O “Internacional de Falcão” e o “Flamengo de Zico” são instituições do futebol brasileiro. Os craques são muitas vezes usados para definir os esquadrões que dominaram o futebol brasileiro na segunda metade dos anos 1970 e na primeira metade dos 1980 – embora a constelação fosse muito maior, tanto entre colorados quanto entre rubro-negros. Houve praticamente uma passagem de bastão. O Inter tricampeão de 1975 a 1979 seria sucedido como força dominante no Brasileirão pelo Fla tricampeão de 1980 a 1983. Além disso, os gaúchos chegaram à decisão da Libertadores de 1980, naquela que seria a despedida de Falcão, antes que os cariocas conquistassem o título em 1981 sob a estrela de Zico. Mas há uma curiosa (e triste) coincidência: por detalhes, as duas lendas nunca se cruzaram em campo pelo Campeonato Brasileiro.

O formato do Brasileirão na época contribui para o desencontro, já que os principais clubes não necessariamente se enfrentavam. Zico estreou no Flamengo em 1971, enquanto Falcão disputou seus primeiros jogos no profissional do Internacional dois anos depois. De 1973 a 1980 (quando os dois craques coincidiram em seus principais clubes), rubro-negros e colorados se enfrentaram apenas quatro vezes pelo campeonato nacional. Falcão esteve em campo apenas uma vez nestas partidas e, sem sorte, Zico era ausência entre os rubro-negros na ocasião. Além dos compromissos pela seleção brasileira, só foram se encarar mesmo num jogo oficial pelo Campeonato Italiano, quando defendiam Roma e Udinese.

O primeiro confronto possível de Zico e Falcão no Campeonato Brasileiro se daria em 1974. Os dois times compartilharam o mesmo grupo na primeira fase do torneio nacional. Porém, na época do jogo, Falcão estava contundido. Seu substituto foi Dorinho, que abriu o placar para o Inter no . O empate por 1 a 1 seria garantido exatamente por Zico. Já em 1975, ano do primeiro título colorado, as duas equipes se enfrentariam duas vezes. Infelizmente, os dois craques não coincidiram.

Na primeira fase, Flamengo e Inter se pegaram no Maracanã. De novo, Falcão era desfalque, por uma lesão no joelho. Os rubro-negros foram exatamente os responsáveis por quebrarem a invencibilidade dos colorados, com a virada por 2 a 1. Zico não só foi titular, como também deu a assistência para o gol da vitória. De qualquer maneira, muito mais importante foi o reencontro pela terceira fase. Apenas os dois primeiros de cada grupo avançariam à semifinal. O duelo entre gigantes aconteceu na penúltima rodada, com os dois lutando com o pela classificação.

Falcão, enfim, esteve em campo para jogar contra o Flamengo no Beira-Rio. Quem não estava era Zico, agora ele no departamento médico. O empate por 1 a 1 acabou se tornando lucro para os rubro-negros, considerando o volume ofensivo do Inter, que parou no goleiro Cantarele. Falcão atuou numa função mais defensiva, preocupado com os lançamentos para Luisinho Lemos, e veria Escurinho anotar o gol que determinou o resultado. Na rodada final, o Inter carimbou sua classificação, ao vencer a Portuguesa por 3 a 0, inclusive com gol de Falcão. Zico voltou e marcou pelo Flamengo, mas os cariocas acabaram eliminados dentro do Maracanã pelo Santa Cruz, que contou com a estrela de Ramon e venceu por 3 a 1.

De 1976 a 1979, Flamengo e Internacional não se enfrentaram pelo Campeonato Brasileiro, mas foi por pouco. Em 1976, o Fla ficou abaixo do Atlético Mineiro na terceira fase, e o Galo passaria para ser eliminado pelo Inter na semifinal. Já em 1979, a história se repetiu, agora com o Palmeiras despachando o Fla antes de sucumbir aos colorados na semifinal.

Assim, a última chance de ver Zico e Falcão se enfrentando aconteceria em 1980, ano do primeiro título rubro-negro. Os colorados haviam conquistado a taça no ano anterior com a inédita (e nunca repetida) campanha invicta no Brasileirão pós-1971. Não começaram com a mesa força para tentar o tetra e acabariam derrotados pelos futuros campeões. Falcão vinha de duas cirurgias e não disputou o início da competição. Zico estava lá e, afinal, marcou o gol da vitória por 1 a 0 dentro do Maracanã. Depois disso, os times não voltariam a jogar entre si. O Inter foi semifinalista, mas perdeu para o Atlético Mineiro, adversário do Flamengo na final. No segundo semestre, o futuro Rei de Roma iniciaria uma nova história de idolatria no Calcio.

Zico e Falcão em no Maracanã, em 1975

Ao menos, não se pode dizer que o “Inter de Falcão” x “Flamengo de Zico” ficou apenas no imaginário. Os amistosos ainda eram comuns na época e, de 1973 a 1980, os dois clubes se enfrentaram quatro vezes. Em 1975, antes do Brasileirão, os campeões estaduais de 1974 se pegaram em partidas de ida e volta no início da temporada. Foram dois jogaços, recheados de gols. E, enfim, com as duas principais figuras no gramado.

O Flamengo recebeu as faixas de campeão carioca de 1974 do próprio Internacional, dentro do Maracanã. Diante de 33 mil espectadores, os rubro-negros fizeram as honras da casa e venceram por 4 a 2. Foram quatro gols da equipe apenas no primeiro tempo, com uma atuação inspirada de Zico, que balançou as redes duas vezes (um deles, com suas perfeitas cobranças de falta) e ainda deu uma assistência. Segundo o Jornal dos Sports, foi o melhor em campo. Falcão, apesar da derrota, receberia elogios. O periódico ressaltou sua habilidade e o classificou como o melhor entre os colorados.

Logo após o jogo, os times viajaram para Porto Alegre e o Internacional também recebeu as faixas do Flamengo, depois de conquistar seu sexto título consecutivo no Gauchão. E a força do esquadrão de Rubens Minelli ficaria evidente no Beira-Rio, com o troco em grande estilo: goleada por 4 a 0. Falcão teve uma atuação de gala no meio-campo, com a uma assistência. Tadeu guardou três gols colorados, enquanto Lula também deixou o seu. Zico, marcado duramente por Don Elias Figueroa, não conseguiria apresentar sua grande forma.

Em 1976, o Flamengo de novo visitou o Internacional no Beira-Rio, agora com os colorados celebrando o hepta no Gauchão e também a inédita taça no Brasileiro. Prevaleceu a igualdade, com o empate por 1 a 1. Os dois craques não tiveram uma jornada muito feliz, com Falcão menos efetivo. Segundo o Jornal dos Sports, o meio-campista sentiu o jogo depois de tomar uma caneta de Geraldo Assoviador. Zico, por sua vez, anotou o gol do Fla cobrando pênalti. Contudo, sequer terminaria a partida, substituído por precaução após tomar uma pancada de Caçapava.

Já em 1977, seria o Inter octacampeão gaúcho e bicampeão brasileiro que visitou o Flamengo no Maracanã, no último amistoso desta série nos anos 1970. O empate por 1 a 1 não apenas teve Zico x Falcão em campo, como também contou gols das duas estrelas. O Galinho abriu o placar no primeiro tempo, aproveitando jogada de Carlos Alberto Torres. Já na segunda etapa, em meio à pressão do Inter, Falcão decretou a igualdade com uma finalização de categoria.

Naquele momento, Zico e Falcão já compartilhavam as convocações da Seleção. Atuaram pela primeira vez juntos em fevereiro de 1976, numa vitória por 2 a 1 sobre a Argentina pela Copa Roca. Todavia, o esperado confronto só aconteceu na Itália, e apenas uma vez. Na temporada 1983/84, os dois estiveram juntos em campo no duelo do primeiro turno, e não coincidiram em campo na campanha seguinte. Antes que a rolasse, houve uma grande confraternização brasileira: Edinho acompanhava Zico na Udinese, enquanto Cerezo era companheiro de Falcão na Roma. Apesar da força dos giallorossi, campeões na temporada anterior, o Galinho levou a melhor. A Udinese venceu por 1 a 0 no Friuli, num chutaço do a cinco minutos do fim. Ao menos, a relação das lendas seria bem maior, sobretudo pela Copa de 1982.

Outro duelo histórico que só valeu por amistoso

Vale lembrar também que Flamengo e Internacional compartilharam outro momento memorável no início dos anos 1940. Os rubro-negros foram tricampeões cariocas num timaço estrelado por Zizinho, enquanto os colorados seriam hexacampeões gaúchos com o famoso Rolo Compressor de Tesourinha, Calitos e Nena. Se não existia Brasileirão na época, os dois timaços ao menos fizeram um amistoso em 1945, meses depois do tri do Fla e do penta do Inter. Prevaleceu o empate por 2 a 2 no Rio de Janeiro, com a partida bastante destacada na imprensa da época. A partir de então, até o fim da década seguinte, os amistosos entre Fla e Inter seriam frequentes, reunindo ainda times célebres na primeira metade dos anos 1950.

Abaixo, uma série de recortes do Globo Sportivo e do Jornal dos Sports sobre aquele amistoso marcante de 1945, o terceiro da história entre os clubes, após oito anos de hiato em relação aos dois primeiros: