Brasileirão Série A

CBF quer importar festa para abertura do Brasileirão, mas esquece o principal: o calendário

CBF quer mudar a forma como encaramos a abertura do Brasileirão, mas esquece de fazer o bolo direito antes de colocar a cereja

A CBF quer mudar a forma como o Campeonato Brasileiro começará em 2024. O presidente Ednaldo Rodrigues quer que o campeonato tenha uma rodada de abertura especial, com o campeão do ano anterior enfrentando um time de grande torcida. A ideia é promover uma grande festa, com inspiração no que acontece nas ligas dos Estados Unidos, segundo informado por Lauro Jardim, no jornal O Globo. Parece uma boa, não é? Seria mesmo, se não tivéssemos alguns problemas por aqui.

O Brasileirão começa no meio da temporada por aqui, depois de três longos meses de estaduais. É importante entender porque as liga americanas fazem esse tipo de festa na primeira rodada e por que o nosso calendário não permite copiar essa fórmula com o mesmo sucesso.

Aliás, copiar modelos estrangeiros, especialmente os europeus, é algo que fazemos muito por aqui. Algumas ideias são boas e devem ser copiadas. Outras, bem, merecem uma reflexão melhor. A final em jogo único que a Conmebol copiou da Uefa, por exemplo, é uma ideia extremamente questionável, indo contra a essência do futebol sul-americano e ignorando problemas logísticos grandes do continente. Outras ideias, como os dois times entrarem juntos em campo, são medidas apenas cosméticas para passar um verniz de modernidade.

A ideia de uma abertura do Brasileirão esbarra em alguns problemas, que citaremos a seguir. Dá para dizer que todos eles são ligados por um fio comum: o calendário, que é responsabilidade da própria CBF. Primeiro, vamos entender a inspiração do modelo copiado desta vez.

Como acontece nos Estados Unidos, inspiração da CBF

A ideia de uma abertura especial das ligas americanas acontece porque os torcedores ficam meses sem ver seus times. A NFL, liga de futebol americano, por exemplo, termina normalmente no começo de fevereiro e a temporada só recomeça em setembro. E isso para os clubes que vão até as finais, porque a temporada regular acaba em dezembro do ano anterior.

Os torcedores ficam ansiosos para voltarem a ver o seu time e seus ídolos depois de mais de seis meses do fim da temporada. Até por isso, as pré-temporadas costumam já ser uma festa, com a abertura da temporada chamando muito a atenção dos torcedores e na TV que transmite.

O mesmo acontece na MLB, a tradicional liga de beisebol, vive o mesmo. A temporada começa no fim de março e vai até o início de outubro. Quando acaba, os torcedores ficam quase cinco meses sem assistir a um jogo da liga. A pré-temporada já causa alvoroço, antes que seja feita uma grande festa na primeira rodada.

A NBA, a mais importante liga de basquete do mundo, começa no fim de outubro e vai até junho de 2024, data das finais. Para alguns clubes, que não passam da temporada regular, a temporada acaba em abril. Para esses torcedores, são praticamente seis meses sem ver o seu time jogar. Para os times que chegam às finais, são cerca de cinco meses sem ver o time jogar.

A MLS, liga de futebol dos Estados Unidos e Canadá, também deixa um longo tempo sem jogos para os clubes. A temporada 2023, por exemplo, começou no fim de fevereiro e a temporada regular vai até o fim de outubro. Os playoffs ainda vão até o começo de dezembro. O time de Lionel Messi, por exemplo, o Inter Miami, foi eliminado na fase regular e ficará sem jogar de 21 de outubro deste ano até o fim de fevereiro do ano que vem, quando começa a temporada 2024, quase quatro meses sem jogar partidas oficiais.

Tudo isso é importante para entender que a rodada inaugural dessas ligas é mesmo uma festa e é muito legal que seja assim, mas acontece porque os seus torcedores estão há muito tempo sem assistir seus times. É um reencontro do torcedor, seja no estádio ou pela TV, com o seu time. É uma festa e faz muito sentido que seja assim. No Brasil, porém, a situação é um diferente.

Brasileirão já começa no meio da temporada (e do caos)

O Brasileirão tradicionalmente começa no fim de abril ou início de maio e vai até o começo de dezembro. Se esse fosse o único torneio que os clubes brasileiros disputam no Brasil, faria todo sentido ter um jogo de abertura como esse, porque seriam quase cinco meses de intervalo entre o fim e o começo. O problema é que o calendário brasileiro não começa com o Brasileirão. Começa meses antes, com os enfadonhos estaduais.

O calendário da CBF prevê 16 datas para os Estaduais, que normalmente começam no fim de janeiro ou começo de fevereiro. Em 2023, por exemplo, o Campeonato Paulista começou no dia 14 de janeiro. Em 2022, começou no dia 25 de janeiro. Ainda não há o calendário de 2024, mas é provável que siga a mesma tendência de começar no fim de janeiro.

O Estadual vai até abril, quando chega às fases decisivas. Até lá, os clubes vivem altos e baixos, alguns demitem seus treinadores, algumas torcidas já chegam desgastadas com o time quando o Brasileirão, enfim, começa. Isso sem falar da Copa do Brasil, que começou em 2023 no dia 21 de fevereiro. Quando o Brasileirão começou, no dia 16 de abril, o torneio já estava na terceira fase.

Competições sul-americanas sempre são mais valorizadas que o Brasileiro começando

Ainda tem as competições sul-americanas, que têm suas fases preliminares ainda em fevereiro e a fase de grupos usualmente começa no fim de março ou começo de abril. Quando o Brasileirão 2023 começou, por exemplo, a Libertadores já tinha jogado a primeira rodada da fase de grupos.

Ou seja: o Brasileirão começa no meio da temporada brasileira, quando os clubes têm, no mínimo, 16 jogos disputados, se só disputaram o estadual. Os principais clubes do país já têm mais de 20 jogos disputados, com tranquilidade, juntando todas as competições. Já é mais do que um turno inteiro do Brasileirão.

Por todo esse contexto, alguns times costumam até mesmo colocar reservas na primeira rodada do Brasileirão, já pensando em competições paralelas, como a Libertadores ou mesmo a Copa do Brasil, quando há jogo na mesma semana da abertura do torneio. Por vezes vemos essa situação ridícula de um time estrear no principal campeonato disputado no Brasil com reservas — algo que é bem comum no Brasil e até na América do Sul, pelos nossos calendários sempre cheios de problemas.

Era melhor a CBF pensar em outras soluções antes

Seria melhor que a CBF pensasse em melhorar esse calendário, de preferência reduzindo o estadual (ou melhor ainda, transformando os estaduais na quinta divisão brasileira, adequando Série D e Série C para terem calendários mais robustos). Mas fazer isso vai contra tudo que a CBF precisa, que é de apoio político das federações.

Manter os estaduais é ainda dar algum resquício de poder a essas entidades, que, no fim, elegem o presidente da CBF. Foi por isso também que a CBF mudou a forma de classificação para a milionária Copa do Brasil, dando aos estaduais um peso grande.

Uma forma de forçar a valorização desses torneios, que são, além de desinteressantes do ponto de vista comercial, esportivamente ruins para todos os envolvidos. Isso sem falar que são deficitários do ponto de vista econômico — ao menos em sua imensa maioria. A Copa Paulista 2023, com disputas locais e bons públicos, mostram que os estaduais, readequados para os times que precisam, podem ter sucesso.

A CBF precisava rever o calendário de forma urgente, para tornar o futebol brasileiro melhor. Este é, talvez, o principal problema daqui. Há outros importantes, como a melhora da arbitragem, uma melhor qualificação, uma forma de financiar o futebol de base e das divisões inferiores. Tudo isso é importante. O calendário, porém, é o que parece o gargalo mais importante. Isso, porém, a CBF não parece estar preocupada.

Diante desse cenário, uma boa ideia, que é de valorizar a abertura do Campeonato Brasileiro e fazer dele um jogo de festa, fica deslocada. Serve apenas como um arranjo cosmético, como pintar os péssimos gramados que vemos por aí de verde. A ideia é inócua. Ou, como diria o meme que tem a apresentadora Renata Vasconcellos, do Jornal Nacional: xoxa, capenga, manca, anêmica, frágil e inconsistente.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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