Brasileirão Série A

Paulo Junior: A assustadora leveza de Suárez abre sorrisos e o sonho gremista

Atuação de Suárez contra o Botafogo, que deixa vivo o sonho do Grêmio de ser campeão, será lembrada para sempre: o craque passou por aqui

Faltava o jogo unânime da passagem de um craque desse porte pelo Brasil, se é que podemos dizer que falta alguma coisa numa carreira de quase vinte temporadas balançando as redes, conquistando títulos e liderando ataques estrelados por aí.

Mas depois de uma sequência distribuindo momentos decisivos com a facilidade de quem corta caminhos ao redor da área como poucos em toda a história do futebol – as bolas das vitórias contra Palmeiras, América-MG e Coritiba, o tapa de gol contra o Bahia ­–, ficou para São Januário a atuação para sempre, os olhos do país diante do derretimento do Botafogo, uma virada por 4 a 3 de bagunçar definitivamente a tabela do campeonato e triplete do Pistolero em vinte minutos para firmar a hierarquia: Luis Alberto Suárez passou por aqui.

O Grêmio, melhor ataque e quarta pior defesa da tabela, fez exatamente o jogo que esses números apontam. Sofreu gols em vacilos que não condizem com um time que briga pelo título, no erro básico de tempo de bola de Reinaldo ou da passada à frente desalinhada de Kannemann. Marcou com as ótimas articulações por dentro de um ataque que se procura e faz as tabelas e assistências mais vistosas da liga, o passe de Carballo para o facão de Galdino, a trivela de Ferreira, a devolução na medida, no lugar mais apertado do campo, de Villasanti.

E aí Luis Suárez. As dores no joelho baleado e o peso dos quase 37 anos estão lá, visíveis, tal qual a facilidade de decidir o que fazer quando, via de regra, a média de seus colegas enxerga o gol diminuindo, sente o peso do mundo nas costas. Luisito, três bolas de frente para o goleiro do campeonato aos 5, aos 8 e aos 24 do segundo tempo, virou o jogo, lembrando a turma com quem sentou à mesa por toda a carreira, a calma de Lionel Messi para escolher o ponto de chute, a eficiência de Cristiano Ronaldo ao finalizar, a movimentação no limite da linha e pronto para se associar no toque rápido de gente decisiva da primeira prateleira, a assustadora leveza dos Ronaldo, Thierry Henry e Benzema da vida. Elite. É impossível não sorrir ao vê-lo beijar a ponta dos dedos.

Tudo isso escalado por um treinador que lhe permitiu um casamento perfeito com a situação, a fase da carreira e as demandas do time. Renato banca Suárez ao limite, e alguém poderá dizer que nenhum técnico seria capaz de não fazer o mesmo, mas não é assim que a banda toca na prática. O homem que é estátua no clube virou um escudo quando de uma certa turbulência no ano do uruguaio, com questões físicas e a iminente possibilidade de encurtar seu período por aqui. Sempre o protegeu.

Em campo, ele permite ao próprio camisa nove se escalar, entende as intempéries do momento e potencializa seu jeito de ver futebol em torno do melhor centroavante que já teve nas mãos. O ataque do Grêmio à moda Renato, da bola curta, do toque e passa, é um barato, temperado pelo refinamento de Suárez que melhora a turma à sua volta, convidada sempre a estar por perto do ex-jogador de Liverpool e Barcelona, sejam jovens com potencial ou contratações pouco badaladas. Um raro time de ponta de tabela dos pontos corridos que não se preza pelo equilíbrio pautado no velho mantra do basquete que diz que “ataques ganham jogos, defesas ganham campeonatos”. Na trocação de Portaluppi, de 4 a 3 em 4 a 3, os mesmos 59 pontos do líder.

Suárez tem mais cinco jogos, sua zona favorita em finais de temporada, e, ao que tudo indica, vai aos Estados Unidos encerrar a carreira. Corinthians em Porto Alegre, Atlético-MG em Belo Horizonte, Goiás e Vasco em Porto Alegre, Fluminense no Rio de Janeiro e o justo descanso dos bons. Estará nas seleções da Série A, pode ser coroado como o melhor de toda a disputa. Cinco partidas a seu nível e o Grêmio pode ser campeão brasileiro depois de 27 anos. O pequeno Luis ainda chutava o que via pelo chão nas ruas de Salto quando Aílton marcou no Olímpico naquele dezembro de 1996. É muito tempo para o tamanho da história tricolor, é possível para quem tem Luís Suárez, crescendo (ainda crescendo!) naquele que pode ser o último mês de sua vida jogando bola para valer.

 

Foto de Paulo Junior

Paulo JuniorColaborador

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.

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