Brasileirão Série A

Vítor Pereira diz que não ficou no Corinthians por falta de projeto: e será que ele está errado?

Vítor Pereira, em entrevista, afirmou que principal motivo de deixar o Corinthians foi falta de planejamento do clube; errado ele não está

Faz quase um ano que Vítor Pereira deixou o Corinthians, mas o clube ainda tem sido assunto recorrente para o treinador. Claro, repercute entre a torcida corinthiana, que criou uma relação que foi do amor ao ódio quase tão rapidamente quanto a passagem dele pelo Parque São Jorge. Como foi com sua participação no podcast português Ataque Rápido.

Ao falar sobre a decisão de deixar o Corinthians, o ex-treinador alvinegro foi enfático ao falar sobre o que realmente teria motivado sua saída: falta de dinheiro e planejamento. Vamos à fala de VP, antes de mais nada: 4

— Me custou muito sair do Corinthians, mas também senti que tinha que sair. Porque não tinha possibilidade de construir o que queria. Por muito que gostasse, por mais que sentisse o carinho do torcedor nos jogos, no treino aberto, também senti que não havia nenhum projeto. Que fazer melhor do que fizemos era praticamente impossível. Falta de dinheiro, essencialmente — afirmou Vítor Pereira ao podcast.

É essencial lembrar que, à época em que decidiu encerrar seu contrato, o técnico alegou que o principal motivo para a saída eram problemas pessoais, relacionados à saúde de membros da família e nunca falou sobre motivos ligadas à alegada falta de investimentos do clube. Agora, com a alegação de que havia uma falta de projeto, coloca outro ponto na conturbada saída.

Conturbada porque, poucos dias depois de deixar o Corinthians, o treinador acertou para o Flamengo, não concretizando uma volta a Portugal citada em sua despedida do Parque São Jorge. Pegou muito mal para VP, e o desfecho todos sabemos: sua passagem pela Gávea foi negativamente inesquecível para os rubro-negros e terminou ainda mais conturbada do que no Corinthians.

Deixados desempenhos e saída à parte, no entanto, a fala de VP levanta um outro debate, que pode ser mais facilamente discutido, claro, por já termos a temporada quase no final — o que também impõe certo conforto à posição atual do português: será que Vítor Pereira estava tão errado se temia um mau planejamento do Corinthians e sua direção?

Se esse foi mesmo ou não seu principal motivo, é impossível dizer. Mas a pergunta de se ele tinha razão em ter tais temores só tem uma resposta hoje: sim, Vítor Pereira tinha razão.

O 2023 do Corinthians mostra que planejamento passou longe

Se há algo que não pode ser negado é: o Corinthians passou longe de ter um ano aceitável. Primeiro, foi eliminado de um Campeonato Paulista no qual nunca se colocou verdadeiramente como candidato ao título. Depois, o maior vexame do ano: queda ainda na fase de grupos da Libertadores com pelo menos direito a jogar a Sul-Americana, até agora, a salvação de 2023. Na Copa do Brasil, ida valente até a semifinal, mas queda amarga diante do São Paulo, um dos maiores rivais. E por fim, o Campeonato Brasileiro: luta para não cair e não precisamos dizer mais nada.

Tudo isso é consequência de um nó que a diretoria corinthiana criou e não consegue desfazer, apertando e emaranhando ainda mais a cada tentativa. Começou justamente com a escolha do substituto de VP. Optou por não ir atrás de ninguém no mercado e, como se fosse uma escolha vanguardista e não tomada da falta noção do que fazer, efetivou Fernando Lázaro, responsável direto pela vexatória campanha no Paulista e com contribuição pelo menos relevante no fiasco da Libertadores.

Na sequência da não-demissão de Lázaro, que chegou a dirigir o time como interino após sua própria saída, foi seguida de um dos pontos mais baixos da administração atual. A gestão Duílio, pressionada por muitos lados, entre eles torcedores organizados e também atletas do time feminino do Corinthians, contratou Cuca, condenado na Suíça por estupro. Durou apenas um jogo, a classificação contra o Remo na Copa do Brasil, e o próprio treinador entregou o cargo de novo.

O que vinha pela frente era um clássico contra o Palmeiras, do qual Duílio foi costumaz freguês, e quem assumiu o Corinthians foi Danilo, ex-jogador do time e atual treinador do sub-20, no qual faz trabalho no mínimo questionável. O time perdeu, como era evidente que aconteceria, e Vanderlei Luxemburgo foi contratado como bombeiro. Até conseguiu em determinados momentos, como na classificação contra o Atlético-MG na Copa do Brasil, esboçar um princípio de time, o que não durou muito. Contra o Estudiantes, na Copa Sul-Americana, se classificou de maneira inacreditável, nos pênaltis, após jogo em que levou cinco bolas na trave no tempo normal.

Aos trancos e barrancos, aos poucos, o Corinthians afasta o fantasma do rebaixamento no Brasileirão, mas pergunte por aí a qualquer corinthiano se ele está realmente tranquilo. Dificilmente você encontrará um. Não houve nenhum planejamento e, justiça seja feita, a passagem atual de Luxemburgo pelo menos se destaca pela coragem de lançar jovens atletas da categoria de base. Os casos mais emblemáticos talvez sejam de Murillo, zagueiro negociado em poucos meses com o Nottingham Forest, e Gabriel Moscardo, hoje, aos 18 anos, um dos principais pilares da equipe e já cobiçado por europes.

VP tinha razão: o Corinthians não tem dinheiro

Então é evidente concluir que, pelo menos do ponto de vista dessa nova justificativa dada ao podcast português, VP tenha razão. Faltou tudo ao planejamento do Corinthians, que passará por turbulentas eleições ainda neste ano e promete ver os bastidores piorarem ainda mais do que já estão com a desgastada gestão de Duílio. E, se não tem dinheiro, vende-se. E o Timão fez bastante isso.

Foram R$ 155,84 milhões em vendas realizadas apenas nesta última janela, que abrange o verão da Europa, entre julho e agosto. Além de Murillo, foram negociados Roger Guedes com o Catar, Adson com a França, Gustavo Mantuan em definitivo para o Zenit e Chrystian Barletta, que chegou após o Paulistão, mal jogou e já foi para o Ceará. Um resumo da má gestão e da falta de planejamento do Corinthians. Inegável, VP tem alguma razão.

Foto de Jade Gimenez

Jade Gimenez

Jornalista, fascinada por esporte desde a infância e transformou a paixão em profissão. Além do futebol, se mantem por dentro de outras modalidades desde Fórmula 1 até NFL. Trabalhou como repórter em TV e rádio cobrindo partidas de futebol, futsal e basquete.
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