Campeonato Brasileiro

A demissão de Ramon diz mais sobre os vícios do futebol brasileiro do que sobre a aptidão do treinador

A passagem de Ramon Menezes pelo comando do Vasco foi da euforia ao choque de realidade em apenas 16 partidas. O treinador conquistou ótimos resultados no início do Brasileirão e elevou as expectativas ao redor da equipe. No entanto, bastou uma sequência de maus resultados e de estagnação para que o “ramonismo” fosse encerrado pela direção cruzmaltina sem pensar duas vezes. A sexta partida consecutiva sem vencer culminou, nesta quinta-feira, na demissão do técnico – uma decisão que diz mais sobre a realidade do futebol brasileiro do que sobre as próprias capacidades de Ramon na casamata.

Ramon parece vítima de seu próprio sucesso. O bom começo no Campeonato Brasileiro, lutando pela liderança, criou um ambiente irreal ao redor do Vasco. O clube deveria ver o momento favorável muito mais como uma ajuda para conquistar os pontos mínimos na luta contra o rebaixamento o quanto antes e buscar uma boa colocação na tabela. Pelas limitações do elenco e do próprio orçamento, não era difícil de imaginar que a onda positiva não duraria tanto assim. A montanha-russa seria cruel com o ramonismo.

O Vasco que largou bem no Brasileirão dependia do bom trabalho sem a bola, além do talento de Benítez e Cano, duas figuras imprescindíveis ao jogo aplicado por Ramon. Entretanto, as virtudes dos vascaínos logo se tornariam conhecidas, ao mesmo tempo em que também era possível prever que a efetividade do time não se repetiria em todos os momentos. Quando as armas deixaram de funcionar, os resultados minguaram. E isso incluiu a eliminação na Copa do Brasil contra o Botafogo, um torneio importante especialmente pela receita que oferece.

Se as ideias de Ramon não vinham mais dando certo, o treinador sequer recebeu o benefício da dúvida. Não teve muito tempo para tentar acertar a equipe e encontrar outras alternativas que pudessem proporcionar uma melhora nos resultados. As oscilações são comuns, ainda mais num calendário insano como o do Brasil neste momento, no qual há pouquíssimo tempo aos treinamentos. E as oscilações também se tornam consequência de um elenco curto, sem tantas alternativas de bom nível, em que os protagonistas acabam sobrecarregados e as categorias de base são essenciais para aguentar a maratona de compromissos.

Ramon saiu na décima colocação do Campeonato Brasileiro, ainda em condições de recolocar o time rapidamente na zona de Libertadores se melhorasse seus resultados. O clássico contra o Flamengo poderia ser determinante de qualquer maneira na próxima rodada, e até por isso a diretoria pareceu acelerar a sua decisão. Mas a sequência até o final do primeiro turno talvez ajudasse, encarando times na parte inferior da tabela, incluindo o lanterna Goiás e o igualmente criticado Corinthians. O treinador, sem receber respaldo por sua história no clube ou mesmo pela maneira como mobilizou a torcida, não pôde sequer tentar.

A demissão de Ramon entra na conta da diretoria. A mesma diretoria que tem dificuldades para manejar as finanças do Vasco e pagar salários, que fez apostas questionáveis ao elenco mesmo que o orçamento não seja tão grande e que foi quem entregou ao ex-assistente um time que não vinha rendendo. A mesma diretoria que, sobretudo, se preocupa mais com as eleições que acontecerão dentro de um mês do que com o departamento de futebol. Melhor gastar suas fichas na troca de comando técnico, quem sabe para que o efeito da novidade em campo gere o resultado esperado nas urnas.

Resta saber como o elenco comprará essa mudança. A troca repentina de Ramon Menezes, até pela maneira como não houve muito crédito ao técnico, deixa os jogadores contra os seus superiores. Segundo o GE.com e o Lance!, os atletas vascaínos indicaram sua insatisfação com a demissão. E os dirigentes dependem desse comprometimento em campo para que as coisas fluam em São Januário. A impressão também é que não houve um diálogo para orientar melhor os rumos do clube – apenas pressa pensando nas urnas.

De fato, o Vasco veio de duas atuações ruins. Tomou sete gols em duas partidas, com os 3 a 0 para o Bahia servindo de gota d’água. A defesa perdeu segurança e, sem Benítez nesta quarta, ficou mais difícil de acionar Cano. Mas será que Ramon não seria capaz de fazer o básico, ao mexer em algumas peças e diminuir o estrago atrás? A diretoria não pagou para ver, pressionada pelo clássico e pelo jejum de vitórias contra os maiores rivais. Ao escancarar a crise, parece atirar no próprio pé. E, com ou sem Ramon, uma derrota ao Flamengo não apaga erros anteriores.

O Vasco deve entrar nessa gangorra tão comum no futebol brasileiro, que alterna veteranos à beira do campo com novos nomes. Abel Braga deu lugar a Ramon Menezes e, se a direção deseja mesmo respaldo, deve ir atrás de algum medalhão que sirva de escudo. Porém, não há qualquer priorização a uma filosofia de jogo ou a uma análise das limitações presentes em São Januário. Se o ‘ramonismo’ elevou a empolgação entre os cruzmaltinos, pior a Ramon. Se os outros responsáveis pelos problemas do Vasco não vão perder sua boquinha, mais fácil demitir o técnico fragilizado pelas dificuldades em campo durante a má fase. Assim, os dirigentes se iludem na própria falta de direção, ao mesmo tempo que expõem os vícios da parca organização.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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