O Brasileirão de 2022 também será lembrado como aquele que, no fim, o palmeirense sorriu mais por causa de Endrick
Endrick pode não ter sido protagonista da caminhada, mas se tornou logo de cara uma das principais motivações para a celebração
Um título é motivo de empolgação mais que suficiente para qualquer torcida. O palmeirense, ainda assim, ganhou uma razão a mais para vibrar na reta final de um Campeonato Brasileiro que parecia decidido. A expectativa pela estreia de Endrick se arrastava desde tempos imemoriais, mesmo que o garoto tenha só 16 anos. E ele terminou embalando os sonhos alviverdes, entre pitadas de talento e enxurradas de precocidade. O novo troféu nacional é de Abel Ferreira e de Scarpa, da defesa que ninguém passa e da linha atacante de raça. Mas certamente será lembrado como “aquele em que Endrick estreou no final”, porque parece imperar em qualquer palestrino a certeza de que o fenômeno se confirmará no mais alto nível.
A magia provocada por Endrick nas categorias de base é comparável à de pouquíssimos jogadores brasileiros nas últimas décadas. Talvez nem encham os dedos de uma mão. Há um quê da incredulidade instigada por Dener na Portuguesa, de deixar gente boquiaberta como Ronaldinho no Grêmio, de gerar entusiasmo como Neymar no Santos. Já nem dá mais para listar a quantidade de lances absurdos assinados pelo moleque na Copinha e em várias outras competições de base. Todo mundo queria ver quando ele chegaria aos profissionais, e ainda mais os palmeirenses.
O Palmeiras preferiu agir com cautela, não botar o carro na frente dos bois. Era a vez de ir para a Disney, não para o Mundial. Fez falta na Libertadores? Tem quem argumente isso, e com sua razão. Mas a hora escolhida internamente pelo clube foi a reta final de um Campeonato Brasileiro decidido. O momento de costurar uma estrela no peito e ver uma nova estrela brilhar em campo. Não dá para negar que Endrick ofereceu suspiros palestrinos quando a campanha nem oferecia muitas novidades.
E é aquilo: todo mundo quer se envolver com o clima que é de eclosão de um possível novo cracaço. Basta vez como ficaram os palmeirenses, ansiosos, em sua estreia. Basta notar a recepção que o adolescente recebeu do Allianz Parque quando pisou no gramado. Aos 16 anos, vai errar tanto quanto vai acertar, e isso se notou logo de cara. Mas vai acertar muito, e vai acertar cada vez mais. Cinco jogos de Brasileirão bastam para já se projetar isso.
Contra o Avaí saiu a primeira assistência. Diante do Athletico Paranaense, naquele que poderia ser o jogo do título, o prodígio veio do banco para comandar a virada com seu primeiro gol. E ele não poderia ficar de fora da festa definitiva. Pela primeira vez Endrick esteve entre os titulares. Pela primeira vez Endrick marcou um gol dentro do Allianz Parque. Nem foi um lance que apresentou o talento do garoto, longe disso, entre oportunismo e raça. De qualquer maneira, a concepção de um 4 a 0 que coroa esse Brasileirão tinha que ter a contribuição daquele que mais provoca sorrisos nos palestrinos quando a imaginação voa para o futuro.
E não é só aquilo que Endrick concretiza em campo, afinal. A história tem um enredo empolgante, mas também muito bonito. É impossível não se emocionar com o pai do atacante na sua estreia ou então no seu primeiro gol dentro do estádio. Há uma superação que faz ainda mais gente torcer para que o prodígio dê certo. São lágrimas de alegria, uma alegria que conecta, porque a gente sabe que ali, no lugar daquele pai, também sentiríamos um turbilhão parecido.
Dá até para dizer que, neste primeiro momento, essa vontade de acompanhar Endrick não se restringe apenas ao palmeirense. Quem gosta de futebol que ver como ele vai se sair e quando vai aprontar as primeiras mágicas. De novo, são raros os jogadores que, tão jovens, provocam isso. Se ele vai ser mesmo tudo isso levará um tempo para saber, e à medida que for acontecendo o adolescente também arrastará seus detratores, porque quem torce pra outro time não desejará se curvar ao Palmeiras vencendo. Mas só de chamar a atenção de tanta gente pra dar uma espiada em seu futebol Endrick se mostra um extraclasse.
Os caminhos no futebol são tortuosos, inclusive para projetos de supercraques, que precisam lidar com pressões enormes e outras armadilhas na jornada. Endrick pelo menos indica um carisma que causa simpatia, fora a habilidade que arrebata. Há muito para cumprir depois de tudo o que prometeu inconscientemente por suas artes na base. Mas certo é que sua biografia como profissional começa escrita com as letras douradas de um título, no qual ele pode não ter sido protagonista da caminhada, mas se tornou logo de cara uma das principais motivações para a celebração.



