O Castelão repleto testemunhou o milagre do Ceará, salvo na Série B após meses dado como morto

A Série B chegou à rodada final com a maioria de suas disputas definida. Os quatro primeiros colocados já tinham assegurado o acesso, enquanto os três últimos não conseguiriam mais a salvação. Restava uma vaga na Série C. E quis o destino transformar a pouco interessante rodada final dos pontos corridos em digna decisão. Ceará e Macaé se enfrentavam no Castelão, em jogo que praticamente definiria o último a cair, enquanto o Oeste ainda corria riscos, recebendo o Paysandu. Candidato fortíssimo à Terceirona durante toda a campanha, o Vozão não sucumbiu. Contou com a força dos quase 47 mil torcedores nas arquibancadas, vencendo os visitantes por 1 a 0 e concretizando o milagre.
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A despeito da conquista da Copa do Nordeste, o Ceará atravessou a Série B de maneira desesperadora. A falta de resultados no início da campanha, que se sugeria apenas passageira, ganhava contornos caóticos. O Vozão buscou reforços, trocou de técnicos, e nada de se recuperar na tabela. Entre a terceira e a 18ª rodada, venceu apenas um dos 16 jogos que disputou no torneio. Pior, da zona de rebaixamento passou à lanterna depois de 13 partidas. Naquele momento, nada indicava que se salvariam.
Porém, os alvinegros recuperaram o fôlego desde o último jogo do primeiro turno, batendo o Macaé no Rio de Janeiro. As vitórias voltaram a aparecer e o time até saltou para a 17ª colocação, ainda sem sair do Z-4. Só que o embalo se perdeu em meados de setembro, custando o emprego do treinador Marcelo Cabo. A última cartada viria com Lisca. O homem responsabilizado pelo milagre alcançado pelo Vozão. Depois de estrear com derrota, o técnico conduziu os cearenses a cinco vitórias seguidas. A quatro rodadas do fim, depois de cinco meses, enfim o time saía da zona de rebaixamento.
Só que o Ceará tinha compromissos duros na reta final. E os tropeços contra Vitória e América Mineiro recolocaram a equipe no Z-4. O Vovô jogaria o seu destino na última rodada, contra o Macaé, um ponto à frente. E em um cenário de doce lembrança aos fluminenses. Dentro do mesmo Castelão é que os visitantes haviam conquistado o acesso um ano antes, segurando a intensa pressão do Fortaleza, nas quartas de final da Série C. Pela segunda vez, teriam a chance de frustrar uma multidão na capital cearense.

Desta vez, no entanto, a história não se repetiu. O Ceará ameaçou mais durante o primeiro tempo e criou as melhores chances. E anotou o gol decisivo aos 42 minutos, em pênalti discutível sobre Alex Amado. Na cobrança, Rafael Costa deslocou o goleiro para causar o furor nas arquibancadas. Só que a alegria se transformou em apreensão na etapa complementar. Precisando ao menos do empate diante do 0 a 0 no jogo do Oeste, o Macaé pressionava bastante, e teve a chance de mudar a sorte do jogo duas vezes, já nos acréscimos. Em ambas parou em defesas monumentais do goleiro Éverson. Primeiro, ele espalmou a bomba de Jones no ângulo. E ainda foi buscar a cabeçada de Ramon, em leve desvio. O grande herói da noite.
O apito final soou na sequência. E o Castelão acabou tomado por um misto de euforia e incredulidade. Lisca, o doido, fez questão de justificar o apelido na comemoração ensandecida, se jogando no gramado. Enquanto a torcida estremecia as estruturas das arquibancadas, os jogadores e a comissão técnica faziam uma corrente de oração no círculo central, para agradecer o milagre alcançado. Dessas sinestesias que o futebol é prodigioso em criar.
Somente no segundo turno, o Ceará conquistou nove vitórias, o triplo do primeiro turno. Por aquilo que conseguiu no primeiro semestre, campeão do Nordestão, não deveria passar tanto sufoco. Mas, pela paixão de sua torcida, também não merecia consumar o vexame. A reação espetacular vale não apenas para evitar o pior, como também para aumentar as expectativas rumo a 2016, com a continuidade do trabalho de Lisca e a permanência na Série B. O Vozão pode enfim sonhar, depois de tantos meses tendo apenas pesadelos.



