Se o Palmeiras não tivesse que fazer parte da trama, dava até para acreditar que foi combinado. A torcida do Internacional não esteve presente no Beira-Rio para se despedir de um de seus maiores ídolos, um desses momentos dos quais a pandemia nos privou, mas preparou uma queima de fogos aos 10 minutos do jogo deste sábado. E, bem aos 10 minutos, o Colorado abriu o placar da vitória por 2 a 0 que reservou para homenagear Andrés D’Alessandro.

Doze anos e 516 jogos depois, D’Alessandro realizou seu último jogo com a camisa do Internacional. Apenas oito minutos depois de Yuri Alberto marcar o segundo gol porque, por mais que a vitória que ergue o Colorado ao G4 do Campeonato Brasileiro tenha tornado o momento mais gostoso, o que acontecia em campo era pouco importante diante de um momento tão marcante na história do futebol brasileiro.

Claro que Abel Braga fez questão de vencer. Era um equilíbrio difícil de percorrer, entre conceder uma homenagem justa ao jogador e fazer tudo que fosse possível para somar os três pontos. O tempo passava, e a ansiedade crescia: quantos minutos terá D’Alessandro? O gol de Yuri Alberto tornou a posição de Abel mais confortável. O camisa 10 entrou em campo quase imediatamente depois. Mal tocou na bola. E tudo bem: poucos tocaram tanto a bola e com quanta qualidade pelo Internacional quanto ele.

O gol de Edenílson, no rebote de uma cabeçada de Rodrigo Dourado, perfeitamente sincronizado com a torcida do Internacional, foi mais ou menos a única coisa que aconteceu em um primeiro tempo muito fraco, especialmente da parte do Palmeiras que conseguiu apenas uma finalização, para fora. O cenário mudou bastante depois do intervalo, com 12 chutes a gol dos visitantes e mais algumas chegadas bem perigosas.

Teve contra-ataque puxado por Lucas Lima, que tomou a decisão errada na hora do passe, chute de Viña para fora e até um corte de Cuesta que acertou o travessão antes de Yuri Alberto matar o lançamento de Edenílson com categoria, engatar a quinta marcha e fechar a vitória do Inter com um toque por cima de Weverton.

Fim de papo no futebol. Hora de celebrar o terceiro homem que mais vezes vestiu a camisa do Internacional. A primeira cena emocionante foi um apertado abraço com Abel Braga. Ele agarrou a bola do jogo, começou a chorar e foi celebrado pelos companheiros. Jogado algumas vezes aos céus antes de se colocar no centro de uma rodinha, receber a sua família e mirar o telão para um bonito vídeo preparado pelo clube gaúcho.

Ex-companheiros como Taison, Alex, Magrão, Bolívar, Nilmar, Kléber e Leandro Damião falaram de sua relação com D’Alessandro. Os momentos mais emocionantes foram de torcedores que tiveram suas vidas marcadas pelo craque. Seja por uma relação mais próxima, quando ele exerceu perfeitamente o seu papel de ídolo ajudando garotos e garotas doentes, seja apenas das arquibancadas onde todos ficaram encantados pelo que ele conseguia fazer com a bola.

E aí, chegou a hora de falar: “Primeiramente, que bom que ganhamos. A vitória foi o mais importante do dia. Obrigado, torcedor colorado, por tudo. Obrigado pelo carinho, pelo respeito. A minha admiração é por vocês terem passado momentos bons e ruins junto com a gente. Agradeço a minha família. Eles são o suporte de tudo. Sem estrutura familiar a gente não consegue nada. Eles seguraram tudo, nos momentos em que a gente perde, vai para casa de cabeça baixa. Ter uma família é um tesouro”.

E a grande crueldade da noite foi a família colorada de D’Alessandro não estar presente para este momento. Ele deve – precisa – retornar para um jogo de despedida com arquibancadas cheias, quando este inferno chegar ao fim, mas deu a entender que esse não será o seu único retorno. E que assim seja: “Errei, acertei, como uma pessoa normal, como uma pessoa que quer ganhar sempre e não se conforma. Obrigado, Beira-Rio. Não vestirei a camisa colorada no próximo ano, mas acredito que a história continuará. Muito obrigado”.

Nós que agradecemos, D’Ale.

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