Brasileirão Série A

Dani Alves: “Se você tem dois ou três treinadores no ano, nunca cria estabilidade, é maluco”

Daniel Alves enfrenta um choque de realidade em seu retorno ao futebol brasileiro, após 17 anos na Europa. O tipo de estabilidade que encontrou no futebol europeu não existe por aqui, e o lateral acredita que os clubes do país precisam se espelhar nos europeus para criar uma identidade coletiva que garanta aos técnicos maior continuidade.

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Em entrevista publicada pelo Guardian nesta sexta-feira (27), Dani Alves, antes mesmo das últimas 24 horas malucas que viram a demissão de Oswaldo de Oliveira, Rogério Ceni, Cuca e Zé Ricardo, já falava sobre a falta de planejamento dos clubes no Brasil. Ler suas declarações e ter o pano de fundo das quedas recentes de treinador apenas respaldam seu posicionamento.

Para o experiente lateral, o Brasil tem qualidade individual como nenhum outro país. Todo ano, diz ele, surgem inúmeros jogadores de qualidade. “Mas você vê muita individualidade. Não existem clubes brilhantes por um longo período graças ao seu jogo coletivo”, avaliou. O atleta do São Paulo afirma que os clubes precisam criar uma identidade coletiva de jogo e que o Brasil precisa se reinventar nesse quesito.

“Se você tem uma ideia clara, é mais improvável que mude de técnico todo ano. Tem clubes que têm dois ou três treinadores em um ano, é maluco. Você nunca cria estabilidade. Precisa haver um planejamento melhor. É preciso fazer escolhas importantes e realmente apoiá-las. É isso que gera estabilidade em um clube e um time. Deveríamos espelhar os clubes europeus, que criam uma identidade. É raro ver um grande clube europeu lutando pelo título em um ano e no seguinte brigando para não cair, porque os clubes são estáveis.”

Dani Alves elogia o São Paulo por sua identidade de valorização às categorias de base, mas diz que o clube “não cuida do lado coletivo”. “Quero trazer um pouco da experiência que tive no exterior de como você pode tornar um clube melhor.”

Apesar da estreia de destaque, que teve até gol, Daniel Alves tem tido dificuldades em mostrar seu melhor futebol nos primeiros jogos pelo São Paulo. Nesse sentido, o jogador avalia que o tipo de jogo praticado na Europa favorecia mais o seu estilo e que as características do futebol brasileiro fazem com que tenha mais sentido ele atuar avançado para influenciar mais as partidas.

“Sou um lateral que joga um jogo de combinação. Mas aqui, por causa das características do futebol brasileiro, pela maneira como o time joga e, muitas vezes, pelos companheiros, você não tem tantas combinações de passes curtos. Se eu jogar na posição em que joguei durante 20 anos, não posso interferir tanto no jogo”, analisou.

Daniel Alves acredita que ajuda seus colegas de time a melhorar e afirma: “Na minha posição no meio de campo, sou melhor para meus companheiros”. Na avaliação do jogador, “sem falsa modéstia”, ele criou um novo jeito de jogar como lateral, sempre se adaptando aos atletas a seu lado.

“Se eles estão abertos, vou para o meio. Se estão atacando, ajudarei com o controle (de bola). Se a bola está do outro lado, venho para dentro. Jogo como um meio-campista criativo que vem de trás.”

Esse entendimento, segundo ele, veio de seu tempo no Barcelona, jogando com atletas como Xavi, Iniesta e Rakitic. “Se eu estivesse aberto, o Xavi ou o Rakitic estavam atrás de mim. Vendo-os jogar, pensei: ‘Quando você tem um ponta que fica aberto, você precisa estar na área de controle’. No São Paulo, meu desafio é conseguir entender e combinar com meus companheiros da melhor maneira possível.”

Para isso, mais do que a experiência acumulada em uma longa e bem-sucedida carreira, conta com a paixão como combustível. Dani Alves se vê privilegiado em jogar no São Paulo, seu clube do coração – e faz uma afirmação contundente sobre a que ponto chegaria pelo Tricolor.

“Vim ao São Paulo para contar a história de um torcedor que veio jogar pelo clube do qual é torcedor. E que vai lutar por este clube mais do que qualquer outro torcedor. Estou fazendo algo que nenhum outro torcedor pode fazer. Estou lá, no campo, torcendo e jogando ao mesmo tempo. Estou jogando pelo clube que sonhei jogar. O São Paulo é o único clube em que eu jogaria – bate na madeira – se caísse para a segunda divisão.”

Foto de Leo Escudeiro

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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