick liderou a vitória no final, premiando uma atuação não muito precisa dos gaúchos, mas notável pela recuperação e pela vontade. É o que precisará se repetir nesta reta final do Brasileirão, num time que mantenha seu foco e sua capacidade de contornar adversidades.

O verdadeiro teste de fogo a Abel Braga acontecerá nos próximos dias. A primeira decisão acontece na quarta-feira, com a visita ao São Paulo no Morumbi, em que a vitória valerá a liderança. E também importante será o compromisso de domingo, com o Gre-Nal no Beira-Rio servindo de tira-teima num ano em que os tricolores mandaram no clássico. Depois dos seguidos insucessos com Coudet, até pelo passado que o atual técnico remonta, parece haver confiança de que Abelão poderá encerrar o jejum diante dos rivais. O foco dos gremistas na Copa do Brasil também pode ajudar.

Fato é que, para quem se encontrava nove pontos atrás do São Paulo até semanas atrás, o Inter cresce no momento certo para encostar nos líderes. Ainda parece um elenco inferior à maioria dos concorrentes e com um treinador que lida com cobranças frequentes por seus últimos trabalhos. Porém, a esta altura do Brasileirão, os candidatos ao título precisam de confiança e de segurança em seu futebol. Por aquilo que o Inter apresenta, é possível notar este crescimento. A resposta agora precisa ocorrer também nos dois jogos mais importantes dos colorados nesta campanha. Depois disso, a sequência inclui majoritariamente adversários no meio da tabela, exceção feita ao Flamengo na penúltima rodada.

E a reação do Internacional com Abel Braga torna interessante também o planejamento dos colorados ao futuro. No final de 2020, o acerto com Miguel Ángel Ramírez parecia apenas questão de tempo e Abelão não deixou de demonstrar sua insatisfação com a postura da diretoria. Agora, a boa fase esfria as conversas com o espanhol. A indecisão sobre os rumos indica como o futebol brasileiro se pauta muito mais em vitórias do que em ideias. Ainda assim, pela maneira como reergue o Inter, Abel merece mais respeito por seu trabalho. A história ainda garante uma aura especial ao treinador mais importante do clube. Porém, não é apenas isso que sustenta seus resultados, consertando o time em declínio e fazendo diversos jogadores crescerem de produção. Abelão sabe trabalhar o mental de jogadores desmerecidos pela crítica e isso transparece neste Inter ressurgido no Brasileiro.