*Atualizada com o posicionamento de Ramírez

O Flamengo, com um jogador a menos desde os dez minutos do primeiro tempo, abriu 2 a 0, levou a virada do Bahia e ainda conseguiu arrancar a vitória por 4 a 3, mas não podemos falar apenas de futebol. No ano em que todos os esportes se transformaram em plataformas para mensagens antirracistas, Gérson afirma que lhe foi pedido, durante um jogo de futebol, que calasse a boca. O que não seria nada demais não fosse o complemento que deixa claro quem exatamente o agressor queria calar: “cala a boca, negro”.

Segundo Gérson, a ofensa racista foi proferida pelo colombiano Juan Pablo “Índio” Ramírez, que nega tê-la cometido. O jogador do Flamengo também relatou a lamentável postura do treinador Mano Menezes, que deixou o comando do Bahia depois do jogo – sem ficar claro se pela maneira como lidou com o caso, inclusive diante das câmeras, ou pela sequência ruim de resultados recentes que levou o Bahia às proximidades da zona do rebaixamento do Campeonato Brasileiro após cinco derrotas consecutivas e à eliminação da Copa Sul-Americana.

O Bahia, sempre elogiado pela sua postura contra o preconceito e em questões sociais, tem a oportunidade de provar na prática que o seu discurso não é da boca para fora, esclarecendo exatamente os motivos da demissão de Mano, realmente conduzindo a investigação que prometeu após o anúncio e, caso confirme a denúncia, até agora sem nenhuma evidência de que não é verdadeira, impondo uma punição exemplar.

“O Esporte Clube Bahia comunica que Mano Menezes não é mais o técnico do Esquadrão. Nesta mesma ocasião aproveitamos para anunciar que, em relação à grave acusação de racismo envolvendo o colombiano Indio Ramírez, o clube se posicionará em breve após finalizar a apuração do caso”, escreveu o clube, em comunicado veiculado no Twitter.

Gérson afirmou que a ofensa aconteceu por volta dos 11 minutos do segundo tempo, quando o Bahia marcou pela segunda vez e empatou em 2 a 2: “Tive vários anos no profissional e nunca vim aqui na imprensa falar nada porque eu nunca sofri esse preconceito. Nunca fui vítima, nenhuma vez. Quando tomamos o segundo gol, não lembro, o Bruno fingiu que ia chutar a bola e ele reclamou com o Bruno. Eu fui falar com ele, e ele falou bem assim para mim: ‘Cala a boca, negro’. Eu nunca falei nada disso porque eu nunca sofri, mas isso eu não aceito”.

Em um vídeo publicado pelo Bahia nas redes sociais, Ramírez negou que tenha dito “cala boca, negro”. Sua versão é que, após a finta de Bruno Henrique, Gérson lhe disse algo que não entendeu, por ter sido em português, e respondeu com “joga rápido, hermano”. Relatou que Bruno Henrique o chamou de “gringo de merda”.

Gérson também relatou um comportamento desprezível de Mano Menezes. E aqui não importa se acusação é verdadeira ou não. Porque, diante dela, a reação de Mano não foi ouvir, não foi respeitar, não foi tentar entender o que aconteceu. Foi debochar. “Depois, o Mano falou ‘agora você é vítima, o Daniel Alves te atropelou e você não falou nada’. Claro. Porque teve respeito. Eu nunca falei de treinador, mas o Mano tem que saber respeitar”, afirmou, na mesma declaração, depois da partida.

Um outro vídeo compartilhado pelo SporTV não mostra Mano Menezes dizendo essas palavras, mas não ajuda muito a livrar a sua barra. Quando Gérson começa a reclamar da ofensa, ele diz “agora virou malandragem”, o que deixa o jogador do Flamengo ainda mais irritado. “Pergunta para ele se ele não falou, malandragem, não, malandragem, não”, rebateu. Mano encosta no quarto árbitro e cobra a expulsão de alguém. Não dá para ter absoluta certeza de que se tratava de Gerson. “Não vai expulsar? Ele tá mandando o cara tomar no cu”, afirmou, em referência também ao motivo que levou Flávio Rodrigues de Souza a expulsar Gabigol ainda no primeiro tempo.

Em seguida, o treinador do Bahia esboça uma frágil defesa a Ramírez. “Se a gente está errado, está errado. Não queremos estar certos se estamos errados, mas aquele menino não ia fazer isso com o Gerson. Eu conheço o jogador, chegou agora, é um guri”, disse. E depois provocou Gerson novamente: “Tem que tomar bico do Daniel mesmo, tem que tomar bico do Daniel que é mais malandro que tu”.

Pelo Twitter, Mano Menezes afirmou a sua saída do Bahia foi um “entendimento dos dois lados, compreendendo, em conjunto, que era hora de interromper os trabalhos”. Acrescentou que “condena qualquer ato racismo (sic) e reitera que a violência contra quem comete não é o caminho para solucionar a questão. E apoia qualquer avaliação e julgamento justo para que o futebol seja sempre referência positiva na nossa sociedade”.

Em um comunicado nas redes sociais, Gérson expandiu o que pensa sobre a denúncia, com palavras ainda mais fortes. A publicação traz a mensagem “Fogo nos racistas” e uma foto com o comunicado: “O ‘cala boca, negro’ é justamente o que não vai acontecer”, afirma o meia. “Seguiremos lutando por igualdade e respeito no futebol – que faltou hoje do lado contrário. Desde os meus oito anos, quando iniciei minha trajetória no futebol, ouço, às vezes só por olhares, o ‘cala a boca,negro’. E eles não conseguiam. Não será agora”.

“Não basta ser racista, é preciso ser antirracista. Não adianta ter o discurso, fazer campanha e não colocar em prática em todos os aspectos da vida, inclusive dentro de campo. O futebol não é algo fora da sociedade e um ambiente onde barbaridades como o ‘cala a boca, negro’ podem ser aceitas. (…) Não vou calar minha boca. A minha luta, a luta dos negros, não vai parar. E repito: é chato termos que falar sobre racismo e nada ser feito pelas autoridades”.

“Racismo é crime. E deve ser tratado desta maneira em todos os ambientes, inclusive no futebol. Não me calaram na vida, não me calaram em campo e jamais vão diminuir a nossa cor”. Confira o comunicado na íntegra:

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