Campeonato Brasileiro

Acima do impacto, a contratação de Éverton Ribeiro é importante pelas alternativas que traz

As conversas se estenderam pelas últimas semanas, até que o desfecho se concretizasse na noite desta segunda. Éverton Ribeiro é o mais novo reforço do Flamengo para o segundo semestre. Estrela do Cruzeiro no bicampeonato nacional, o meia estava no Al Ahli emiratense desde 2015 e assina com os rubro-negros pelos próximos quatro anos. Um acréscimo bastante válido ao elenco de Zé Ricardo, não apenas pelo talento reconhecido do jogador, como também pela capacidade que oferece à rotação. Se o clube quer mesmo ser competitivo no Campeonato Brasileiro, precisa de alternativas realmente úteis em seu elenco, e o novato se faz primordial exatamente por isso.

VEJA TAMBÉM: No fim das contas, o negócio com Vinícius Júnior se sugere interessante para todas as partes

A falta de nível competitivo nos Emirados Árabes Unidos é um questionamento natural sobre Éverton Ribeiro. De qualquer maneira, o meia não teve problemas para se colocar como um dos protagonistas da equipe, especialmente a partir da temporada passada. Conquistou o campeonato nacional, destacando-se, e teve boa participação na Liga dos Campeões da Ásia. Obviamente, a exigência na Gávea será muito maior. Mas talento é o que não falta ao meio-campista, tanto por sua capacidade técnica quanto pela velocidade, capaz de potencializar o jogo vertical dos rubro-negros. Além disso, é uma peça que pode se encaixar em diferentes funções na trinca de meias.

Outra pergunta que se coloca imediatamente sobre o anúncio de Éverton Ribeiro está na montagem do “time ideal” do Flamengo, especialmente diante do retorno de Diego e da aproximação da estreia de Darío Conca. O que pode ser visto mais com bons olhos do que com desconfiança. A gestão do elenco com tantas estrelas não é tão simples. De qualquer maneira, nem todos precisam jogar ao mesmo tempo. A quantidade de opções para variações de jogo ou mesmo para suplantar possíveis desfalques é fundamental para suportar uma competição longa e exigente como o Campeonato Brasileiro – além das demais frentes, com a Copa do Brasil e a Copa Sul-Americana. Se conseguir extrair o melhor de seus destaques, o Fla tem totais condições de brigar pelos títulos, justamente pelas diferentes maneiras que pode encarar os adversários e superar os percalços.

No mais, a própria diretoria do Flamengo parece ter aprendido com os erros. A janela de transferências do início do ano foi insuficiente e pouco contribuiu com a campanha do time na Copa Libertadores. Os dois principais nomes para o setor ofensivo, Conca e Berrío, não ajudaram muito. Suas ausências, combinadas a outras, pesaram bastante. Não à toa, Trauco (este, o principal dos reforços até o momento) e Rodinei foram escalados como pontas em algumas partidas. E a presença de jogadores mais tarimbados, que chamassem mais a responsabilidade, poderia ter contado outra história no torneio continental, especialmente depois da contusão de Diego.

As perspectivas de Zé Ricardo para o setor, aliás, aumentam bastante neste início de Brasileirão. Não apenas pela volta de seus lesionados, como também pela ascensão de Vinícius Júnior, amadurecendo jogo a jogo. A afirmação do prodígio com a camisa rubro-negra se sugere inescapável. Será importante, portanto, contar com outros jogadores de tarimba para acompanhá-lo e para dividir responsabilidades. O ex-cruzeirense pode ser mais uma alternativa para o lado esquerdo do ataque, além de Everton Cardoso. Todavia, a expectativa é a de que o novo contratado dispute espaço com Gabriel e Berrío do lado direito, onde se consagrou no bicampeonato nacional.

O desembarque de Éverton Ribeiro soa inclusive como a primeira consequência da venda milionária de Vinícius Júnior. O meia vem por €6 milhões, valor relativamente alto para o mercado nacional, em compra por 100% de seus direitos. Todavia, olhando para o bolso, é importante que o Flamengo também avalie mais as suas necessidades que as oportunidades de mercado em si. Dos outros negócios em vista, a contratação do zagueiro Rhodolfo surge como bastante pertinente, em especial pela carência evidente no miolo da defesa, com a falta de sequência de Donatti e a falta de segurança com Rafael Vaz. Já o acerto com Geuvânio gera um pouco mais de dúvidas, por talvez oferecer um excesso de nomes às pontas. Há necessidades maiores, como uma opção que faça frente a Alex Muralha, em péssima fase, apesar da volta de Paulo Victor; e outro volante que possa cumprir o papel de Willian Arão, que também caiu de nível nos últimos tempos.

Tanto quanto dar uma identidade ao time, uma das missões mais difíceis do Flamengo será gerir o elenco. E, neste sentido, talvez fosse pertinente se desfazer de alguns nomes que não desfrutam da mesma confiança para causar impacto no 11 inicial. As alternativas são pertinentes, mas a diretoria precisa pensar também na satisfação dos jogadores e na pesada folha salarial. Só que, por mais que seja um novo concorrente e um débito a mais nas contas do clube, Éverton Ribeiro indica que tem muito mais a agregar. Às vésperas da Copa do Mundo, sabe que seu desempenho no clube pode também ser um impulso para voltar à seleção brasileira. Motivação extra para emplacar na Gávea.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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