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Adeus, Seu Elias: Uma homenagem a todos aqueles que dedicam suas vidas ao futebol

Era olhar em direção à enfermaria do estádio, ao lado da arquibancada principal da Rua Javari, que ele costumava estar lá. O jaleco branco impecável, junto com os óculos característicos e o bigode mantido por décadas. Às suas costas, o enorme “J” representava a vida dedicada ao Juventus. Elias Pássaro chegou ao clube em 1953, aos 24 anos de idade. Vizinho do estádio, o jovem costumava ser assíduo no alambrado grená. Até que foi convidado pelo massagista a trabalhar no clube. Desempenhou diferentes funções ligadas aos cuidados dos jogadores, somou 63 anos como funcionário juventino. E faleceu nesta terça, aos 87 anos, como um verdadeiro símbolo do Moleque Travesso.

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Nos últimos anos, a idade avançada até podia impedir seu Elias de se debruçar tantas vezes nas muretas ao lado das arquibancadas. Mas as histórias do Juventus seguiam se encarnando naquele senhor. Durante mais de quatro décadas, entrou em campo com os jogadores, atuando como massagista. Trabalho que conciliou ainda com a rotina de farmacêutico em um hospital municipal. Já desde meados da década passada, passou a trabalhar somente na enfermaria. Só que, além de funcionário, também era um grande torcedor grená – para alguns, até mesmo “o maior juventino de todos”. Viu Clóvis e Julinho Botelho, assim como Gil. Permanecia como memória viva da Rua Javari.

Seu Elias era uma entidade no estádio. Bastavam poucos jogos acompanhando o Juventus para reconhecer o funcionário mais antigo do clube – uma empatia natural, como acontece com todos os outros rostos conhecidos que trabalham na Javari a cada domingo de manhã. E, do alto de sua experiência, o massagista era gentileza pura. Cumprimentava a todos. Emprestava a sua voz mansa, de forte sotaque mooquense, para quem quisesse saber um pouco mais da trajetória grená.

Há alguns anos, por duas vezes, passei parte de um jogo do Juventus ao lado do seu Elias. Tinha o conhecido gravando um minidocumentário para a faculdade. E, naturalmente, me encantei por aquele senhor de lembranças tão lúcidas, daquilo que presenciou por décadas e décadas vividas em um estádio. Contava com detalhes vários “causos” do Moleque Travesso. E como outros que gostam de se gabar, ele realmente estava na Javari no dia do mítico gol de Pelé. Falava com orgulho e simplicidade da jogada magistral, em tarde na qual o jovem Rei era achincalhado pela torcida grená. Também com enorme respeito, como sempre o veterano costumava tratar o futebol.

elias passaro

Mesmo conhecendo-o tão pouco, indo à Javari menos do que eu gostaria, o adeus de Seu Elias dá aquele aperto no peito. Um pesar que se sente pelo grande homem. Pelo passado do Juventus que o massagista representava e que, ao menos materialmente, se perde. Mas também se mantém vivo. A torcida grená já não conta mais com as memórias do funcionário que nunca foram gravadas ou registradas em papel, mas que se espalhavam nas simples conversas. Porém, a partir desta terça, a própria imagem de Seu Elias à beira do campo se eterniza como história. Espalhada nas lembranças de milhares de pessoas que o viram, o cumprimentaram e ouviram os seus contos de décadas em grená. Quem quiser vê-lo, ele estará lá, em dezenas de fotos históricas do time posado.

Seu Elias, por fim, vai além de sua figura em si. Obviamente, os 63 anos trabalhando em um dos estádios mais apegados ao tradicionalismo do futebol no país possuem um simbolismo enorme. Mas também fala sobre aqueles que, de domingo a domingo, ganham suas vidas se dedicando aos clubes, em estruturas distantes do “padrão Fifa”. Sujeitos humildes, mas cheios de histórias para contar, que ajudam a transformar o futebol em um ambiente extremamente familiar. Exemplos que merecem todo o respeito, como o saudoso Elias Pássaro.

Abaixo, uma lembrança de Elias Pássaro: a entrevista concedida a Douglas Nascimento, contando um pouco de sua longa história no futebol

Entrevista: Elias Pássaro from Douglas Nascimento on Vimeo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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