Campeonato Brasileiro

A necessidade de mudança no comando da arbitragem era óbvia, mas a melhora depende de muito mais

Depois de tantas arbitragens desastrosas, a CBF demitiu Leonardo Gaciba da presidência da Comissão de Arbitragem

O desgaste da arbitragem no futebol brasileiro é evidente. Acompanhar certas rodadas no Brasileirão se transforma num exercício de paciência, especialmente desde a introdução do VAR. A ferramenta que deveria auxiliar os árbitros e reduzir a incidência dos erros, no fim das contas, quebra o ritmo dos jogos com infindáveis debates para se tomar uma decisão e coloca uma lupa sobre as falhas – que continuam recorrentes. E, bem, olhando para o exemplo de outros tantos países, está claro como o Brasil vive uma realidade paralela com sua tecnologia muito mais problemática – por culpa de quem a opera, não do aparato em si. Diante de tantos problemas óbvios, uma semana desastrosa dos apitadores resulta na demissão de Leonardo Gaciba, presidente da Comissão de Arbitragem, pela CBF.

Gaciba chegou ao comando da arbitragem prometendo modernização e melhor preparação. A introdução do VAR era o passo fundamental nesse processo. A ferramenta chegou ao Brasil em 2018 e, desde então, já se tinha consciência de que melhorar o tempo de resposta nas decisões era algo a ser aprimorado. De início, dava até para tolerar o “período de experiência e adaptação”, até que a tecnologia passasse a fluir de maneira mais natural durante as partidas. Mas não foi isso o que aconteceu. Pelo contrário, a arbitragem brasileira passou distante de uma evolução no trato com o auxílio.

Dá para apontar diferentes falhas no processo de utilização do VAR no futebol brasileiro. Certas competições demoraram mais que o necessário para contar com o auxílio da tecnologia nestes primeiros anos e a própria maneira como a CBF, bem como os clubes, lavaram as mãos em relação aos gastos adicionais foi bastante discutível. Mas, com o VAR à disposição, o entrave óbvio é a falta de capacitação. E se os árbitros brasileiros já tinham um problema de preparação e treinamento antes mesmo da chegada da tecnologia, sem profissionalização, na verdade o novo auxílio escancarou mais as defasagens.

Esperas de cinco minutos ou mais para se tomar uma mísera decisão se tornaram corriqueiras em quase todos os jogos no Brasil, enquanto isso passa longe de ser o padrão em outros lugares. A indecisão se escancarou, com tempo demais para pensar e por vezes mostras de desconhecimento das regras. Isso sem contar as incontáveis vezes em que os árbitros, em reunião, parecem brigar com as imagens e ter medo de tomar sua posição para a continuidade do jogo. Tanto é que acusações de interferências externas na própria tomada de decisões passou a ser levantada por algumas partes. Muitas partidas se tornaram reféns dessa falta de direção. Protocolo de uso do VAR virou utopia, quando todos os lances viram motivo de revisão.

O VAR, logicamente, pode ser aprimorado. A própria maneira como os impedimentos são definidos é um ponto passível de evolução, e novos métodos devem ser aplicados em breve para que as leituras dos lances aconteçam de maneira automática. De qualquer forma, o auxílio da tecnologia muitas vezes se torna prejudicial no Brasil, pela maneira como as decisões são conduzidas pelos árbitros. O futebol brasileiro entrou numa bola de neve, sem indicar soluções e com discussões cada vez mais longas para cada mísera jogada. Os árbitros parecem temer a opinião pública e os ataques dos clubes, ao mesmo tempo em que não estão seguros em sua tarefa mais básica – aplicar a regra corretamente.

A semana do Brasileirão, então, guardaria dois episódios emblemáticos sobre o despreparo da arbitragem. Primeiro, no Fortaleza x São Paulo, na definição de um impedimento em que os árbitros sequer se atentaram que os são-paulinos, no ataque, vestiam branco. Independentemente da decisão final, tal equívoco soa de forma ridícula. Já nesta quinta-feira, o Flamengo x Bahia contou com um dos pênaltis mais inacreditáveis possíveis. Estava muito claro que a bola bateu no peito, mas sabe-se lá o que o árbitro Vinícius Gonçalves Dias Araújo pensou diante daquilo. E isso foi só a gota d’água, num campeonato que ignorou regras mais básicas, de impedimento marcado no campo de defesa a outros absurdos que deveriam estar no bê-á-bá dos juízes.

É óbvio que o VAR não vai acabar com os erros de arbitragem no futebol. Muitas decisões são interpretativas e a própria regra abre para o entendimento de maneira diferente. Saber diferenciar braço de peito ou branco de tricolor, porém, é algo que deveria ser evidente para qualquer um. Indica não apenas uma falta de capacidade, mas também o próprio clima desfavorável ao redor dos árbitros no Brasil – o que, é claro, não exime os erros. Eles muitas vezes parecem ignorar o básico quando precisam fazer suas escolhas com rapidez e sob pressão. E isso depende de preparo, de segurança, de treinamento. A própria discussão sobre a profissionalização volta à tona, quando os árbitros no Brasil sequer se dedicam em tempo integral ao ofício e acabam muito mais suscetíveis aos erros sem se concentrarem totalmente no apito.

Diante de tantos problemas, nada mais justo que mudar o comando da Comissão de Arbitragem. Ainda que isso não necessariamente vá garantir uma melhora automática no trabalho dos apitadores brasileiros. Tal objetivo envolve tantos outros fatores e uma própria cultura futebolística.

Uma mudança mais ampla

A saída de Gaciba do comando da arbitragem já era esperada para o final da temporada. Conforme informações do Globo Esporte, o presidente interino da CBF, Ednaldo Rodrigues, estava descontente com a maneira como o poder decisório acabava concentrado nas mãos de Gaciba. Outro ponto de fricção era o corporativismo ao redor dos árbitros, protegidos diante dos erros, sem qualquer afastamento ou processo de reciclagem após falhas.

Tal questionamento, aliás, não fica nem mesmo restrito à confederação: basta acompanhar as competições e perceber a maneira como tal protecionismo se transformou num ciclo vicioso. Um passo importante para a mudança nesse sentido foi a divulgação dos áudios a pedido da própria CBF. A transparência era mais que necessária no contexto do futebol brasileiro, numa ocultação de informações que parecia apenas passar a mão na cabeça dos árbitros e os afastava de uma avaliação pública que já passa por aquilo que acontece em campo. No fim das contas, esses áudios também escancaram o tamanho do buraco e do despreparo.

As instruções mais claras, a preparação bem feita e a tomada de decisão mais ágil necessitam ser um tripé da arbitragem em qualquer lugar. No Brasil, também é preciso encerrar certo comodismo aliado ao medo excessivo, que passaram a existir em diferentes frentes. Por falta de segurança de decidir, diferentes árbitros passaram a se sentir cômodos em debater os lances, em vez de acelerar os processos e priorizar aquilo que foi visto no campo. A impunidade nos próprios mecanismos internos da comissão e o protecionismo quanto às devidas sanções facilitava tal acomodação. E o que se via, gradativamente, era um sistema deteriorado e extremamente prejudicial ao próprio produto do futebol – o jogo.

Está claro como investir em tecnologia e prometer modernidade não é suficiente, quando o processo é falho. Gaciba, no fim das contas, acaba se tornando mais um retrato da gestão de Rogério Caboclo na CBF – com muitas promessas e pouca efetividade, além de uma série de problemas na própria administração e na gestão de recursos humanos. A organização da arbitragem parece ter regredido, já que se torna mais difícil consertar o ambiente do que propriamente introduzir o VAR, como foi há três anos.

O VAR, por si, ainda é um ganho substancial e contribui para a redução de erros da arbitragem. Porém, acaba parecendo um desserviço quando a própria dinâmica do jogo é tão prejudicada e quando seus responsáveis não são capazes de aproveitá-lo. O que se cria, assim, é um ambiente de mais insegurança e erros difíceis de se aceitar. Ainda mais quando ocorrem em lances tão básicos, como o de Flamengo x Bahia.

De qualquer forma, apenas uma demissão não é suficiente para esperar melhoras significativas. A reformulação precisa de novos métodos, de cobranças efetivas na estrutura de poder e de uma preparação contínua que não passe a mão na cabeça de quem erra. Depende, além do mais, da participação de outros atores para exigir melhorias e também colaborar com o trabalho – sobretudo os clubes. Parte dos problemas vem também da postura de jogar para a torcida quando seu time é prejudicado e lavar as mãos quando é beneficiado, ou pela maneira como os jogadores agem de forma intempestiva em quase todas as decisões do VAR em campo. O imediatismo de levar vantagem também corresponde ao problema. Este ponto, contudo, depende de uma mudança cultural mais difícil de se acreditar.

Alício Pena Júnior, contrário à maneira como a Comissão de Arbitragem vinha agindo, é quem terminará o ano na presidência. Uma reformulação mais profunda deve acontecer a partir de 2022. Segundo reportagem do UOL Esporte, um intercâmbio com árbitros estrangeiros e o apoio da Fifa também são estudados. Que se aprenda um pouco, então, com lugares onde a tecnologia é bem melhor utilizada e onde a pressão, embora existente, não resulta em tamanha falta de contundência como no Brasil.

A expectativa por melhorias reais deve ocorrer quando preparo e exigência por eficiência realmente acontecerem, sem deixar de lado uma participação ativa também dos clubes e um acompanhamento que não se restrinja ao pós-jogo. Mas, para se mudar uma cultura de usar o VAR como muleta, que se esquece de premissas básicas da arbitragem, é melhor esperar com muita paciência e não tantas esperanças. O futebol brasileiro precisa, antes da tecnologia, de árbitros bem preparados e seguros – o que a própria estrutura não consegue oferecer, quando o pedido por excelência só surge quando sua equipe não é mais beneficiada. Passou da hora do Brasil perceber que a arbitragem ruim é uma das responsáveis pela desvalorização do jogo no país e do tolhimento do potencial de investimento, não só do pênalti errado marcado no jogo do meu time.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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