Campeonato Brasileiro

Fernando Diniz deve trazer estilo ao São Paulo, mas tem muitos problemas no seu trabalho para responder

As últimas horas foram de loucura, caos e ranger de dentes no futebol brasileiro. Em campo, muita agitação desde a quarta-feira à noite, com jogos quentes, expulsões, gols e crises em grandes clubes. Um deles, o São Paulo, que perdeu do Goiás em casa, em mais uma atuação fraca do time dirigido por Cuca. Bom, dirigido por ele até a manhã de quinta, quando pediu demissão oficialmente. Em meio ao caos, seis horas depois de anunciar a saída de Cuca, o São Paulo confirmou Fernando Diniz como novo técnico. Uma decisão rápida, ousada e muito, muito arriscada, especialmente pelo histórico recente do treinador.

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Fernando Diniz é um técnico que prioriza a posse de bola, mas não só isso. Costuma trabalhar criar muitas chances de gols, sufocar o adversário no ataque no momento com bola e normalmente seus times possuem uma surra de estatísticas ofensivas – embora a única que realmente importa, o número de gols marcados, não costuma ser boa. Os problemas das equipes dirigidas por Diniz começam justamente quando o time perde a bola. E este é um problema que ele apresentou em todos seus trabalhos, com ênfase para o mais recente, no Fluminense.

A transição defensiva costuma ser lenta e seus times tem um problema para fazer a pressão para recuperar a posse de bola. Por vezes, tomam muitos gols bobos, porque a estratégia de marcação alta não é bem feita e como os jogadores estão posicionados muito à frente, rapidamente os adversários superam as linhas defensivas e acabam tendo muito espaço para atacar. Por isso, seus clubes acabam sofrendo muito gols e, apesar de criarem muito, perdem a maioria dos jogos. A maioria, na verdade.

O registro do treinador no Campeonato Brasileiro é de se desconfiar. São 27 jogos, cinco vitórias, seis empates e 16 derrotas. Se separarmos por clube, pelo Athletico Paranaense foram 12 jogos, duas vitórias, três empates e sete derrotas. Foi demitido em junho de 2018. No Fluminense, em 2019, fez 15 jogos com três vitórias, três empates e nove derrotas. Foi demitido em agosto. Nos dois trabalhos, inícios promissores e desempenhos que caíram pelas tabelas com o passar do tempo, tendo uma crescente dificuldade em fazer gols, ao mesmo tempo que uma maior fragilidade para sofrê-los.

Segundo o Globoesporte.com, Diniz foi contratado em regime CLT, o que significa que não tem um contrato com duração definida e nem multa rescisória. Ganhou força também pelos jogadores. Daniel Alves, Tiago Volpi, Hernanes e Pablo, este último ex-jogador do treinador na época de Furacão, defenderam o nome de Diniz e, mais do que isso, incentivaram o executivo de futebol, Raí, para que o escolhesse.

Aos 45 anos, Diniz terá uma grande chance na sua carreira. Terá provavelmente o melhor elenco com qual já trabalhou. Sua carreira começou em 2009, no Votoraty, e passou por Paulista, Botafogo-SP, Atlético Soroacaba, Audax, Guaratinguetá, Audax, Paraná, Oeste, Athletico Paranaense e Fluminense. O Audax o alçou ao estrelato nacional com a campanha do Paulista de 2016.

Teve bons momentos tanto no Athletico quanto no Fluminense, mas nos dois casos acabou mal e foi demitido com o time na zona do rebaixamento. Por isso, sua contratação no São Paulo, um time na sexta posição, o fez “cair para cima”. O desempenho no Fluminense, apesar dos pontos positivos, não parecia indicar que ele pegasse um elenco mais forte do que o do Tricolor das Laranjeiras.

É uma aposta ousada da diretoria do São Paulo e que conta com o respaldo dos jogadores, o que ajuda especialmente no início. Diniz não terá tempo para treinar o time, algo sempre muito cobrado pelos treinadores, porque o calendário do Campeonato Brasileiro ficará apertado nas próximas semanas.

No sábado, 29, o São Paulo enfrenta o Flamengo e começa uma maratona que todos as equipes do Brasileirão irão enfrentar: serão sete jogos em um mês: São Paulo x Fortaleza no dia 5; Bahia x São Paulo no dia 9; São Paulo x Corinthians no dia 13; Cruzeiro x São Paulo no dia 16; São Paulo x Avaí no dia 20; São Paulo x Atlético Mineiro no dia 27 (data ainda não confirmada); e Palmeiras x São Paulo no dia 30 (também ainda não confirmada, pode ser um dia antes ou depois).

Tudo isso em um clube que não mantém treinador algum seguro, que troca o comandante com facilidade – foram cinco técnicos desde o começo de 2018 até agora, por exemplo: Dorival Júnior, Diego Aguirre, André Jardine, Vagner Mancini (interinamente) e Cuca. Terá que lidar com uma pressão grande por resultados em um clube em crise, que ganhou apenas um título nos últimos 10 anos. Desde a conquista do Brasileiro de 2008, o clube do Morumbi só conquistou uma taça: a Sul-Americana de 2012.

Ao mesmo tempo, Diniz terá um time com elenco muito qualificado, com grandes jogadores e que têm características que parecem, em um primeiro momento, encaixar nas ideias do técnico. Ele estreará no fogo, contra o Flamengo no Rio de Janeiro. Um time que ele enfrentou muitas vezes neste ano por ter jogado no Campeonato Carioca, mas era um outro Flamengo, o de Abel Braga.

A chegada de Diniz ao São Paulo é bastante surpreendente. Será, sem dúvidas, muito curioso ver como se dará o trabalho do técnico. Aos são-paulinos, provavelmente será um tanto apreensivo, ao menos nos primeiros jogos, até ver o que acontece. O histórico recente não dá muitos indícios que as coisas irão funcionar bem.

Diniz terá muito o que provar, em uma maratona de jogos em um clube que é um moedor de técnicos. Difícil apostar que vai funcionar. O próprio treinador sabe o tamanho do desafio e que precisa mostrar que sabe se adaptar em condições tão desfavoráveis. Seja como for, certamente despertará curiosidade e muitas opiniões exacerbadas, seja na imprensa, seja nos torcedores, seja nas rodas de bar, como acontece usualmente nos seus trabalhos.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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