Campeonato Brasileiro

Campeonato Brasileiro 2021 será estendido até o fim de dezembro, com consequências para 2022

CBF irá adiar jogos dos clubes que tiveram jogadores convocados para seleções em outubro e novembro, e Brasileirão vai além do dia 5 de dezembro

O Campeonato Brasileiro 2020 só foi terminado em 2021 por causa da pandemia da COVID-19 e as consequências terão impacto também na edição deste ano. Inevitavelmente, o Brasileirão 2021 terminará depois do dia 5 de dezembro, indo até o final de dezembro – e correndo risco de precisar até de mais datas. Isso pode ter sequelas para 2022, um ano de Copa que terá um calendário bem diferente e com o torneio disputado em novembro e dezembro, apertando o calendário brasileiro.

A informação foi publicada pelo ge.globo, em matéria assinada por Martín Fernandez. Como o Mundial de Clubes será adiado para janeiro, deu margem para que a CBF tivesse mais tranquilidade para esticar a corda do Brasileirão até o fim de dezembro. Já se sabe que o calendário original não será cumprido, o que já parecia óbvio. Só que agora os adiamentos serão multiplicados e haverá problemas de calendário no fim do ano para realizar todos os jogos.

A Série A tinha previsão de terminar no dia 5 de dezembro, mas a CBF confirmou na coletiva de imprensa da convocação para outubro que irá adiar os jogos dos clubes que tiverem convocados nas datas Fifa de outubro e novembro. Isso significa que muitos clubes estarão com um bom número de jogos atrasados, ao menos cinco – e talvez até mais, como mostramos mais à frente.

O impacto dos adiamentos

A janela de jogos internacionais, que conhecemos como Data Fifa, tem jogo no dia 7 de outubro, mas na verdade começa antes: os jogadores se apresentam no dia 4 e só são liberados depois do último jogo, no dia 14. Isso afeta três rodadas do Campeonato Brasileiro: a 24ª, no dia 6; a 25ª, no dia 10, e a 26ª, no dia 13. Ou seja: times que tiverem seus jogadores convocados terão três jogos adiados.

Em novembro, a janela de jogos internacionais terá dois jogos, e não três, como as anteriores. Assim, os jogos serão realizados nos dias 11/11 e 16/11, quinta e terça, respectivamente. Os convocados precisam se apresentar antes, no dia 8. Com isso, perderão, no mínimo, três rodadas: a 31ª, no dia 10, a 32ª, no dia 14, e provavelmente também a 33ª, que acontece no dia 17, um dia depois do jogo das Eliminatórias.

Se tornou prática comum que jogadores que atuam no Brasil saiam de um jogo de Eliminatórias na terça-feira à noite para estarem em campo 24 horas depois, na quarta-feira, pelo seu clube. Isso não deveria acontecer, especialmente pensando na saúde dos jogadores e até no seu rendimento, já que é difícil exigir que alguém renda nesse nível de desgaste, especialmente aqueles que jogarem mais minutos pela Seleção.

Aliás, é proibido que os jogadores entrem em campo em um intervalo tão curto por um acordo com o sindicato. O problema é o sindicato ser uma farsa e ter pouca representatividade entre os jogadores e nenhuma força do ponto de vista político. Ou seja: embora eles teoricamente fossem impedidos de jogar, eles não serão impedidos. A CBF usará isso para forçar que a rodada aconteça. Os clubes terão que optar por usar seus jogadores cansados e arriscar lesioná-los, ou abdicar deles em parte, ou todo o jogo.

Se os jogadores fossem impedidos de jogar, os jogos provavelmente seriam adiados. Como não deve ser o caso, é mais provável que os jogadores sejam liberados a atuar e os clubes fiquem com a batata quente nas mãos. Com isso, o número de jogos adiados na Data Fifa de novembro deve ser dois. Somadas as duas janelas internacionais, os clubes somariam no mínimo cinco jogos para recuperar, além dos que já foram adiados.

Hoje temos clubes com 18, 20 e até 21 jogos. Essa discrepância deve continuar com as próximas janelas internacionais. Isso tem um impacto até na forma como a disputa acontece, já que a soma de pontos dos demais times, sem jogos adiados, já pode criar uma situação complicada – seja na disputa contra o rebaixamento, por vagas em competições sul-americanas ou até pelo título.

Não sabemos como os clubes recuperarão esses jogos atrasados. O Brasileiro tinha jogos programados até o dia 5 de dezembro e, a partir do dia 6, os jogadores entrariam de férias. Esse adiamento vai acontecer e já é certo. Será preciso recuperar, no mínimo, cinco rodadas depois dessa data, ainda que não sejam rodadas completas. Isso considerando que as rodadas que estão atrasadas neste momento possam ser recuperadas antes do dia 5 de dezembro, porque se não, a conta não fecha nem assim.

Se espremer muito o calendário, esses jogos podem ser recuperados jogando na quarta, dia 8 de dezembro; domingo, dia 12; quarta, dia 15; domingo, dia 19; e quarta, 22. Às vésperas do Natal, como já aconteceu em outros momentos do Campeonato Brasileiro. Nesse cenário, as férias dos jogadores só começariam no dia 23 de dezembro e teriam que durar até, no mínimo, o dia 22 de janeiro. Só que há um problema: ainda em janeiro já temos data Fifa extra e estaduais começando no Brasil.

Copa 2022 no fim do ano aperta calendário

Tudo isso já seria problema em um ano comum, mas 2022 não será um ano comum. O calendário brasileiro é absurdamente grande, especialmente por causa da presença dos estaduais, que representam cerca de 18 datas. O Campeonato Brasileiro é normalmente disputado de maio ao início de dezembro, com 38 datas. Ainda há Copa do Brasil e campeonatos sul-americanos, Libertadores e Sul-Americana. Em alguns casos, ainda há o campeonato regional, como a Copa do Nordeste e a Copa Verde. Desta vez, porém, tudo isso precisa acabar, no máximo, até o final de outubro, que é quando as seleções terão que se apresentar para a disputa da Copa do Mundo de 2022.

Há algo bem importante: as Eliminatórias se estenderão até março de 2022. Ou seja, poucos meses antes da Copa do Mundo, ainda haverá jogos classificatórios. Mais do que isso: teremos uma Data Fifa extra em janeiro, com jogos nos dias 26 e 31. Depois, as Eliminatórias serão encerradas nos dias 23 e 28 de março de 2022. Com a Data Fifa extra em janeiro, as férias dos jogadores já estão em risco de não acontecerem ou serem reduzidas, mesmo que os clubes decidam não usar seus times principais nos estaduais – o que é prudente do ponto de vista físico e esportivo, mas gera problemas do ponto de vista de direitos de transmissão, já que os clubes precisam do dinheiro e que é cada vez menor nessas competições.

A Copa do Mundo de 2022 começará no dia 21 de novembro. Normalmente, as seleções se apresentam ao menos três semanas antes para se prepararem para o torneio. As delegações teriam que se apresentar até o início do mês de novembro. Todas as competições que usam o calendário solar, ou seja, de janeiro a dezembro, teriam que encerrar suas atividades até o dia 30 de outubro. Se houver uma tolerância muito grande, até o dia 6 de novembro. Isso inclui não só o Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil, mas também a Libertadores e Sul-Americana. Dá tempo de fazer tudo isso em 10 meses, com férias e descansos adequados?

O que pode ser feito?

Do ponto de vista prático, uma solução simples seria reduzir drasticamente os estaduais de 17 ou 18 datas (nos principais deles) para cinco ou seis datas. Isso já ajudaria a resolver parte do problema. Em uma situação excepcional como será em 2022, talvez mesmo a Copa do Brasil precise ter seu calendário reduzido, sem jogos de ida e volta, por exemplo – há quem ache que esse deveria ser o formato sempre, inclusive.

Em uma solução ainda mais radical, poderia se reduzir as 38 rodadas do Brasileiro com o formato antigo da competição – turno único de 19 jogos e mata-mata. Isso dificilmente acontecerá por um motivo simples: há direitos de transmissão vendidos com mais jogos e, portanto, uma redução dessa implicaria redução significativa de receitas, já que com menos jogos, a TV também pagaria bem menos. O Campeonato Brasileiro é, atualmente, a maior fonte de receitas da maioria dos clubes. Mexer ali é, portanto, é muito pouco provável.

Os estaduais não têm esse problema: a maioria está sem contratos já para 2022, ou possuem contratos bastante reduzidos, como é o caso do Carioca – que tem direitos de TV aberta vendidos para a Record em 2022, mas não tem TV fechada e pay-per-view. Paulista, Mineiro e Gaúcho ainda negociam seus direitos, depois do fim dos contratos com a Globo – a própria Globo é uma das que negocia esses direitos e já se mostrou interessada em reduzir os estaduais e valorizar mais o Campeonato Brasileiro, como falamos aqui.

Resta saber como os dirigentes lidarão com todos esses problemas de calendário. As federações estaduais têm um peso político grande na CBF e ninguém queria mexer com elas. Agora, que Rogério Caboclo foi afastado até praticamente o fim do seu mandato e com as federações ditando os rumos na entidade, parece difícil imaginar que os estaduais serão reduzidos.

Para mudar isso, os clubes teriam que se mexer para mudar. Teria que haver algo como uma liga de clubes que decidisse levar adiante o plano de organizar o Campeonato Brasileiro. Só que acreditar em liga de clubes no Brasil é como acreditar em alienígenas. Sabemos que é possível, mas nunca vemos nada. Como diria a série Arquivo X, “I want to believe” (“Eu quero acreditar”).

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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