Campeonato Brasileiro

Clubes acabam com teatro da restrição na troca de técnicos no Brasileirão, mas deviam aprimorar a regra

Regra era burlada facilmente com o artifício do “comum acordo” e os clubes decidiram parar de fingir que a restrição existe

Os clubes acabaram com a palhaçada que eles mesmos inventaram de fingir que há uma regra que limita demissões de técnicos. Por unanimidade, os clubes decidiram acabar com o teatro e a regra, que ninguém cumpria porque era fácil burlar, deixa de existir. A decisão foi tomada no Conselho Técnico para a edição 2022, conforme informação divulgada pelo UOL e pelo GE.

VEJA TAMBÉM:
Podcast Trivela #406: Disputa por vagas na Seleção e Brasileirão à venda
Era de ouro do Santos começava a ter seu ápice há 60 anos com título da Taça Brasil
Os 50 anos do Galo campeão brasileiro em 1971: Um time solidário e imponente sob as ordens de Telê

A regra dizia que cada clube só poderia demitir o técnico uma vez e os treinadores só poderiam pedir demissão uma vez também. Caso o clube decidisse por uma segunda demissão, teria que ficar com alguém da própria comissão técnica até o final do campeonato. O treinador que se demitisse uma segunda vez ficaria impedido de trabalhar. Na teoria, uma ótima ideia. Só tinha uma falha fatal: caso o técnico saísse por comum acordo, a demissão não contaria, nem para o clube, nem para o treinador. Ou seja: a regra nasceu morta.

É importante lembrar de onde surgiu essa regra: era a CBF que queria colocar uma limitação de troca de técnicos, mas os clubes sempre foram contra. Para evitar a repercussão negativa de rejeitar completamente a ideia, eles aceitaram, com a condição que a saída de técnicos por “comum acordo” não entraria na conta. Você não precisa ser um gênio para deduzir que o número de saídas de técnicos por “comum acordo” foi grande.

Quem levantou a lebre foi o presidente do Corinthians, Duílio Monteiro Alves. O dirigente argumentou que a ideia não teve efeito prático e era feita só para inglês ver. Ele tem toda razão, mas o ponto aqui é que ninguém propôs que ela fosse tornada mais restrita. Pelo contrário, ninguém está interessado nisso. Querem mais é demitir técnico o quanto quiserem e acabou. Foi Duílio quem falou, mas todos os presidentes concordaram. Sem exceção. A decisão foi unânime.

Como a CBF é um vácuo de poder neste momento, não há como a instituição exigir qualquer coisa dos clubes, que mandam em quase tudo em relação ao Campeonato Brasileiro. Lembremos que Rogério Caboclo está suspenso do seu cargo de presidente da CBF e o presidente em exercício é Ednaldo Rodrigues. Embora mais habilidoso em relacionamento com os clubes, não tem força para que a regra seja renascida.

A ideia, porém, deveria ser melhor debatida e aprimorada. Os clubes, claro, olham do ponto de vista mesquinho que a troca de técnicos é sempre um recurso interessante, às vezes político, às vezes esportivo. Demissão de técnico é uma forma de culpar quem sai por todos os problemas, o que, sabemos, muitas vezes está longe de ser verdade.

A restrição deveria ser aprimorada. O mais óbvio seria simplesmente tirar esse recurso picareta que os clubes inseriram na regra em 2021 de excluir o comum acordo de demissões. Comum acordo deve contar como uma troca do clube e também do treinador. Se ambos escolheram esse caminho, ambos devem arcar com a consequência. Não haveria exceção, portanto: toda saída de técnico teria consequências.

Se o técnico pediu demissão, conta para ele mesmo: ele não pode mais fazer isso ao longo do todo o Campeonato Brasileiro. Se o clube demite, ele não pode mais trocar até o fim da competição. Se foi comum acordo, conta como demissão do clube e do técnico e nenhum dos dois pode trocar de clube mais uma vez.

Uma alternativa interessante seria colocar a restrição nos técnicos, como acontece na Itália. Por lá, cada técnico pode dirigir apenas um clube da mesma divisão em toda a temporada. Se ele decidir sair, ou for demitido, só pode trabalhar em uma divisão diferente da que ele já trabalhava. Isso, claro, não impede as trocas de técnicos, mas impede que clubes mais ricos levem os técnicos que fazem bons trabalhos de clubes menos ricos. Além de criar uma restrição que é interessante, já que o clube, quando demite, precisa procurar um técnico que está sem trabalhar ou que está em outra divisão, ou mesmo fora do país.

Tudo isso, porém, não será ouvido e muito menos seguido pelos clubes, que querem continuar fazendo o torcedor de bobo quando vê que a vaca foi para o brejo e joga tudo nas costas dos técnicos. Estes, por sua vez, também não têm pudor de largar clubes pelo caminho em busca de uma proposta melhor mesmo que no meio da temporada. O mercado não se autorregula, então seria interessante ter alguma forma de regulação.

O que provavelmente veremos em 2022 será o de sempre: uma série de trocas de treinador ao longo da temporada, batendo quase uma por rodada e com clubes chegando a três ou quatro técnicos no ano, enquanto alguns técnicos treinarão dois ou três clubes no ano. Não existe trabalho nem de médio prazo no Brasil: é tudo feito pensando só da mão para a boca, vendendo almoço para comprar janta. E segue o baile.

Mostrar mais

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo